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Arquivo do Autor

Mundo Canibal – Por Walter Carvalho


O coração bate, os rins filtram regularmente, a vida já pulsa, quando subitamente membros agitam-se num frenético desespero frente aquele aparelho de sucção introduzido na gestante adolescente com poucos meses de gestação. As imagens são fortes, e durante o documentário americano exibido pela FoxNews, é impossível não sentir-se indignado e angustiado com o conteúdo apresentado. Uma mãe com um filho apresentando uma séria malformação congênita tem o abortamento consentido pela justiça americana, permitindo a gravação de tais imagens para a produção deste documentário. Uma câmera diminuta acoplada ao aparelho de sucção registra imagens de uma comoção inimaginável. Naquele momento percebe-se aquele ser vivo em toda a sua indefesa condição ser dilacerado e logo a seguir fragmentos do corpo são rapidamente sugados e desprezados num saco preto de lixo.

A humanidade caminha a passos largos para uma realidade na qual a qualidade de vida e os interesses individuais ultrapassam o direito a liberdade e a vida alheios. Ao envelhecermos perdemos em autonomia, força e saúde, mas ganhamos potencialmente em sabedoria e experiência. Muitos não valorizam o velho, muitos não valorizam a criança, e agora tenta-se institucionalizar a banalização do aborto. Os extremos da nossa existência nunca estiveram paradoxalmente tão comprometidos. Embora tenhamos alcançado mais conforto no mundo contemporâneo, em tempo algum o ser humano esteve tão banalizado. Estamos comprometidos desde a concepção até o potencial envelhecimento. Faltam-nos a mais básica das garantias: o direito a vida.

O abortamento em alguns países ultrapassa os limites da legalidade, sendo até mesmo estimulados pelas autoridades do governo, beirando a imoralidade. Há pouco enviaram para o meu email, coincidentemente uma noticia publicada num jornal alemão, sobre o hábito chinês de utilizar fetos abortados para a elaboração de sopas em algumas províncias da Republica Popular da China. O preço de cada prato é equivalente a 30 Euros, e havia propaganda do governo local associando a ingesta do feto a potenciais benefícios estéticos e provável rejuvenescimento.

Eis o mundo canibal no qual vivemos.

Por Walter Carvalho

A Identidade do Cearense – por Carlos Eduardo Esmeraldo

Vivíamos a fase do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Todo o interior da região amazônica estava sendo rasgado por estradas que desvirginavam a selva bruta. Recém-formado, aventurei-me a trabalhar numa construtora de estradas no interior do Pará. Na empresa que me contratou, recebi ajuda de um engenheiro muito experiente, um ex-deputado cassado pela ditadura militar, que trabalhava na mesma construtora e muito me ensinou. Chamava-se Alcino Carepa e para minha surpresa, pude revê-lo há pouco mais de dois anos pela televisão, já velhinho, quando sua filha, Ana Júlia tomou posse como governadora do Pará. Minha primeira missão naquele estado foi trabalhar na construção da PA- 02, uma ligação por terra entre as cidades de Tomé-Açu e Paragominas, esta última nas margens da famosa rodovia Belém-Brasília. Tomé-Açu é um município paraense com uma grande colônia de japoneses que ali plantam pimenta do reino. Naquela época, o acesso à cidade era feito apenas de duas maneiras, por barcos ou pequenos e inseguros aviões monomotores que faziam viagens regulares desde Belém. Eu estava responsável pela montagem do canteiro de obras e precisava cavar um poço naquele solo argilo-arenoso e muito úmido. Informaram-me que havia um cearense cavador de cacimbas na vilazinha de Quatro Bocas do Breu, onde estávamos acampados. Procurei-o e ele prontamente aceitou o serviço que lhe propunha. Cavou um pequeno poço a céu aberto, que conforme se esperava, não foi profundo. Num lugar de muitas e freqüentes chuvas, o lençol freático estava bastante próximo da superfície. O cearense correspondeu às minhas expectativas, pois em menos de um dia, o canteiro de obras ficou com seu abastecimento d’água concluído. Curioso, quis saber de onde era aquele conterrâneo tão trabalhador. “De qual cidade do Ceará o senhor é?” “Eu sou de Castanhal”, respondeu-me. Admirado, eu contestei: “Então o senhor não é cearense.” E ele, num raciocínio bastante lógico, me disse: “Meu pai e minha mãe são cearenses de Canindé. Se filho de japonês que nasce aqui é chamado de japonês, então eu sou cearense também.” Que lição eu recebi daquele humilde trabalhador! Nós cearenses, assim como os judeus e japoneses, somos um povo que tem uma identidade. Enquanto os judeus se julgam o povo eleito por Deus, nós somos um povo resistente à indiferença dos políticos, e ao sofrimento de secas inclementes ou excessivas chuvas que provocam inundações.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Espertezas – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Em três oportunidades, li notícias da nossa imprensa que revelam a esperteza do típico brasileiro que adora aplicar a lei do Gérson, isto é “levar vantagens” em tudo, até nas mínimas coisas.

