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Arquivo para ‘setembro, 2007’

Pétalas de Plástico na Ânfora da Vida


O que aconteceu a Ifigênia era de alguma maneira previsível. Bonita, charmosa, pôs-se durante toda a juventude a escolher os pretendentes com critérios ultra-rigorosos. Queria-os uma mistura bem dosada de lindo-santo-ricaço-garanhão. Demorou tanto a descobrir que este deus grego não desce do Olimpo para terra que , quando cuidou, já era tarde demais : haviam-lhe murchado as flores sedutoras da juventude.Aí tentou, em vão, simplificar as qualidades esperadas do futuro esposo, mas os homens já fugiam dela como o cão do credo: primeiro porque a beleza antiga já esmaecera, depois todos já tinham por besta, por cu-doce . Chegou, por fim, aquela fase do último tiro da macaca e percebeu que a garrucha, enferrujada , bateria catolé. Seguiu então aquele ritual típico de perua: roupas extravagantes, decotes profundos, maquiagem carregada , adereços douradíssimos.Mal percebia que nada neste mundo mostrava-se capaz de substituir aquele frescor da adolescência, aquela beleza simples e fugaz do desabrochar inefável da rosa primaveril. Murchas as flores naturais, punha-se no jarro da vida aquelas pétalas de plástico: sem cheiro e de brilho fosco e pouco enganador.
Disparado o último cartucho da macaca, fora de algum alvo possível, Ifigênia deu-se conta do seu destino previsível : o caritó , a solidão de titia. Pensou ainda em adotar algum Gianechinni já que como professora não ganhava lá estas coisas, mas tinha, ao menos, recursos certos na conta a cada final de mês. Fez algumas tentativas inglórias de adoção, mas desistiu. A mão de obra pareceu-lhe muito grande : as delícias que por ventura ganhava na cama, não compensavam o trabalho de campear o marido adotivo em festinhas, em farras, em pegas, em outras camas de ficantes.
Mesmo assim , não desistiu. Soube dos milagres de Santo Antonio na arte casamenteira. Há dez anos , botou-se para Barbalha e, sabendo que pouco milagre não resolvia seu problema, usou de tudo. Abraçou-se por mais de meia hora com o santo & profano símbolo fálico. Tirou lascas do pau e, em chegando à casa, por mais de um mês tomou diariamente um chá feito das cascas. Não bastasse isto, ainda fez cataplasmas e banhos de assento com o infusório.Esperou por uns dois meses o milagre matrimonial e exasperou-se, pois nada de importante aconteceu.Por indicações de amigas do mesmo bloco, partiu, por fim, para a simpatia final e definitiva. Tomou uma imagem pequena de Santo Antonio e atou-a com cordões, de cabeça para baixo, no fundo de um copo d´água, às doze horas da noite. Fechou os olhos e disse, solenemente, em voz alta:

“ Amarrei meu Santo Antõin
Com seis cento mil demõin
E se num quiser se afogar
Tu só sai do pelourim
Se arranjar um maridim
Pra Ifigênia se casar ”

Desta vez, mediante seqüestro, Santo Antônio, aparentemente cedeu . Dois meses depois , como por encanto, apareceu um pretendente que preencheu as cláusulas já não tão exigentes de Ifigênia. Fidelis apresentou-se como um rapaz madurão, já aposentado como bancário e, sem mais delongas, levou nossa coroa ao altar. O santo casamenteiro foi liberado da sua tortura e pode respirar aliviado.

Fidelis viveu seis meses com Ifigênia uma lua de mel hollywoodiana. Não se apartavam, viajavam constantemente. Um belo dia, no entanto, o marido saiu para comprar uma carteira de cigarro e nunca mais deu notícia. Ifigênia exasperou-se, procurou por tudo quanto é canto: necrotério, hospital, polícia, TV, Internet. Que marca de cigarro mais difícil de encontrar, meu senhor ! Nunca mais teve notícia de Fidelis.Este ano, ainda desapontada, voltou à festa de Santo Antonio, entrou piedosamente na igreja e , no pé do altar encontrou, um bilhete que parecia até uma resposta do santo milagreiro à sua antiga simpatia:
“Levei o marido de vorta
Sua cara de moura torta
Pois já paguei o resgate
Se tu me prender de novo
Te dou um cabra sem ovo,
Um bêbo , um engraxate.

