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Averigações nos suspeitos de sempre – por José do Vale Pinheiro Feitosa

Seria descente dos Watusi? Pernas longas e magras, mais de dois metros de altura. Como um destino dos grotões no novo continente foi parar num ponto impreciso entre o Fidelis, a Lagoa da Besta e o Gravatá. Mas a presença daquele homem negro, um espécime autêntico das savanas africanas, que pastoreava gado desde o final do dilúvio. Antes do novo testamento e bem próximo das rotas de dispersão pelas se esqueceram dos antepassados e com olhos azuis é certo que hoje desgraçam a África. Aquele gigante magro era de uma placidez budista, um silêncio só sentido nas alvuras do Everest. Uma voz de pausa e assertivas tão firmes que verdades caíam no chão como sementes nas covas. Sementes de germinar outras verdades derivadas como os galhos ramificados do tronco.

Por isso não foi surpresa quando no bairro Gisélia Pinheiro foi cercado pela polícia. Passava da meia noite e um corpo ensangüentado fora encontrado numa grota na beira da estrada. Os policiais precisavam entrar na delegacia com um preso para aplacar a sede de resultados do delegado. Nisso encontraram aquele homem estranho para nossos corpos baixinhos e mestiços. Com dois carros em alta velocidade fecharam os passos que marchavam feito um pastor. Saíram excitados com a escopeta de duplo cano apontada para seu coração, revólveres sacados dos coldres, cassetetes levantados, uma covardia em círculo nervoso.

Palavras não lhe foram ditas, apenas imprecauções, grunhidos de lobos ao luar. Logo um gatilho descontrolado cuspiu uma cápsula quente sobre o deltóide do gigante. Foi a senha para o descontrole mental ao efeito de crack daqueles atos celerados. Os cassetetes batiam nas pernas dele como machados nos troncos de coqueiros nas praias desmatadas em benefício dos andares prediais. Ele se ajoelhou não por prece, mas em tombo de abate. E a violência policial se mantinha não como ato institucional, mas como a loucura que só se esvai quando as força e o cansaço domina o agressor. Nisso o corpo dele estava todo lanhado, estrias se distribuíam como lagartas num chão, sangue pela boca, ouvidos e arranhões generalizados.

Arrastaram, desmaiado, o gigante para a carroceria da pick up. Saíram como vaqueiros após a bebedeira no saloon. Chegaram na delegacia como heróis. Alguns passantes da rua se detiveram pela curiosidade com aquele grande personagem carregado, semi-desperto em direção à mesa do delegado. A cena era tão diferente que o número de curiosos triplicou em questão de segundos. O sargento comandante foi apresentando as credenciais da operação:

- Aqui o safado do criminoso. Deu trabalho. Reagiu. Mas levou o dele.

O delegado esfregando as mãos de satisfação se dirigiu ao preso mutilado com a arrogância de pergunta-lhe o que tinha para dizer como se fosse esta uma pergunta irrespondível. Tudo ficou complicado quando o gigante falou:

- O pára-choque do carro de vosmicê tem o sangue da pessoa que acabou de barroar.
- Era um jumento!!? – disse o delegado.
- O morto que me deu de herança uma peia de torar a alma.

Por José do Vale Pinheiro Feitosa

1 Resposta para “Averigações nos suspeitos de sempre – por José do Vale Pinheiro Feitosa”

  1. José do Vale Pinheiro Feitosa disse:

    Atenção comenti um erro logo na entrada do texto e confesso que não tive tempo de verificar mais erros no restante: onde se ler “descente dos Watusi”, leias “decendente dos Watusi.

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