Arquivo para ‘março, 2008’
Escrito por Dihelson Mendonca
Notícias
29 mar 2008, 20:24
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Nota de esclarecimento
A criação do Parque Estadual Sítio Fundão é resultado
de uma mobilização socioambiental, popular e apartidária
Eldinho Pereira da Silva*
O pedido de tombamento do sítio Fundão, situado no perímetro urbano de Crato, foi encaminhado em dezembro de 2005, através do Instituto da Memória do Povo Cearense (IMOPEC), do IPHAN e da Secult. No ano seguinte, o referido pedido muito repercutiu e foi acolhido por outras instituições, tais como, URCA, Fundação Mussambê, Câmara Municipal e Prefeitura Municipal. Também não poderíamos esquecer a cobertura realizada pela Rádio Educadora e pelo Diário do Nordeste. No entanto, a demora do processo nos levou a contatos com o secretário Auto Filho e a aulas de campo pelo sítio. Houve ainda, iniciativas de resgate da memória coletiva e a uma campanha educativa pelo tombamento.
Em setembro de 2007, a destruição de cinqüenta hectares de mata nativa no sítio Fundão, motivada por incêndio prolongado, levou uma multidão a um Ato Público realizado na própria paisagem devastada pelo fogo. Com cerca de duzentos alunos, originário da EEFM Polivalente e do Colégio Objetivo, vários professores, alguns ambientalistas e autoridades municipais, deu-se o evento contra os incêndios criminosos, pela imediata proteção da área e pela indenização aos herdeiros. Em função da cobertura realizada também pela TV Verde Vale e TV Verdes Mares, a repercussão no meio social foi quase imediata.
Dias depois, o desvio extrajudicial da água que pereniza o rio Batateiras, feito por proprietários da encosta da chapada do Araripe, ocasionando migração de animais do sítio Fundão, provocou a visita de uma comissão de três vereadores, envolvendo os interessados no assunto. O ápice da visita foi um Ato Público com professores já engajados, dezenas de estudantes do Liceu do Crato, o radialista Edmundo Alencar e os vereadores no interior do rio seco. Com a divulgação do pedido de socorro por meio do jornalista Franzé Sousa, a Companhia de Gerenciamento dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh) entrou em campo. O foco das atenções agora seria a antiga e urgente necessidade de democratização da água que jorra da chapada.
A repercussão atraiu a atenção de artistas da cidade, de mais escolas – Ciranda do Saber, CEFET Cariri, Agrotécnica Federal – e do bispo diocesano dom Fernando Panico, que em 6 em novembro, participou do Encontro Pró-Rio Batateiras. Na ocasião, o bispo celebrou uma missa com os defensores do rio agonizante, chamou a atenção para o egoísmo daqueles que colocaram canos na nascente e participou de uma reunião com pesquisadores e autoridades para discutir alternativas. Formou-se então, um grupo de trabalho com dupla finalidade: uma técnico-científica e outra sócio-educativa.
O agravamento da conjuntura levou o IMOPEC a repassar informações por meio do boletim informativo Raízes e dos contatos que dispõe. Atento a importância dos temas levantados e também a eventos oficiais de maior porte, Crato realizou uma conferência regional sobre meio ambiente e apresentou os delegados para a conferência estadual, sediada em Fortaleza. Na oportunidade, a situação do rio Batateiras e do sítio Fundão foi abordada novamente.
Depois de 27 meses de espera e mobilização, estudantes, professores e ambientalista de Crato e região, preocupados com a preservação do sítio, já contabilizam algumas vitórias. No dia 11 de fevereiro, o Diário Oficial publicou um decreto governamental datado do dia 08, sobre a transformação do sítio em uma área de interesse social para desapropriação e criação do Parque Estadual Sítio Fundão. Na manhã do dia 14, membros do Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente estiveram no sítio para um café da manhã através do qual apresentaram às autoridades e ambientalistas, ações que serão implementadas pelo Governo Estadual para a implantação do parque.