Um jogador de barai,
Que vive de quebra-gai
Ou um clodovi bem foló
De pircing e de brinquim
Que passa o dia interim
Vendo banda de forró ”

J. Flávio Vieira

Joâo Pernambuco e o Crato

Quem toca violão, é brasileiro de uma certa geração, certamente já tocou Sons de Carrilhões de João Pernambuco. Um dos maiores músicos do século XX, nomeado por Villa Lobos como o Bach brasileiro. Há algum tempo pesquisando em site do Instituto Moreira Salles encontrei uma música dele com o título CRATO. Ouvi-a e de fato era “Crato, meu torrão adorado. Rosa, que saudade de ti. E o sol descambando no recorte da serra. Quando de minha terra triste me despedi. Crato, meu torrão adorado...” Comuniquei-me com Zé Flávio e dele recebi a notícia que João Gilberto havia falado desta música para Violeta Arraes e que os antigos da cidade a conheciam.

Uma noite dessas perguntei para Violeta que me contou como foi. Estava ela na casa de Caetano Velloso em Salvador, Gilberto Gil, Betânia e Dedé (ex-mulher do Caetano). Esperavam por João Gilberto com quem gravariam na madrugada e este não chegava. Lá pelas tantas Dedé resolveu telefonar para o João. Assim que atendeu a Dedé foi logo falando que estavam hospedando a Violeta, uma pessoa do Crato e dito isso já foi passando o telefone. Violeta um tanto quanto pega de surpresa foi dizendo olá João é um prazer falar com você. E ele do outro lado, com fala arrastada dizia: Crato! Crato! Antonia…Ah! Antonia. Violeta naturalmente perguntou se ele conhecia a cidade e ele explicou que Antonia era uma moça do Crato que morara na casa dele em Juazeiro da Bahia. Era crente e pouco saía de casa, mas costumava cantar a música Crato e ele cantou o trecho acima. Completou o diálogo dizendo: Nós íamos para o carnval brincar e Antonia ficava sozinha em casa. Quando eu estava no meio da dança, lembrava….Antonia sozinha em casa”

E João Pernambuco?
JOÃO PERNAMBUCO- O POETA DO VIOLÃO Filho de índia Caeté e de um Português. João Teixeira Guimarães nasceu em Jatobá, sertão pernambucano, em 02/11/1883 e faleceu no Rio de Janeiro em16/10/1947.Com uma muda de roupas, seu violão e muitos sonhos, desembarcou João, aos vinte anos de idade, na então capital da República. Trabalhava como ferreiro em jornadas de até dezesseis horas diárias. O pouco tempo que lhe restava era dedicado ao violão. Para os seus amigos e admiradores, em número sempre crescente, contava e cantava coisas de sua terra, daí o apelido de João Pernambuco.

Mais junte um mel de poesia e música. Busque no chão os poetas da terra. E neste paraíso do mundo se aprisione a uma Eva no parreiral. Descomplique as tramelas da porta e retorne ao breve e longo tempo do amor por ela, por nós, por tudo. Principalemente pelo bucólico. Ao ouvir esta música de João Pernambuco (gravação da Elba Ramalho, Alaíde Costa, Cida Moreira entre outras) do Wilson Rodrigues e do genial Hermínio Bello de Carvalho não tem uma vida melhor que a vida de amor preso na arapuca da muié. Com vocês

Estrada Do Sertão

Coisa que não arrenego
Nem tão pouco desapega
Ter gostado de você
Foi gostar desenchavido
Encruado e recolhido
De ninguém se aperceber
Matutando vou na estrada
Nos meus óios a passarada
Faz um ninho pra você
Juriti espreita triste
A jandaia não resiste
Chora junto por você
Nos teus óios faz clarão
É um verde, um azulão
Tiê sangue furta cor
Que me dá desassossego
Que me suga que nem morcego,
Mangando que é beija-flor

Não me encrespe a vida assim
Já me basta o que de mim essa vida caçoou
Não me faz essa graçola
De me abrir essa gaiola
Pra depois não me prender.

