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BlogPoem


Promissória ao Bom Deus

Não te amarei sobre todas as coisas, mas em cada uma delas, por mínima que seja.É o que compete aos poetas fazer.

Não tomarei teu nome em vão, mesmo porque nome é coisa séria.Inclusive os feios que, ditos por dá cá aquela palha, perdem muito da sua eficácia.

Guardarei os domingos e quantos dias de festa houver, que ninguém é de ferro, como descobriste no sexto dia da criação.

Sempre honrei pai pela paciência e mãe pela ternura com que me aguentaram, a não ser por dois ou três cascudos tão a contragosto que mais pareciam carícias disfarçadas.

Só matarei no sentido figurado da palavra — matar o bicho, matar o tempo — pormais forte que seja a tentação do sentido próprio mdurante o horário eleitoral gratuito.

Não pecarei contra a casta idade assim que lá chegar, por enquanto estou só a caminho, Senhor!

Não furtarei, salvo se se tratar de uma boa idéia ou de um adjetivo feliz que possa trazer um pouco de brilho à minha fosca literatura.

Não levantarei falso testemunho de ninguém, muito menos de ti, que hás por certo de preferir um agnóstico fora do teu templo a um vendilhão dentro dele.

Não cobiçarei coisas alheias. Deixo-as todas para os filisteus do meu país, fascinados pelas quinquilharias do que, enchendo a boca, eles chamam de primeiro mundo.

Não desejarei a mulher do próximo nem a do remoto. Como sabes, jamais tive paciência de esperar na fila.

Em suma, Senhor, vou fazer o humanamente possível para seguir teus mandamentos. Mas desculpa, agora e na hora da nossa morte,qualquer eventual escorregão nas cascas que o diabo espalhjou a mancheias pelo nosso caminho depois de ter comido todas as frutas do teu, para sempre perdido, Paraíso.

José Paulo Paes ( “Socráticas”)


1 Resposta para “BlogPoem”

  1. Graça Oliveira disse:

    Um blog do Crato????Só no Crato mesmo!!!
    Gente, foi ótima essa iniciativa, o Crato precisa conhecer os cratenses.
    Sabia que fui à exposição de Reginaldo Farias e fiquei encantada com o poder que esse menino tem, de moldar, brincar e resignificar imagens. Mas além daquela arte pulsante, encantou-me profundamente, o texto do José Flávio, era um verdadeiro embate entre palavras e imagens. Reginaldo e J.Flávio, um verdadeiro caldeirão artístico.
    Graça Oliveira.

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