Puxando, um pouco, pela memória recordo algumas imagens daquela infância vivida no Crato: lembro-me da Rua Nelson Alencar, esquina com Padre Sucupira, onde nós morávamos; lembro-me do nascimento de meu irmão Crisanto; das aulas de catecismo e da Primeira Comunhão, feita juntamente minha irmã e uma prima; dos deliciosos e desejados picolés de Corina, dona ou empregada (não sei, bem) de uma bodega próxima; da bicicleta que ganhei numa data próxima ao carnaval e dos passeios até Juazeiro ou Barbalha, no bagageiro de uma Variante adquirida por um tio. São todos acontecimentos que me vêem como flashes do passado. As recordações de um garoto são diferentes das de um adulto. São lúdicas, recobertas por um material diferente que são as imagens e sensações, e não pensamentos ou julgamentos. E é bom que seja assim!
Começo a ter estes pensamentos sobre um tempo tão distante enquanto converso com o meu pai Zilberto Cardoso, aqui em Fortaleza, onde moramos, e no momento em que lhe presenteio com um rádio de ondas curtas, antiga paixão de um passado cratense em um Brasil sem televisores e internet. Conversa vai, conversa vem e a lembrança do meu pai sobre o seu pai vai tomando corpo. Suas lembranças são vivas e carinhosas e, momentaneamente, me envergonho de não possuí-las. Do vovô lembro-me pouco, como já disse. Sei dele, sobretudo a partir do relato de meus parentes, que era um senhor cordato e moralmente austero, que possuía enorme influencia sobre os filhos e que gozava, junto destes, de enorme admiração. Vovô Cirilo é ou foi para mim um conjunto de imagens construídas por relatos. A casa da Pedro II onde viveu e que ainda hoje pertence à família ajuda-me a lembrá-lo como um velho senhor vestido de branco, sentado em uma cadeira de balanço, de vime, ao lado de minha avó Inês Cardoso de Oliveira, Vovó “Coração”, na varanda do antigo quintal que sei que não mais existe da forma como era antes.
O Vovô e a Vovó, no quintal na casa da Rua Pedro II: esta é a mais forte lembrança que tenho deles! Morávamos um pouco distante, e as visitas aos avós paternos eram acompanhadas por certa expectativa. Lembro-me, acima de tudo, da enorme quantidade e variedade de objetos e coisas naquele quintal avarandado e com um jardim central, repleto de roseiras, entre elas um enorme limoeiro. Lembro-me de uma cacimba rasa, de um galinheiro cheio de aves e da mistura de cheiros de tudo o que se possa imaginar que existe em um local assim. Recordo, por fim, do cheiro e do sabor do refresco de limão, feito por minha avó, que até hoje procuro reencontrar. Limonada que era bebida acompanhada de pão sovado ou pão doce, e que eram feitos na padaria da própria família. Meu avô, padeiro Cirilo, minha avó, Coração, responsável pela feitura da melhor limonada que já tomei até hoje; e aquele quintal que era um mundo a ser desvendado e é, ainda hoje, um universo feliz de lembranças lúdicas de um passado que hoje, 39 anos depois, retorna.
Em homenagem ao meu avô e a minha avó vou tentar, neste domingo, fazer, eu mesmo, uma boa e natural limonada, comprar um bom pão sovado e sentar com meus filhos para comer e beber. Vou falar do bisavô Cirilo, da Bisavó Coração, aproximá-los um pouco mais de minha família e, assim, fazer seguir o ciclo da vida.
João Carlos Holanda Cardoso

























Prezado João Carlos H. Cardoso
Meus cumprimentos por tão bela e justa homenagem que você presta ao seu avô. Conheci-o quando eu ainda era um menino de oito anos ao comprar pão na Padaria Cirilo. O meu pai falava do seu avô de um modo que nos fazia entender o grande conceito que tinha por ele. Dizia-nos que ele era um homem honesto e muito digno. E já adulto tive oportunidade de trabalhar com um filho do seu Cirilo Cardoso, que me confirmou toda aquela avaliação que o meu pai fazia do seu avô, pois o filho herdou dele um comportamento moral reto e exemplar. Aliás, não somente Zilberto, seu pai, mas todos os seus tios e tias numa prova do grande legado que ele deixou ao nosso querido Crato. Um grande abraço.
Lustre essa lembrança , de vez em quando … Seus avós estão no santuário afetivo do povo do Crato.
Abraços.
Querido filho João Carlos:
muito grato pelo exelente texto, não poderia ser diferente em se tratando de você.
beijos e cheiros de seu pai e de sua mae Rosalia.
Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar pelo blog. Eu possuo também esse saudosismo da minha terra, de tempos que não me pertenceram mas enchem a gente de um sentimento sem nome. Procurando no google sobre CIRILO CARDOSO, cheguei a este blog. É que acabei adquirindo em um sebo de discos de vinis vários exemplares dos primeiros 78 RPM, os antigos vinis que só rodavam em eletrolas antigas e/ou gramofones. Alguns dos espécimes traziam uma tira datilografada com o nome CIRILO CARDOSO. Títulos que representam o melhor da música daquele tempo, como Carlos Galhardo, Isaura Garcia e Emilinha Borba. Seu avô certamente possuía um gosto muito bem apurado pela música!