Canta firme juriti
Vê se entoa uma canção
Sabiá me roça aqui
Bem junto do meu coração
Pousa aqui meu colibri
Vê se tu tem pena d´eu
Quero ser teu bacuri
Quero ser de vóis meçê

Quanto mais me desfeiteia,
Me despreza, mais me arrasto pra você.

Di Maio e o Cine Paraíso

Em breve, estaremos divulgando, em pesquisa mais aprofundada, sob os auspícios do Instituto Cultural do Cariri – ICC, a merecida memória do pioneiro na exibição de filmes no interior do Ceará. Trata-se de uma das figuras mais interessantes da história do cinema no Brasil, Vittorio Di Maio. Basta dizer que seu empreendedorismo e amor à Sétima Arte, desde os primórdios do audiovisual em solo brasileiro o fez abrir inúmeras salas de exibição desde Petrópolis, no Rio de Janeiro, passando por São Paulo, até outros estados como o Rio Grande do Sul, Bahia e Ceará, terra que aportou para fixar residência e onde findou seus dias.
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O fato mais curioso a ser registrado sobre o incansável Di Maio é o de ter criado, precisamente no dia 3 de junho de 1911, na cidade de Crato, no Cariri, o primeiro cinema do interior do Ceará, intitulado Cine Paraíso (…)
Leia mais: http://glaucovieira.blogspot.com/

FOTO-MÚSICA

A música traduzida em linguagem visual, ou melhor, as imagens traduzidas em música, como as percebo. Na composição abaixo, “Luz e Sombras” ( light and Shadow ).

“Fazer Música é Traduzir o universo!

A Música como forma de expressão, é uma dádiva. Algumas pessoas nascem com o dom de perceber essa essência, outras nem tanto. Mas podem desenvolver habilidades e trabalhar essa percepção. A Música verdadeira, é espiritual. Para ser um bom músico, é preciso olhar para dentro de si, encontrar-se, e descobrir a realidade cósmica. Fazer música, é conversar na linguagem de Deus!

A verdadeira MÚSICA em maiúsculo é a mais alta expressão da arte sublime, a única coisa que não segue o padrão de representação, e sim, a própria “vontade”, que seria a essência de tudo, segundo Schoppenhauer. Infelizmente, poucos privilegiados conseguem entender e captar a verdadeira essência da música. Ela não está nem na técnica, nem nos livros. A música de verdade está em toda parte. Ela é a própria vibração do universo, e que une tudo e todos. Os livros e a escola representam apenas a codificação do universo musical perceptível, palpável, técnico, que pode ser posto em papel ou outra mídia. É o topo do Iceberg, quando a grande imensidão da música não se encontra em papel algum. O músico trabalha com formas abstratas. Tudo pode ser música, nas mãos hábeis daqueles que aprenderam a conversar com o universo.

Aqui na terra, os músicos são sacerdotes, mediadores que apenas canalizam essa informação. Os músicos, visionários que são, conseguem enxergar as formas abstratas mais puras de um determinado padrão universal e apresentá-la de modo que outros possam ver o que o artista vê. Sentir o que o artista sente. É preciso que haja um despertar espiritual pleno, gradativo e inexorável para se compreender a música em sua plenitude e ver que ela é bem mais que o creme, a cobertura, que é aquilo que alguns têm feito até então.

Enquanto o artista não desperta para essa realidade interior, se descobre, e traduz o universo e a sua essência, ele será um impostor, um míope que enxerga formas incompletas e imperfeitas. Sua música não representa ainda a forma perfeita da idéia. Por isso, somente uma profunda introspecção e observação precisa e direcionada faz com que seja possível a descoberta das formas ideais e puras.

Tocar em grupo, é comungar espiritualmente, é partilhar energia. É conversar na própria linguagem do espírito.
E quando esses espíritos se tornam vasos comunicantes, a energia flui e a música verdadeira acontece. “

A Música é o objeto, a vontade, o noumeno e o fenômeno, “o nous, o pneuma, o ego sum qui sum”!