Como se sabe, em ano de disputas políticas e eleitorais, acontece de tudo um pouco! Alguns candidatos, aparecem ansiosos para apresentar sua imagem e falação ao público. Outros, para reescrever ou redefinir manifestações genuinamente populares. A nossa surpresa, é a exposição em reuniões, site e blogs, de informes e textos que atribuem a criação do Parque Estadual Sítio Fundão a apenas uma ou outra liderança. Não podemos evitar os usos políticos e eleitorais sobre o movimento, até porque muitas decisões passam por chefias, mas algo deve ficar claro: a criação do referido parque estadual representará a vitória de estudantes, professores, pesquisadores, ambientalistas, enfim, de toda a sociedade cratense.
Eldinho Pereira da Silva é professor, historiador e agente cultural do IMOPEC em Crato/CE.
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Escrito por Dihelson Mendonca
Regionais
29 mar 2008, 06:26
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Energia limpa
Novos projetos de energia eólica beneficiaram Estados como Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas e Bahia
Crato. O Cariri vai ganhar um parque eólico. Serão instalados 42 aerogeradores na Baixa do Maracujá, em cima da serra do Araripe. O aerogerador é um gerador elétrico integrado ao eixo de um cata-vento cuja missão é converter energia eólica em energia elétrica.
Cada uma das turbinas tem potência para dois megawatt, uma unidade de medida correspondente a 106 watts. No total, serão 84 megawatt, que serão injetados na rede de distribuição de energia da Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf).
A iniciativa é da SoWiTec do Brasil Energias Alternativas Ltda, com sede em Natal (RN), que iniciou o trabalho de aproveitamento da força dos ventos para transformação em energia elétrica na Alemanha. Os projetos estão sendo desenvolvidos nos Estados do Rio Grande do Norte, Alagoas, Bahia, Piauí, Sergipe e Ceará.
A princípio a instalação do Parque Eólico do Cariri estava projetada para a Floresta Nacional do Araripe. Entretanto, o geólogo Francisco Jackson Antero de Souza, chefe da Unidade de Conservação Federal APA Chapada do Araripe, não permitiu que o sistema fosse instalado na floresta.
Jakson argumentou que a necessidade de acesso para as torres geradoras de energia contribuiria para a devastação da vegetação. Além disso, segundo ele, nas proximidades dos parques eólicos é detectada poluição sonora, devido ao ruído produzido. Há também quem considere que sua silhueta afeta a paisagem.
Jackson indicou duas áreas fora da floresta e orientou que o pedido de licença fosse encaminhado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, a quem cabe a autorização para exploração dos serviços. Depois da concessão da licença, a próxima etapa é a assinatura de contrato para arrendamento das áreas com os respectivos proprietários.
De acordo com o projeto, a energia eólica possibilita mais postos de trabalho do que qualquer outra fonte de energia. Estima-se que, para um parque eólico de 100mw, são gerados 250 empregos diretos na construção do empreendimento e mais 100 para manutenção e operação. Cada megawatt representa um investimento de 4 milhões, gerando crescimento sustentável e renda distribuída em regiões desfavorecidas.
Os aerogeradores não podem ser instalados de forma rentável em qualquer área, já que requerem vento constante mas não excessivamente forte. Este tipo de gerador tem se popularizado rapidamente devido ao fato de a energia eólica ser um tipo de energia renovável, diferente da queima de combustíveis fósseis. É também considerada uma “energia limpa”, já que não requer uma combustão que produza resíduos poluentes nem a destruição da natureza. No entanto, a quantidade de energia produzida é ainda uma mínima parte da que se consome pelos países desenvolvidos.
Mais informações:
Ibama, escritório do Crato
Praça Joaquim Fernandes Teles, 10, bairro Pimenta, Crato
(88) 3521.1529
CEP 63.100-000
Fonte: jornal diario do nordeste.
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Escrito por Luiz Carlos Salatiel
Outras
28 mar 2008, 12:27
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A QUEM POSSA INTERESSAR: O blog do Partido Verde-Crato está no ar!