Na primeira, através de um dos jornais de Fortaleza, eu tomei conhecimento que um funcionário da antiga VARIG, ao receber as bagagens de um vôo cargueiro vindo do Recife, observou que no compartimento de cargas destinado ao transportes de animais havia um cão pastor alemão capa preta, morto. Avisou ao gerente que, imediatamente orientou aos seus subalternos, a retirar o animal transportado para um incinerador. Em seguida, mandou procurar pelos canis de Fortaleza um outro cão bem parecido com o que fora encontrado morto e colocado na jaula própria para transporte, aguardando o destinatário. Quando este, um conhecido professor do curso de veterinária, procurou pela sua encomenda teve uma desagradável surpresa. O animal que esperava era um cão morto para que fizesse alguns estudos sobre a causa da morte daquele animal de raça. A esperteza do gerente da VÁRIG deu errada, com prejuízos exclusivos ao professor de veterinária.

A outra notícia gabava um conhecido industrial cearense. Dizia que nos meados dos anos quarenta ele já era um vitorioso empresário, apesar de ainda jovem. Por causa da guerra, o país atravessava um grande racionamento de combustível. O empresário homenageado pela reportagem quase teve o namoro desfeito por ordens dos pais da moça, porque ia se encontrar com ela a bordo de um velho carro de praça. Uma esperteza do empresário para driblar o rígido racionamento de combustível imposto aos carros particulares. Como os carros de praça tinham direito a uma cota maior de gasolina, o empresário adquirira um desses carros e quase perdia a namorada.

A terceira esperteza foi noticiada pela Revista Veja, numa reportagem em que tecia “loas” ao segundo Presidente da República eleito em 1994, após a redemocratização do país. Entre as características e gostos pessoais do nosso Presidente eleito, estava a de que ele adorava goiabada cascão. Como os netos do nosso futuro Presidente, quando visitavam os avós, comiam toda a goiabada em estoque na geladeira dele, ele resolveu implantar um rígido controle: lambia na frente das crianças todas as barras de seu doce preferido. Fiquei pensando: ‘um sujeito desses é um egoísta, se faz isso com os netos, o que não fará com os assalariados do Brasil?’ Outros tipos de esperteza postos em prática por aquele nosso Presidente atingiu a toda população brasileira. E as conseqüências nós amargamos até hoje, entre tantas, as elevadas tarifas dos serviços públicos privatizados, a desregulamentação da economia e o achatamento salarial posto em prática pelo Presidente lambedor de goiabada.

Vossos filhos… – por Carlos Eduardo Esmeraldo

“Vossos filhos não são vossos filhos. São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem.” (Gibran Kalil Gibran)

O poeta libanês Kalil Gibran, que li juventude, nos dá uma das mais importantes lições para educar e formar nossos filhos. A procriação, formação e educação dos filhos estão entre as principais finalidades de um casamento, seja ele formal ou não. Pais e mães têm a obrigação de colocar no mundo pessoas que possam transformar a sociedade injusta e violenta na qual vivemos. Para isso, o primeiro passo é dar aos filhos muito amor e carinho. Quem recebe amor, aprende a amar e aceita as pessoas como elas realmente são e não como nós gostaríamos que elas fossem. O testemunho dos pais é a melhor pedagogia. Os pais devem viver hoje, aquilo que desejam que os filhos sejam amanhã. O bom exemplo é muito mais importante que lições ditadas no alto de um pedestal. Como será gratificante para um pai ou uma mãe, ver num filho adulto, atitudes que eles aprenderam pelo exemplo de vida de seus próprios pais. Por isso não se pode orientar ou corrigir o comportamento dos filhos com surras e gritos. Isto criará marcas na criança, difíceis de serem superadas e que a acompanhará por toda vida.
Na realidade os nossos filhos não são propriedades nossas, eles “são filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma”, isto é: são filhos de Deus e por isso devem ser criados com amor, carinho e muito diálogo.
Dialogar é colocar-se na posição do outro, entender e respeitar suas idéias. É procurar enxergar as coisas com os olhos daquele com o qual se dialoga que geralmente pensa diferente de nós. É algo como quando alguém olha para uma cortina que enfeita determinada janela e afirma: como é bonito esse azul! E o outro, ao lado, replica dizendo que a cortina é verde. Então se deve trocar de local para poder observar do mesmo lugar em que o outro se encontra. E depois chegar a um consenso: “realmente, dessa outra posição incide um raio de luz sobre a cortina que dá a impressão de verde”.
Para praticar o diálogo com os filhos é necessária muita humildade, respeito e principalmente saber ouvir. Humildade para reconhecer que ninguém é dono exclusivo da verdade. E que, paradoxalmente, se tem muito que aprender com os filhos. Respeitar o filho como uma pessoa humana, que desde o princípio tem sentimentos, vontade e desejos. Saber ouvir é uma das faculdades mais difíceis de ser encontrada no ser humano. O Rei Faisal da Arábia Saudita exercia uma grande liderança no mundo árabe, mas era muito calado. Certa feita, ao final de uma reunião da cúpula árabe, um repórter lhe perguntou como era possível ele ter tanta influência sobre os demais governantes árabes, se falava tão pouco. E ele respondeu “Alá nos deu dois ouvidos e uma boca, para podermos ouvir duas vezes mais do que falamos”. Portanto é importante dar atenção ao filho, saber ouvi-lo, mesmo nos momentos em que se deseja ver um filme, as notícias do dia, o capítulo de uma novela ou ler um jornal. É claro que nesse processo de formação dos filhos será também muito importante ele receber um não. No decorrer de suas vidas eles receberão muitos “não”, e a criança criada sem limites não saberá ser contrariada.
Finalmente, a “tarefa educacional dos filhos deve ser solidária. A firmeza e disciplina próprias do homem têm que fundir-se à ternura e amabilidade da mulher, de tal modo que a autoridade não parta somente do pai, e o carinho exclusivamente da mãe”. (Cf. Dom Rafael Cifuentes.“
“Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O Arqueiro mira o alvo a senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que suas flechas se projetem rápidas e para longe. Que o vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja a vossa alegria, pois assim como ele ama a flecha que voa, também ama o arco que permanece estável.” (Gibran Kalil Gibran)