Dihelson Mendonça
21/03/2007

Composição musical e montagem: Dihelson Mendonça
Fotografia: website – webshots desktop.

Cicim do Pau-do-Guarda

Para quem não é cratense, esse nome, além de exótico, parece engraçado. Mas para os cratenses, e para muita gente do Cariri, Cicim do Pau-do-Guarda é uma referência cultural.
Cícero Ribeiro Lobo, mas conhecido como Cicim do Pau-do-Guarda, é uma das pessoas mais conhecidas da região. Não só pelo famoso e saudoso restaurante Pau-do-Guarda, que ele fundou em 1954, mas, sobretudo, pelo seu carisma e pela sua sabedoria nata.
No alto de suas quase oito décadas de vida, Cicim continua ativo e produtivo. Todos os dias, bem cedo, ele vai para a Lagoinha, propriedade que mantém no caminho do distrito de Ponta da Serra, onde cria gado e planta roça e pasto. Na volta, sempre que Humberto Mendonça está de “férias” no Crato, ele vai até o escritório deste, na rua Senador Pompeu, para alguns momentos de prosa e para pegar os jornais do dia anterior, que Humberto sempre guarda para ele. Cicim ainda lê sem ajuda de óculos.
O restaurante Pau-do-Guarda, que funcionou por quase meio século, sem nunca ter fechado as portas (até mesmo porque elas não existiam no estabelecimento), – tinha este nome em decorrência de um pau-cancela que existia nas proximidades, na saída do Crato para o Juazeiro. O pau era manuseado por um guarda fiscal, visando controlar o fluxo de carros que transportavam cargas e mercadorias – o que hoje se chama posto fiscal e que naquele tempo a população chamava de pau-do-guarda.
No cardápio do Pau-do-Guarda (o restaurante), os clientes tinham a opção de saborear pratos típicos da cozinha regional, como o famoso pirão-de-galinha, galinha à cabidela, peixes fritos e ao molho, caldo, baião-de-dois, etc., além de ser um aprazível e obrigatório ponto de encontro da boemia da cidade.
Cicim do Pau-do-Guarda é um resquício de um Crato antigo e que teima em permanecer. O Crato cordial, tranqüilo, de homens de bem e vontadosos. Um Crato que não pode ser esquecido…

FOTO-POESIA

O PEQUÍ

Certa vez, ninguém disse assim…
Certa vez de ninguém se ouviu o dizer…
“O Pequi, não mata a fome”,
A fome, “é que se mata diante dele”.
Palavras da salvação!

Bendito és o fruto que és,
Aonde a pé se vai aos pés,
Quando ainda a flor bela nas alturas,
Em romarias as abelhas vão…
Quando se quer dar,
Quedas ao chão,
E aí, vão os homens em procissão!

De dezembro a fevereiro,
Quando reboam os trovões
E o céu desce a terra espargindo o aguaceiro,
Dá gosto ver na floresta,
Teresa e outros nomes brejeiros
Que ora me fogem a lembrança,
Na maior lambuzança de colheita em festa!

Não é do rico, nem do pobre,
O que é para o rico, é para o pobre!
Oh! Fruto da concórdia que vergas os teus galhos
Indiferente ao credo de quem te aprecia!
Na Baixa-rasa eneblinada, oração e aboio…
Ides, pois, oh! verdinho, aromatizai a mesa dos justos,
Abundantes sejam, pequis que rôo!

Foto e poesia: Pachelly Jamacaru

Jornal do Cariri – Ao vivo ( somente às 07:00 e 12:30 )


Clique no Player abaixo:


Reprises, clique Aqui

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Queimadas destróem Chapada do Araripe !

Até quando teremos que conviver com a estupidez ?
Façamos alguma coisa para salvar o que ainda resta das nossas florestas!



Fotos: Nívia Uchoa

Previsão do Tempo para os próximos 5 dias……

DUELO AO PÔR DO SOL – Mais uma aventura de João de Barros – Parte 5

O.b.s – movido para a seção contos, na aba lateral direita, devido ao tamanho.

José do Vale Feitosa

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