Veja o link abaixo:
http://www.emverdade43.blogspot.com/
Escrito por Luiz Carlos Salatiel
Outras
28 mar 2008, 12:15
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Na Quadra Bi-centenário fomos recepcionados pela Banda de Musica do Crato tocando magistralmente o hino da cidade. Depois, vieram as falas das autoridades civis e militares presentes, dentre elas o Dr. Herberte de Vasconcelos Rocha – Superintendente da SEMACE- e DR. André Barreto – Presidente do CONPAM.

Para encerrar a solenidade da quadra, o artista e intérprete performático João do Crato cantou canções que dizem respeito ao meio-ambiente acompanhado ao violão por seu irmão Franciné Ulisses.

Aproveitando a chance, Ed. Alencar, neto do “velho” Jefferson da Franca Alencar, nos acompanhou em visita ao sítio Fundão que se transformará brevemente no nosso Parque Estadual com área de proteção ambiental integralmente preservada. No passeio, reconhecendo o valor ecológico da área, o Dr. Herberte fez questão de cumprimentar o cratense Dr. André Barreto pela coragem e enfrentamento do projeto agora concretizado. (Clique nas fotos para melhor visualização).
Escrito por Luiz Carlos Salatiel
Outras
28 mar 2008, 12:03
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(foto:Sr. Jefferson da Franca Alencar clicado por lcsalatiel)
Até que enfim, dia 11 de fevereiro se torna uma data marcante para aqueles que prezam a vida e o nosso meio ambiente. Pelos esforços e empenho do Comissão de Gestão do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, tendo a frente o seu presidente o cratense Dr. André Barreto, foi assinado o ato que decreta o Sítio Fundão área de interesse social. Este é o primeiro passo para a desapropriação daquele micro-bioma, em torno de 96 hectares, que deverá ser um parque estadual com fauna e flora preservadas. A propósito, Dr. André Barreto visitou a Urca para encomendar documentação junto a estudantes, pesquisadores e professores para a fundamentação (motivo) do processo que justifica o tombamento e preservação do Sítio Fundão como Parque Estadual de Preservação Ambiental Integral. A negociação de idenização do estado para com a família já está bem adiantada.
Crato é verde por natureza!
Escrito por Jose Flavio
Outras
28 mar 2008, 11:35
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Eu tinha doze anos em 31 de março de 1964. As lembranças que tanto marcaram minha geração não possuem o romantismo de Casimiro de Abreu. Para mim, são imagens aleatórias como as do filme Amarcord, de Federico Fellini. Tanto na cidadezinha italiana de Rimini, como no Crato, dois meninos assistiram ao espetáculo do fascismo, sem compreender o que se passava. Em Rimini, os sinos da igreja tocavam pela chegada da primavera e pela visita de Mussolini. Na minha cidade, mandaram tocar os sinos em louvor ao golpe militar, que bania o perigo do comunismo ateu. E mais tarde, Igreja e Prefeitura ofereceram um banquete das arábias na visita de Castelo Branco, o cearense ditador.
No dia 13 de março, meu pai ouvira o comício da Central do Brasil, num velho rádio Philips que antes funcionava a bateria. Lembro os discursos de Arraes, Brizola e João Goulart, pois o rádio ficava junto de minha rede, e eu não conseguia dormir com o barulho. Achei a voz de Brizola parecida com a dos profetas de Juazeiro do Padrinho Cícero. Os personagens da cena política brasileira não significavam quase nada para mim, mais ocupado com os banhos nas nascentes do Cariri, o cinema e as revistas em quadrinho. Minha mãe sempre temerosa de tudo acendia velas para Nossa Senhora Aparecida, uma santa de porcelana que ganhei de uma tia, quando fiz a primeira comunhão.
