Patativa tem versos inéditos para lançamento
A poesia popular de Patativa do Assaré ainda continua como principal ícone do cotidiano do sertão nordestino
Assaré. Para quem pensa que a fonte poética de Patativa do Assaré se esgotou, uma novidade: brevemente, será lançado um livro com poemas inéditos. Os versos, segundo Inês Alencar, filha do artista, estão com o seu sobrinho Geraldo Gonçalves, apontado por Patativa como um dos seus seguidores. Está sendo discutida também a possibilidade de publicação dos poemas eróticos de Patativa que foram deixados com o padre Antônio Vieira, o defensor dos jumentos, e agora estão com o médico e amigo da família José Flávio Vieira.
“Não nego meu sangue, não nego meu nome, olho para fome e pergunto: o que há? Eu sou brasilêro fio do Nordeste”, Sou cabra da peste, sou do Ceará…” Seis anos depois da morte de Patativa, seus versos correm de boca em boca, evangelizando o sertão e enternecendo as academias com seu saber profético. A música “A Triste Partida”, interpretada por Luiz Gonzaga, ainda é a maior descrição da odisséia do nordestino retirante que deixa o seu torrão natal em busca de emprego. A casa onde ele nasceu, na Serra de Santana, município de Assaré, ameaça desabar, mas a sua poesia, extraída da terra árida, se mantém de pé. A partir de sábado, a pequena cidade de Assaré, localizada no limite do Cariri com a região dos Inhamuns, se enfeita para reverenciar o seu poeta maior.
Localizada no limite do Cariri com a região dos Inhamuns, a mais seca do Estado, a cidade de Assaré seria mais um município do Ceará, sem nenhuma projeção, se não fosse o poeta Patativa que, em vida, não imaginava que a sua obra poética seria estudada na Universidade de Sorbonne, na França. A humildade do artista é evidente: “Meu verso rasteio, singelo e sem graça/ Não entra na praça, no rico salão/ Meu verso só entra no campo e na roça/ Nas pobre paioça, da serra ao sertão.”
A principal temática de Patativa era a seca e a terra onde vivia, mas as poesias bem-humoradas e as histórias pitorescas da vida sertaneja também estão presentes em seus poemas. Enquanto lavrava a terra com a enxada, fazia brotar do solo árido o lirismo de sua poesia. Foi o intérprete da alma nordestina, cantando suas dores e sofrimentos e também as belezas do sertão.
Na casa de taipa onde viveu, produziu também poemas eruditos comparados pelo reitor da Urca, professor Plácido Cidade Nuvens, com os maiores clássicos da literatura portuguesa, entre os quais Fernando Pessoa, Castro Alves, Padre Antonio Thomaz, Antonio Sales, Camões e Olavo Bilac.
Nas pegadas do Padre Antonio Thomaz, “príncipe dos poetas cearenses”, Patativa produziu um soneto em defesa da prostituta com o título “A Meretriz” que diz: Se alguém te chamas de perdida e louca/Não acredites, pois não é verdade./ Há quem procure cheio de ansiedade /A graça e o riso que tu tens na boca/ Fostes menina, já usastes touca / Fostes donzela, tinhas virgindade/… Alguém te estima e com fervor te quer/… És a fonte de matar a sede / Do desgraçado que não tem mulher.
ENQUETE
Acervo do poeta popular deve ser preservado
Inês Alencar
Filha de Patativa
“Se a maioria de meus irmãos concordar, autorizaremos a publicação dos poemas eróticos de meu pai.”
Raimundo Gonçalves
Genro e sobrinho de Patativa
“Faz medo entrar na casa onde viveu meu tio. Pode cair por cima da gente. Quem for restaurá-la corre risco de morte.”
Huberto Cabral
Jornalista e memorialista
“A preservação do acervo de Patativa é fundamental para o desenvolvimento e enriquecimento cultural de todos.”
ANTÔNIO VICELMO
Repórter
´HONORIS CAUSA´
Unanimidade como mais popular
Assaré. Antônio Gonçalves da Silva, Patativa do Assaré, nasceu a 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural, no município de Assaré, no Sul do Ceará. Foi o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Ele casou-se com dona Belinha, de cujo consórcio nasceram nove filhos.
Patativa era unanimidade no papel de poeta mais popular do Brasil. Para chegar aonde chegou, tinha uma receita prosaica: dizia que para ser poeta não era preciso ser professor. “Basta, no mês de maio, um poema em cada gaio, um verso em cada fulo”, cantava.
Como todo bom sertanejo, começou a trabalhar duro na enxada ainda menino, mesmo tendo perdido um olho aos 4 anos. Na velhice, perdeu totalmente a visão, mas nunca perdeu a vontade de viver.
Ele só passou seis meses na escola. Isso não o impediu de ser “Doutor Honoris Causa” de pelo menos três universidades. Não teve estudo, mas discutia com maestria a arte de versejar. Está sendo estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel. Mesmo sem sair de casa, recebeu o troféu “Sereia de Ouro” do Sistema Verdes Mares. O poeta morreu em 8 de julho de 2002, com 93 anos, deixando mais de 10 livros publicados, dentre os quais, “Inspiração Nordestina“, “Cantos do Patativa”, e “Cante Lá que Eu Canto Cá”.
SAIBA MAIS
Programação
De sábado, 1º, até o próximo dia 5 de março uma extensa programação marca o aniversário de 99 anos do Poeta Patativa do Assaré, ´in memoriam´, e abre a festa do centenário do artista, a ser comemorado no dia 5 de março de 2009.
Shows
Um show de Amazan e Cacau Com Mel abre a programação de festa no sábado, na praça central de Assaré. Em todas as noites uma atração especial, como Quinteto Agreste e Joãozinho do Exu.
SÍTIO SANTANA
Parte da casa do poeta desaba
Assaré. A casa onde nasceu e morou o poeta Patativa do Assaré, localizada no Sítio Serra de Santana, a 18 quilômetros da sede do município, já começou a desabar. Uma das paredes do quarto, onde o poeta nasceu, já caiu. O sótão, estrutura de madeira destinada a guardar cereais, está caindo. O mato tomou o lugar das calçadas, impedindo a entrada de pessoas. O último morador do imóvel, o sobrinho do poeta, agricultor Raimundo Gonçalves Alencar, saiu de lá, deixando alguns objetos, dentre os quais, um rádio Semp antigo, uma máquina de costura, e uma galeria de imagens de santos e fotos de parentes do tio artista.
“Faz medo entrar na casa. Ela pode cair por cima da gente”, adverte o agricultor, acrescentando que quem for restaurá-la corre risco de morte. Segundo conta, no início do mês, a Prefeitura de Assaré enviou uma comissão à Serra de Santana, a fim de fazer um orçamento para restauração do único imóvel deixado pelo poeta na localidade. Está previsto o custo de R$ 30 mil.
ACERVO ABANDONADO
1 Já foi ao chão parte do quarto onde nasceu e viveu o poeta Patativa do Assaré, no Sítio Santana, na serra do município de Assaré.
2 Na sala e restante da casa de taipa, ainda restam móveis do antigo morador, o sobrinho do Poeta, Raimundo Gonçalves Alencar, conhecido como Mundinho.
3 O imóvel é uma casa de taipa que guarda memória do menino poeta. Ele cresceu inspirado nas manifestações da natureza.
4 Cartaz que divulga a programação de festa pelos 99 anos do poeta popular e abre comemorações do centenário de Patativa.
Fonte: Jornal Diário do Nordeste – www.diariodonordeste.com.br



























