
Gudevaldo Pereira aposentara-se pras bandas da capital, onde exercera por mais de trinta anos as funções de delegado. Homenzarrão corpulento, um verdadeiro varapau, de cara própria para fazer cobranças, o velho Pereira voltara para Matozinho, após reformado. Zoadava pelos cantos, berrava nas esquinas e nas rodinhas de bar Gudevaldo costumava dar a última palavra. Conhecia malaca de longe, bastava um simples olhar : nunca dava bote perdido. Cabra com boné cobrindo os olhos, aquele andado molejante , os braços balançando atrás dos quadris como um pêndulo, desconfiado , com medo de sugesta, não tinha erro : pode abordar que tem coisa ! Assim nosso ex-delegado gostava de passar toda manhã pela delegacia, onde dava suas aulinhas e, também, tomava ciências das últimas presepadas da vila. O delegado em exercício o aturava a duras penas , Gudevaldo tinha mania de meter a colher de pau nas investigações e o bedelho nos depoimentos. Possuía, no entanto, uma qualidade que o fazia tolerável: sempre se mostrara extremamente corporativista e defendia a instituição policial com unhas e dentes. Por mais de uma vez andou quebrando cara de gente que insinuava algum desvio por parte dos seus pares. Colega de Pereira só tinha defeito quando a conversa se fazia entre policiais. Do lado de fora se tornavam todos ilibados, de conduta retilínea. Qualquer crítica à instituição, o velho Gudevaldo absorvia ,imediatamente, para si e saltava com um quente e dois fervendo. E tome pesqueiro no tronco da orelha. Havia ainda um epíteto que o levava às raias da loucura. Puxava faca e gatilho de berro se lhe chamassem de Glugludevaldo. Donde surgiu este apelido tão estranho? Vamos por partes.
Suas vaidades se atinham, basicamente , à vida profissional. Gostava de propalar suas espertezas e seu tino para desvendar os crimes mais intrincados. Enveredando neste assunto , levava horas e mais horas contando proezas que encheriam de inveja Sherlock Holmes.
— De uma coisa de orgulho, nunca ninguém me fez de abestado , de Zé Mané !
No mais levava uma vida de missionário. A única exceção: um longo capote que Gudevaldo usava nas ocasiões mais especiais, como uma espécie de sobretudo. Ali colocava um broche vistoso da Polícia Militar e algumas medalhas que terminou por ir auferindo ao longo da sua atividade. Metido no capotão, o velho adquiria um ar nobiliárquico, falava de forma mais pausada e solene. E não cansava de lembrar, periodicamente, o quanto lhe custara aquela indumentária: os olhos da cara , meus amigos ! Dinheiro que gente besta não conta ! Dava pra comprar gado de se emparelhar daqui até Bertioga !
Pois bem, de tanto brotar pelos cantos e contar vantagem, Gudevaldo terminou encontrando a tampa. Um belo dia, o velho , vindo de uma reunião da Maçonaria, entonado no seu capotão, encontrou, uns meninos jogando peteca no patamar da igreja. O ex-delegado entendeu aquilo como uma afronta a Santa Genoveva, a padroeira da cidade e, depois de uns supapos e currulepes nos jogadores, dissolveu a brincadeira. Os moleques , à noite, passaram a comentar a arrogância do militar e como se vingariam do pavoneamento de Gudevaldo. Todos concordaram que a melhor maneira seria enganá-lo, armar uma pegadinha para o “cagador-de-goma”. Mas quem diabos teria coragem de botar o sino no gato ? De repente, , um guri esperto, de uns dez anos, apelidado de “Trocadim” , apostou com os colegas, que seria capaz de enrolar o farofeiro. Os amigos então concordaram em pagar durante todo o ano suas mariolas, seus quebra-queixos e passa-raivas, desde que ele conseguisse engabelar Gudevaldo.
No outro dia, cedinho, “Trocadim” pegou um peru no quintal casa e pôs-se a pastorar a casa do delegado, de longe, com o bicho debaixo dos braço, esperando a saída do homem. Quando Gudevaldo ganhou o mundo, o menino esperou mais ou menos uma hora e, depois, aproximou-se da casa e bateu na porta. Atendeu D. Federalina, a mulher de Pereira. O menino, então, desenrolado, explicou:
—- Minha senhora, o Coronel Gudevaldo mandou este peru que deram a ele. Mandou dizer, também, que não vem almoçar, porque vai acompanhar uns depoimentos lá em Bertioga. Disse para a Sebhora mandar o capote dele por mim.