Meu pai, um udenista fervoroso, votara em Jânio Quadros para presidente, e durante a campanha política usava uma vassourinha dourada, presa ao bolso da camisa. Tomou um porre no dia em que saiu o resultado da eleição. Foi a primeira vez que eu o vi embriagado. Minha mãe, como todas as esposas da época, votava com o marido e estava mais preocupada com a administração da casa, de sete filhos, um irmão solteiro, dois sobrinhos e três empregadas, todos sustentados por meu pai.
Prenderam nosso vizinho Dedé Alencar. Ele botou na vitrola um disco da campanha de Miguel Arraes e deixou que tocasse o dia inteiro. Falaram que era comunista, mas nunca foi. Vivia ocupado com o comércio de farinha de mandioca, num armazém perto da estação do trem. Foi solto no começo da noite. A mesma sorte não teve um bancário de nossa rua. Levaram o rapaz de manhãzinha, quando passávamos pro colégio. A esposa perguntava aos curiosos se nunca tinham visto um homem sendo preso.
Havia muito alvoroço em torno da casa de D. Benigna, mãe de Miguel Arraes, uma casa sertaneja de portas sempre abertas, onde todos eram bem recebidos, proseavam e enchiam a barriga. As irmãs do governador de Pernambuco cantavam no coro da igreja de São Vicente, onde eu assistia missa. Dona Anilda, a mais velha, foi minha professora de francês e um dia me passou uma reprimenda porque falei que o hino do Brasil era mais bonito que a Marselhesa.
Pairava sobre as pessoas mais interessantes do Crato a suspeita de serem comunistas. Ninguém falava com elas, pois era perigoso. Igualzinho ao tempo da epidemia de peste bubônica na cidade. Prendiam os suspeitos da doença, levavam para um hospital e de lá eles nunca retornavam. Nem sei que fim levou os jogadores de gamão e seus copos de conhaque. E o revendedor de cigarros, o dono da sapataria com um palito entre os dentes, duas professoras gaúchas e um padre que ensinava história?
Nós meninos, para quem as notícias tardavam nos jornais do cinema, compreendíamos vagamente a revolução. Havia as novelas de rádio, doutrinárias contra o comunismo; havia a “Aliança para o Progresso”, que mandava alimentos e roupas usadas dos americanos para os pobres; e havia a sonhada visita ao Brasil de John Kennedy e sua esposa Jacqueline.
Só em 1968 pude enxergar de perto o lado truculento de 64. As lentes da câmera se modificaram e fotografei estudantes sendo trucidados e jogados dentro de camburões, em Fortaleza. Em 1970, quando estudava medicina no Recife, nosso professor de anatomia ameaçou-nos com o Quarto Exército. Tentava nos manter submissos com o terror. Mas essas já são outras lembranças, bem pouco fellinianas.
Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca e Livro dos Homens.
Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br
Escrito por Jose Flavio
Crônicas
28 mar 2008, 11:35
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“ Que fizeste ! Eis que a voz do sangue
do teu irmão clama por mim desde a terra. De ora
em diante , serás maldito e expulso da terra, que abriu
sua boca para beber de tua mão o sangue do teu irmão.
………………………………………………….
Caim retirou-se da presença do Senhor , e foi habitar
na região de Nod, ao oriente do Éden”
Gênesis 4.10-4.16
A violência tem se tornado uma irmã siamesa da sociedade moderna. Mal se abrem as folhas do jornal ou comprime-se o botão do remoto, imediatamente salta à nossa frente a rubra tinta com que é escrita, hoje, — mais que nunca– a história da nossa humanidade. O leitor há de lembrar não ter sido nos últimos anos o desencadeamento da luta fratricida. Desde as cavernas , até o Shopping Center , o homem tem uma terrível trajetória. À medida que a Ciência avançava, avassaladoramente, em busca do conhecimento e das descobertas que poderiam curar moléstias , minorar o sofrimento, proporcionar o conforto ia, por outro lado, criando as guerras, alimentando as diferenças, acendendo as fogueiras, forjando os grilhões. Ao descer das árvores nosso irmão primata trouxe consigo a inteligência criadora numa mão, mas na outra teimou em carregar ainda os rapaces instintos da floresta que havia acabado de abandonar. O homem é esta mescla de lobo e cordeiro , de anjo e demônio.
