Leitores, vou terminar
Tratando de Lampião
Muito embora que não posso
Vos dar a resolução
No inferno não ficou
No céu também não chegou
Por certo está no sertão
José Pacheco da Rocha (1890-1954)
Finalzinho dos anos 50. Instituto Médico Legal Nina Rodrigues em Salvador, na Bahia. Um menino peralta, indomável no alto de seus seis anos, manquitolando, com uma longa bota ortopédica atada ao pé direito, aproxima-se destemidamente da vitrine. À sua frente uma imagem inesquecível e bárbara: as cabeças degoladas de Lampião, Maria Bonita e dos cangaceiros : Quinta-feira, Luiz Pedro, Mergulhão, Elétrico, Enedina, Cajarana, Tem
pestade e Marcela. O meninozinho caririense, em tratamento ortopédico na capital baiana, não titubeou. Como havia prometido ao pai, antes da viagem, postou-se diante dos guerreiros decapitados e bateu continência.
Já lá se vão seten
ta anos da queda definitiva do Capitão Virgulino e seu bando e exatamente meio século do gesto de reverência militar do menino ruivo e meio saci que hoje escreve estas linhas. Após o fogo de 28 de Julho de 1938, em Angicos, os onze guerreiros que fizeram parte do mais arrojado bando guerrilheiro nordestino, que varreu os sertões por quase vinte anos, abatidos, terminaram todos sendo decapitados. Suas cabeças passaram a ser expostas sob o pretexto que serviriam de cobaias científicas , se estudando possíveis degenerescências lombrosianas. E assim permaneceram até 1969, quando sob pressão do Dr. Sylvio Hermano de Bulhões, filho de Corisco e Dadá, este mobilizou a opinião pública para que pusessem fim à exposição bárbara dos restos mortais dos principais
expoentes do ciclo épico do cangaço no século 20. Os aniversários são sempre propícios à reflexão, hoje, sentada a poeira dos eventos épicos dos anos 30, há condições de se enxergar melhor.
A primeira questão diz respeito à exposição indigna dos restos mortais dos cangaceiros por mais de trinta anos. A justificativa científica rapidamente cai por terra à medida que as teorias criminalísticas de Cesare Lombroso começaram a cair por terra após os anos
Lampião, com o tempo, foi se travestindo numa figura mitológica: meio herói, meio bandido, meio anjo meio belzebu. Idolatrado por alguns, execrado por tantos outros, tem se mantido nesta dubiedade mítica intimamente imersa na alma do povo brasileiro. Essa presença tão forte talvez advenha da impossibilidade de alguém se manter neutro ao ouvir sua história, ao ver cantados seus feitos. O escultor Zé do Carmo , de Goiana em Pernambuco, intuitivamente percebeu o anverso-reverso da medalha e esculpiu em barro um sem número de cangaceiros alados. Como julgar uma pessoa que pelas vicissitudes da vida viu-se , de repente, jogado na caatinga, lutando por uma causa que ele próprio já ignorava e acossado dia e noite, por quase vinte anos, pelas patrulhas de macacos ? Como sobreviver na selva sem aprender as astúcias da raposa e a selvageria das aves de rapina ?
A saga do Capitão Virgulino Ferreira na sua multiplicidade interpretativa, demonstra uma outra duplicidade de origem. Como em Canudos e no Caldeirão, a nação demonstrou, claramente , as duas arestas de que é composta. Um país que poderia se chamar de Holandesh : de um lado um povo rico, próspero e desfrutando de um paraíso terrestre, uma espécie de Holanda; do outro 80% de uma população que sobrevive de bicos e que não tem garantido o almoço de cada dia, morando numa espécie de Blangadesh. Como lembrou o nosso Machado de Assis e reafirma a cada dia o gênio da raça Ariano Suassuna, há estes dois Brasis um real e outro oficial. De vez em quando, na nossa história, a Holanda busca dizimar , com vergonha, a Blangadesh. Com Lampião foi assim , mais uma vez tentaram cortar a cabeça da serpente, sem entender que se tratava de uma Medusa. Hoje o cangaço deixou a caatinga e está nas ruas, nos morros, nas favelas. Os novos Virgulinos se multiplicaram e respondem pelo nome de Fernandinho Beira-Mar, Lulu da Rocinha, Cecelo,Coelho, Marcelo PQD. A aresta holandesa deste país continua mantendo seu paraíso a custa de escândalos e falcatruas: mensalões, sanguessugas, Satiagahas. Em meio ao tiroteio, padecem culpados e inocentes. Muitas e muitas cabeças ainda serão cortadas e expostas ,Brasil afora, para dar uma sensação de falsa tranqüilidade. Angicos, a queda do Arraial de Canudos, as chacinas da Candelária, do Caldeirão e do Carandiru são medidas inócuas. Enquanto o Brasil carregar a Holanda e Blangadesh tão próximos, o cangaço não terá sido extinto.
A imagem de tantas cabeças sem o corpo terminaram por fazer a cabeça do meninozinho ruivo. E , por isto mesmo, hoje, cinqüenta anos depois , ele aqui está novamente batendo continência para o Capitão Virgulino Ferreira da Silva.




























O tema cangaço fascina. Não há a necessidade de defesa ou condenação desse ou daquele gesto ou de nenhum cangaceiro. O certo é que o tema merece uma boa leitura, uma análise desapaixonada e responsável.
Parabéns Zé Flávio. Vocé como sempre é muito responsável com o que escreve.
Dedê
obrigado ao grande Dedê pelas palavras . O cangaço tem mesmo esta possibilidade de fascinar a todos. Ninguém consegue ficar indiferente.É que remexe um pouco com o nosso lado épico, há um pouco da ilíada nas histórias de cangaceiros.
Quando Lampeão passou por Varzea-Alegre, foi recebido com muita honra e respeito. Ao passar por um “Caboco” das bandas da Extrema perguntou: Voce Fuma cabra? O sujeitinho respondeu bem tranquilo: fumo, mas se o Senhor mandar eu paro agora mesmo.
Quando chegou em Lavras foi escurraçado a bala pelo Cel Raimundo Augusto. Já perto do Barro os cabras cantavam:
Bem que Lampeão dizia,
Que deixasse de asneira.
Que passasse bem longe,
De Lavras da Mangabeira.
Parabens Dr. Jose Flavio pelo relato, como sempre, muito bem escrito e elaborado.
Abraços.
grande Antonio! Cabra pra saber as histórias da Várzea Alegre. Bem vindo à tenda!
Depois de ler escritos sobre Lampeão chego a conclusão que Ele não era tão valente como dizem. quando levou a maior carreira em Lavras os seus comandados cantavam:
Nós íamos relando o chão,
Temendo a bala ferina.
Quando Lampeão conheceu,
Que lá havia ruína,
Correu com medo dos cabras,
De Dona Fideralina.
Pedro Albuerque Uchoa, Inspetor Agricola do Ministerio da Agricultura, se encontrava em Juazeiro do Norte quando da visita de Lampião a cidade. Virgulino Ferreira da Silva solicitou a patente de Capitão em cumprimento de promessa do Dr. Floro Bartolomeu da Costa. O Padre Cicero redigiu o documento de concessão e pediu que Pedro Uchoa assinasse visto ser Ele a unica autoridade civil presente naquela ocasião. Regressando a Fortaleza Dr. Pedro Uchoa foi interpelado pelos amigos porque havia dado a patente de capitão para o Rei do Cangaço. Respondeu: Porque ele não me pediu de Coronel!