D Federalina, de posse do peru, achou a história do menino muito aprumada. Entrou em casa, pegou o capote, colocou em uma bolsa e disse ao menino para levar com todo cuidado a vestimenta de guerra do delegado. Rápido, “Trocadim” levou a prenda para os colegas que o esperavam num lugar pré-determinado: no sopé Serra do Carneiros. Quando Trocadim por lá chegou os meninos não acreditaram como ele havia conseguido a proeza. Felizes , o parabenizaram por ter ganho a aposta. Ele porém informou que o trabalho custara mais do que pensara, pois teve que dar um peru e negociou com os colegas mais um ano de quitutes grátis, por conta dos gastos adicionais. Disse ,ainda, que a pendenga não estava concluída e precisaria voltar.
Neste ínterim, Gudevaldo chega a casa e, ante a surpresa da esposa, pede que esta ponha logo o almoço à mesa, pois a fome era canina. Federalina explica , então, que não compreende, porque há pouco ele havia mandado avisar por um menino que não almoçaria em casa e enviara até um peru por ele. E ela, conforme solicitação, inclusive havia enviado, pelo moleque, o capote famoso, para a audiência em Bertioga. O velho, matreiro, compreendeu toda tramóia, num átimo: havia sido roubado. Ainda disse uns impropérios à mulher, zuadou e partiu para a delegacia para dar parte do roubo. Em lá chegando, aprontou um verdadeiro teatro e disse aos colegas policiais que o capote para ele era uma espécie de símbolo da sua fantástica carreira militar e que pegar o ladrãozinho que a afanou era uma questão de honra , pois aquilo se tratava de uma espécie de crime de lesa-M atozinho.
Enquanto Gudevaldo armava o barraco na delegacia, “Trocadim” colocou um bonezinho na cabeça e voltou à casa do homem. Bateu novamente na porta e, quando D. Federalina atendeu, ele explicou:
— Sá Dona, o Coronel mandou eu vir aqui, pois eles já pegaram o ladrão do casaco, ele pediu para a senhora mandar o peru por mim, pra poder resolver a questão do roubo.
D. Federalina entregou o bicho e “Trocadim” desapareceu em procura da Serra dos Carneiros. E desde esta época, o coitado do ex-delegado passou a ser conhecido, para seu desespero, como “Glugludevaldo”.
J. Flávio Vieira
Meus amigos,
Nenhum ungüento me curará das mazelas dessa vida. A dor que sinto é tão imensa e tão revoltante que me falta fôlego. Quando lembro que sou um ser humano, minha revolta cresce, mas logo vem a resignação.
Nós não somos apenas humanos imundos, mas somos além disso… Monstros. Monstros que crescem e reproduzem monstros. Devo explicar-lhes que estou assim, revoltado com os humanos, porque o lugar mais lindo que ja conheci na minha, foi interditado e minado. Será destruído por um monstro hegemônico. Monstro que usa sua supremacia para destruir a vida da NATUREZA. Isso é absurdo. Não somos Deus. Ele não nos deu inteligência pra destruição. Em outras palavras, estamos destruindo o que Deus fez. O que Deus faz, ninguém deve destruir! Para alguns, pode não ser interessante ler tal desabafo. Para outros, porém, a dor é imensa.
Este lugar chama-se Lajeiro. Situa-se em Missão Nova, no sítio Barreiras. O Lajeiro é a fonte afluente de um rio, que abastece muitas casas. Sua água é utilizada por todos. Usam para irrigação e necessidades de casa. É, meus amigos… O Mundo está no fim. Tive a prova. Estou tendo todos os dias de minha vida. A cada dia vejo algo de novo. O ser humano está conseguindo acabar com toda a obra de Deus na terra. Mas, enquanto existir Deus em mim, serei forte e diferente dos humanos que não conhecem a Palavra de Deus. Pensem! Reflitam. Observemos a nossa vida. Vejam…
A vida não se resume a dinheiro. Também existe amor. Se você nunca sentiu, procure! Quando ele chegar na tua vida, sentirás o sofrimento inigualável e incosolável que estou sentindo. O Lajeiro não é meu. É de todos nós. Deus nos deu de presente, para aliviar nossas almas já cansadas.
É como se estivessem matando alguém, algum amigo, parente ou irmão… prefiro a vida do Lajeiro do que a vida de certos humanos monstros que habitam este lugar, chamado Terra. Estes deveriam ser banidos do planeta, do espaço. Aliás, deveriam nem ter nascido.
Segue algumas fotos desse lugar que tanto respeito, e que todos nós habitantes deste planeta, deveríamos respeitar…
O Colóquio Tropicalismo no Cariri?, acontecido na noite de ontem, 29, no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Juazeiro do Norte, respondeu afirmativamente a resposta proposta.
Para Luiz Carlos Salatiel, os festivais, a partir da qualidade das produções elaboradas na região e pela liberdade com a qual se manifestaram os artista locais, é um exemplo da sincronicidade do Cariri com o mundo.
Blandino, Zé Flávio, Stênio Diniz, Abdoral e Roberto Marques