O que mudou, enfim, nos últimos anos ? Por que a violência tem se tornado cada vez mais presente e insuportável para nós ? Claro que com o boom dos meios de comunicação, começamos a ter olhos espalhados por todo planeta. O massacre dos monges budistas do Tibet nos entra de porta adentro, como se estivesse acontecendo na nossa calçada. E aí salta, de repente, a pergunta na nossa frente : até que ponto presenciar tanta chacina , tanto sangue escorrendo rua abaixo, até que ponto isto termina por nos embotar a vista e fazer com que toda violência se banhe num enganador molho de normalidade ? E ainda, qual a influência destas notícias em despertar o demônio dormente nas cotidianas testemunhas oculares dos crimes da humanidade ? Estas questões são polêmicas e aqui ficam para reflexão. Alguma coisa, no entanto mudou nos tempos modernos: a crescente capacidade destruidora humana com a fabricação de armas de destruição em massa. Bons tempos aqueles em que o homem dizia-se lobo do homem, hoje o homem é a alcatéia do seu semelhante.
Esta semana , aqui em Crato, todos se espantaram com a notícia do assassinato de um jovem e promissor advogado, aparentemente contratado pela própria esposa e o amante dela. O pretenso motivo, o mais antigo da história deste mundo : dinheiro que deveria vir de um seguro de vida. O grosso da população comentou em todos os cantos e lugares, aparentando uma consternação distante e mal disfarçando aquele ar sádico que permeia a maior parte das nossas relações sociais. No fundo, todos estavam, de alguma maneira, felizes com a notícia que haveria de alimentar as línguas nos próximos quinze dias, até ser substituída por uma outra, de preferência, igualmente cabeluda. Pouco se ativeram à tragédia terrível que tinham pela frente: um jovem advogado que teve a vida ceifada impiedosamente; uma adolescente plena de conflitos da própria idade e que tem a vida definitivamente arruinada e seu filho órfão de pai e mãe e que terá que crescer carregando consigo o peso de muitos cadáveres às costas. Antes dos nossos juízes de plantão, nas praças, clubes, mesas de bar, declararem as suas sentenças , lembremos que ninguém tem consigo os autos do sentimento, das emoções, das fragilidades pessoais para ter condições de fazer juízo de valor sobre o caso. As famílias envolvidas já carregam consigo tanta dor, tanto sofrimento que ninguém tem o direito de torturá-las mais ainda. Deixemos que a justiça siga seus passos , investigue e julgue imparcialmente . A vida, por outro lado, haverá de sorrateiramente fazer a sua parte, ninguém mexe no equilíbrio do universo impunemente.
E não se engane não, caro leitor, qualquer homem nesta terra é capaz da mais inimaginável atrocidade. Os maiores crimes da humanidade foram cometidos por pessoas perfeitamente normais aos olhos do povo, meros burocratas, a maior parte das vezes cumprindo ordens. Todos nós, queiramos ou não, fazemos parte da descendência de Caim. Se puros, perfeitos e imaculados estaríamos no Éden. Imperfeitos como somos, um dia tivemos de arrumar os trapos e nos mudamos para as frias terras de Nod.
J. Flávio Vieira
Escrito por Jose Flavio
Outras
28 mar 2008, 11:35
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Estranho paradoxo: enquanto a CNBB pressiona contra as pesquisas com células-tronco, a PUC-RS valoriza estudos que procuram verificar a existência de “cérebros criminosos”. Se a vida é dom divino, a violência pode estar inscrita nos genes? Reflexões sobre o papel a que a igreja renuncia
No filme O Dia Depois de Amanhã, dirigido por Roland Emmerich, especula-se sobre os efeitos climáticos provocados pelo aquecimento global. Nele, o climatologista Jack Hall (Dennis Quaid) vê seu filho de 17 anos, Sam, (Jake Gyllenhaal) preso em Nova York, onde tem de enfrentar as fortes inundações e o declínio dramático das temperaturas. Refugiado em uma biblioteca pública, Sam tem a companhia de sua namorada e amigos, além dos bibliotecários. Para se manterem aquecidos e vivos, eles decidem queimar os livros na lareira, até então desativada.
