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Crônicas do Sítio Rosto e Adjacências

Devolve

Escrita pelo Bruxo do Sítio Rosto

Quando cheguei ao Rio de Janeiro em 1973, em pleno regime militar, para fazer Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, fui me adentrado nos meandros das teorias marxistas, justamente por estar fazendo o curso de Ciências Sociais. Eu lia as teorias, através de textos que, depois de lidos, rasgava, ou melhor, triturava e fazia descer descarga abaixo, após decorá-lo. Inda hoje sei de cor passagens da Ideologia Alemã, lido em espanhol, livro brochura, de capa verde e papel jornal, emprestado sob mil cuidados, por colegas barbudos e fugidios.
Fiquei assombrado quando fui apresentado, numa salinha do Diretório Acadêmico ao poeta, escritor, jornalista, artista, compositor e comunista Mário Lago, que ia fazer a apresentação do especial “Som Brasil”, na concha acústica da Uerj, em 1977. Eu estava diante de um homem que seria a encarnação da teoria marxista na prática. Pronto, aqui está o homem que é a favor da luta de classes, da ditadura do proletariado, da socialização dos meios de produção, etc., etc., etc.
Foi ai que me lembrei de quando tinha 16 anos, e ajudava Raimundo Siebra, que ainda está muito bem vivo, e era operador do Cine Educadora e controlista da Amplificadora Cratense, que funcionava numa salinha contígua à casa de Pedro Teles, na Praça da Sé. Ele me deixava muitas vezes na responsabilidade de botar a amplificadora no ar e fazer toda a programação da manhã. Um belo dia eu li num disco de 78 rotações o título de uma música que era muito solicitada na programação da “Hora da Saudade” nas rádios locais.
Era a música “Devolve”, e seu autor, Mário Lago. E agora, como entender a suntuosa dureza da estética marxista com a singeleza dos versos do comunista Mário Lago! Pois é, de lá pra cá a Antropologia me ensinou a relativizar força e ternura. Mas, vamos degustar a poesia de Mário Lago, numa das letras mais perfeitas da Música Popular Brasileira:

Devolve
(Música e letra de Mário Lago, com Carlos Galhardo)

Mandaste as velhas cartas comovidas,
Que na febre do amor te enviei;
Mandaste o que ficou de duas vidas:
O romance, uma dor que provei…
Mandaste tudo, porém,
Falta o melhor que te dei:

Devolve toda a tranqüilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que perdi
Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te ofereci
Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci
Devolve, que eu te devolvo ainda
Esta saudade infinda
Que eu tenho de ti

5 de Respostas para “Crônicas do Sítio Rosto e Adjacências”

  1. Dihelson Mendonça disse:

    Armando,

    Parabéns pela excelente postagem. Muito linda mesmo. Estamos precisando de mais coisas assim por aqui…

    Abraços,

    Dihelson Mendonça

  2. Armando Rafael disse:

    Dihelson,
    Realmente é uma bela crônica.
    O autor – que escreve com o pseudônimo de “O Bruxo do Sítio Rosto” – sempre aborda temas/assuntos do Lameiro e adjacência e, vez por outra, solicita que eu as coloque neste blog. O que faço com satisfação.

    Armando

  3. Carlos Eduardo Esmeraldo disse:

    Armando
    Esse “Bruxo do Sítio Rosto” esqueceu da música mais famosa do “Mário Lago” que é “Saudades da Amélia”:

    Nunca vi fazer tanta exigência.
    Nem fazer o que você me faz.
    Você não sabe o que é consciência.
    Nem vê que eu sou um pobre rapaz.
    Você só pensa em luxo e riqueza.
    Tudo que você vê você quer.
    Ai, meu Deus, que saudade da Amélia
    Aquilo sim é que era mulher.

    Às vezes passava fome ao meu lado
    E achava bonito não ter o que comer
    E quando me via contrariado
    Dizia: Meu filho, que se há de fazer

    Na opinião do “Bruxo do Pau-seco, Letra mais bonita do que esta, ainda falta ser escrita.

  4. A.Morais disse:

    Bom dia Armando.

    Vai uma dica pra quem interessar matar a saudade e até fazer uma comparaçãozinha com as de hoje. Convem lembrar que são de uma epoca que ainda não tinhamos nascido e mesmo assim estão bem presentes em nossas lembranças e saudades.

    Nada Alem – 1938.
    Aurora – 1941.
    Ai, que saudades de Amelia – 1942.
    Atire a primeira pedra – 1944.
    É tão gostoso, seu moço – 1953.

    De agrado:

    “Gosto e preciso de ti
    Mas quero logo explicar.
    Não gosto porque preciso
    Preciso sim, porque gosto”.
    Mario Lago.

  5. Armando Rafael disse:

    Taí, velho Bruxo:
    Seus escritos agradam!
    Seja mais assíduo…

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