Em dado momento do filme, um dos bibliotecários agarra decididamente uma das 180 versões impressas da Bíblia de Gutenberg. Não por fé em Deus: ele se declara ateu. Decide defender da fogueira um dos símbolos da era da razão: a invenção da imprensa, por Johann Gutenberg (em 1450), que ajudou a deixar para trás as sombras da Idade Média.
Foram necessários mais alguns séculos para que, em meados do século 18, a ciência moderna, saída da revolução científica do século 16 pelas mãos de Copérnico, Galileu e Newton, começasse a deixar os cálculos esotéricos dos seus cultores, para se transformar no fermento de uma transformação técnica e social sem precedentes na história da humanidade.
Fala-se da vida como algo subjetivo, intencional e natural de Deus, reduzindo a ciência a uma ameaça — quando, na realidade, é a vida que deveria justificar as pesquisas humanas
Essa foi uma fase de transição. Deixava perplexos os espíritos mais atentos e os fazia refletir sobre os fundamentos da sociedade em que viviam e os possíveis impactos positivos da ordem científica então emergente. Mais de 200 anos depois, somos todos protagonistas e produtos dessa nova ordem — testemunhos vivos das transformações que ela produziu.
Se Gutemberg precisou inventar uma prensa de tipos móveis e levou aproximadamente cinco anos para imprimir 1282 páginas da Bíblia, vivemos hoje em tempos “reais”, onde acontecimentos em qualquer parte do planeta invadem nosso presente do aqui e agora. Não falamos mais de tipos móveis, mas de nanotecnologia, que foi expressa em 1972 (ou seja, há 35 anos) como algo distante e ficcional. Hoje, está presente nas roupas que usamos diariamente, nas chuteiras das fabricantes milionárias de material esportivo e na produção de alimentos, para não nos estendermos a outros ramos da produção.
No Brasil, o dilema das pesquisas sobre as células-tronco coloca em xeque sentimentos e dogmas religiosos, relacionados à Igreja Católica. Fala-se da vida como algo subjetivo, intencional e natural de Deus, reduzindo a ciência e as pesquisas a uma ameaça — quando, na realidade, é a vida que deveria justificar as pesquisas humanas.
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Em 1975, o diretor Milos Forman, baseado no livro de Ken Kesey, dirigiu o polêmico filme “Um estranho no ninho” (One Flew Over the Cuckoo’s Nest), uma crítica e denúncia do sistema dos manicômios. Nele, Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson), um prisioneiro, simula estar insano para não trabalhar, e vai parar numa instituição para doentes mentais. Lá, ele estimula os internos a se revoltarem contra as rígidas normas impostas pela enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher). Mas não tem idéia do preço que irá pagar por desafiar uma clínica “especializada”. Ao final, tem um lobo de seu cérebro extirpado por uma cirurgia, como solução e controle.
No mesmo momento em que a CNBB condena as pesquisas com células-tronco, a Pontifícia Universidade Católica (PUC) está iniciando, em Porto Alegre, estudos que parecem inspirados pelas mesmas teorias que recomendam a lobotomia. O Programa Fantástico de 27 de janeiro revelou seu sentido: “O que leva uma pessoa a cometer um assassinato?”. Os pesquisadores explicaram que estudarão os cérebros de jovens envolvidos em crimes bárbaros, para buscar a resposta.
Cerca de 50 jovens, entre 15 e 21 anos, de um total de 680 internos da Febem gaúcha, serão “cobaias”. Eles terão o cérebro examinado em uma máquina de ressonância magnética funcional, que mostra o cérebro em funcionamento. “O cérebro do delinqüente, sofreu, mudou, é diferente? Vamos investigar”, diz Mirna Portuguez, neuropsicóloga da PUC/RS.
Os neurocientistas esperam comprovar uma suspeita: a de que os homicidas têm partes do cérebro atrofiadas, reduzidas de tamanho. A mais importante delas é o lobo-frontal, que controla os impulsos dos seres humanos. Segundo as idéias que parecem orientar os pesquisadores, uma causa essencial da violência humana é atrofia do lobo frontal do cérebro. As pessoas com esta característica teriam mais dificuldade para conter seus instintos -– um traço que seria típico do comportamento assassino.
Pesquisas como as da PUC-RS suscitam dois tipos de protesto. O primeiro é ético. “Estamos tratando de adolescentes. Não são cães, nem macacos. São pessoas”, acusa Ana Luiza de Souza Castro, psicóloga do juizado de menores do Rio Grande do Sul. Nos últimos anos, parte das próprias pesquisas com animais tem sido contestada, por crueldade e futilidade.
Do ponto de vista científico, tais estudos ecoam a tentativa de naturalizar, ou biologizar distúrbios e conflitos sociais. Remetem, por exemplo, ao I Congresso de Antropologia Criminal, realizado em Roma, em 1885, no qual as teses e propostas de Cesare Lombroso [1] obtiveram grande sucesso e reconhecimento.
Entre muitas outras obras escritas deste então, o livro Crime e loucura, de Sérgio Luís Carrara oferece uma alternativa à idéia do crime-doença. Ao juntar as monomanias (delirantes, raciocinantes e instintivas), ele aponta a existência de uma “culpa sem razão” ou de uma “razão sem culpa”. Somos culturalmente determinados por heranças sociais, que se manifestam em nosso corpo biológico — não o contrário, como insistem os sociobiologicistas de laboratório, acostumados a hamsters e cadáveres.
A igreja poderia jogar papel muito positivo. Para tanto, seria preciso superar uma velha disputa entre ciência e religião — e refletir sobre a propriedade do conhecimento
Não me recordo de polêmica proposta pelo Vaticano ou CNBB para se contrapor ao tipo de “estudo” pretendido pela PUC-RS e alardeado pelo Fantástico. Ao voltar-se, em vez disso, contra as pesquisas com células-tronco, a igreja católica desperdiça uma enorme possibilidade. Sua ação poderia ser de grande relevância para ajudar a fazer contraponto ao uso das descobertas científicas em favor de objetivos pouco éticos: a devastação da natureza, a ampliação das desigualdades, a emergência de grupos sociais ou nações capazes de exercer dominação sobre outros. É algo que tem ocorrido invariavelmente, nos últimos 200 anos.
Para tanto, seria preciso superar uma velha disputa entre ciência e religião — e refletir sobre a propriedade do conhecimento. Adorno, Benjamim e a chamada Escola de Frankfurt cunharam o conceito de indústria cultural, para criticar a transformação do lazer e entretenimento em objetos de consumo e de uso político e ideológico. Hoje, há uma indústria da vida sendo desenhada — desde as pesquisas realizadas pela Alemanha nazista e os EUA, durante a Segunda Guerra e Guerra Fria. No combate a esta tendência, todas as religiões seriam muito bem-vindas.
Mais de 500 anos depois de os povos da África serem escravizados pelos europeus, o Papa João Paulo II, talvez como um ato de grandiosidade humana à beira da extrema-unção, pediu perdão pelos crimes de omissão e participação da Igreja Católica. Não sem tempo, as contradições da Igreja continuam.
Alexandre Machado Rosa
“Le Monde Diplomatique”
Escrito por Jose Flavio
Outras
27 mar 2008, 20:05
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Passei a Semana Santa no Crato, uma cidade do Ceará próxima a Juazeiro do Norte, que ainda celebra os rituais da Paixão e Ressurreição de Cristo, como se estivéssemos na Idade Média. O Crato possui bispado e já foi a mais importante cidade cearense. Há algum tempo perdeu o prestígio para a vizinha Juazeiro, que ganhou fama e prosperidade por causa do Padre Cícero Romão Batista, o Padrinho Ciço.
Numa pesquisa realizada durante a primeira visita do Papa João Paulo II, ao Brasil, descobriu-se que o Ceará era o estado com maior número percentual de católicos praticantes. A julgar pelo que vi agora, a pesquisa não errou. A Via Sacra e a procissão do Senhor Morto foram acompanhadas por milhares de fiéis, que nem cabiam na Igreja Matriz do Crato. Ninguém se queixava nem arredava pé das cerimônias litúrgicas que duravam até mais de cinco horas. E no Juazeiro do Norte, chegavam centenas de carros cheios de romeiros, que vinham celebrar o Padrinho e a Mãe das Dores, com louvores populares e simples.
A Igreja continua apostando na força do teatro que encena. E na tirania do pecado e da culpa com que ameaça os fiéis. Nas cidades cearenses de Barbalha, Missão Velha e Várzea Alegre ainda se encontram grupos de penitentes vestidos de opas negras e capuzes cobrindo os rostos, que se fustigam com lâminas cortantes, até sangrar. Mas os penitentes já não se cortam tanto, não escondem a identidade como no passado e gostam de ser filmados pelas câmeras de televisão. Praticam o costume da penitência muito mais por um hábito cultural estimulado por prefeituras e instituições folclóricas, do que por fé religiosa. Embora afirmem o contrário, na frente dos microfones.
Os padres e bispos da Igreja do Crato rechearam os sermões da Semana Santa com pedidos pelos marginalizados, crianças abandonadas, doentes e explorados. No papado de João XXIII surgiu a Teologia da Libertação e a opção pelos mais pobres, que aproximou um segmento da Igreja Católica da política de esquerda. Com João Paulo II, o clero liberal foi para escanteio, e Bento XVI reafirmou uma Igreja mais preocupada com as questões da alma. O novo papa condenou com mais veemência o controle da natalidade, o aborto, as pesquisas genéticas e os casamentos entre homossexuais.
No Ceará, são alarmantes os índices de prostituição infantil e de adolescentes. Fortaleza é um dos principais endereços do turismo sexual. Também é altíssimo o número de menores gestantes, usuários de álcool e drogas. A maioria das cidades sertanejas tem baixo IDH e baixa escolaridade. Mas a Igreja Católica ataca os métodos anticoncepcionais – o uso de preservativos, de pílulas e dispositivos intra-uterinos – como se fossem pecados infernais. Finge ignorar que um dos maiores dramas da pobreza são os filhos indesejados. Em nome do direito à vida, deixa que proliferem vidas miseráveis.
O hino mais cantado na Via Sacra tinha o seguinte refrão: “Eu vim para que todos tenham vida, que todos tenham vida plenamente”. O “eu vim” se refere a Jesus Cristo. Não sei a que plenitude a Igreja se refere. À do espírito? É possível a plenitude do espírito pela simples representação do cerimonial? Os escândalos com padres pedófilos apontam para uma ausência de plenitude amorosa dos sacerdotes. Atacando o casamento homossexual a Igreja Católica faz vista grossa aos padres gays. Para que todos tenham vida plena, é preciso acabar com o celibato, celebrar casamentos heterossexuais e homossexuais. Talvez, assim, os rituais se tornem menos teatro e mais vida.
Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca e Livro dos Homens.Colunista do Site Terra Magazine
ronaldo_correia@terra.com.br
Escrito por Carlos Rafael
Outras
27 mar 2008, 09:32
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Local: Café Estação (antiga estação da Reffsa, em Crato)
Data: 5 de abril de 2008 (Sábado), a partir das 21 horas
Participação especial: Banda Liberdade e Raiz (Reggae Music)
Apoio: Secretaria de Cultura do Estado do Ceará