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Modificado pelo autor em 29.04.09

Ah que saudades que tenho… – Por Carlos Eduardo Esmeraldo.

Entre tantas coisas das quais eu sinto saudades daquele Crato dos anos sessenta, há duas que me fazem mais falta. Os cinemas e o jornal “A Ação”. Como explicar uma cidade, que se propõe ser berço irradiador da cultura, não possuir hoje nenhuma sala de cinema e sequer um jornal, principalmente numa época em que a informática evoluiu tanto e se propagou de tal modo, que montar um pequeno jornal diário ficou mais fácil do que nos tempos das velhas impressoras com plaquinhas de chumbo? E os cinemas? Apesar da televisão por assinatura, das diversas locadoras de DVDs, nada como uma confortável sala de cinema. Ah que saudades do Cassino, Moderno, Cine-Rádio Araripe e Educadora!
Toda vez que passo pelo “Center Um”, hoje um pequeno e acanhado shopping da grande metrópole em que se transformou Fortaleza, sinto como seria bom se tivéssemos um pequeno centro de compras do tamanho daquele, na nossa querida cidade do Crato, com sala de cinema e um ponto de encontro de jovens e adultos, como foi em Fortaleza há 36 anos.
Ah que saudades do delicioso jornal “A Ação” e suas notícias maravilhosas! Lembro-me que em Salvador, distante da terrinha, sem televisão em rede nacional, telefones interurbanos e as facilidades hoje existentes e imagináveis naquela época, receber regularmente o jornalzinho de quatro ou no máximo seis páginas, era para nós cratenses motivo de uma grande festa. Por meio de suas notícias alimentávamos nossos cordões umbilicais, presos às encostas da verdejante Chapada do Araripe. Os redatores do querido semanário formavam um time digno de atuar em qualquer grande jornal do Brasil: Mons. Pedro Rocha, João Lindenberg de Aquino, Armando Rafael, Hamilton Lima Barros, Antonio Vicelmo e Huberto Cabral. A mais fina flor do nosso jornalismo!
Pelo título das manchetes de cada exemplar de “A Ação” que recebíamos, identificávamos pelo estilo, o autor da notícia. Certa vez, em pleno campeonato intermunicipal, a seleção juazeirense eliminou as seleções do Crato, do Cedro e foi à final contra a forte Itapipoca. Essa seleção da zona norte do Estado derrotara o todo-poderoso time de Sobral. Na véspera do jogo final em Fortaleza, em sua primeira página “A Ação” trazia a seguinte manchete: “Juazeiro, eita pipoca quente!” O autor da notícia tanto poderia ter sido o Antonio Vicelmo, quanto o Huberto Cabral, divergíamos nós, um grupo de seis cratenses: os primos João Vianey Barreto e Luciano Brito Gonçalves, e os amigos Vicente Pierre, Edilson Alencar e Domingos Nogueira Neto.
Numa outra semana, tomávamos conhecimento da notícia de um conhecido agricultor que não comparecera à feira semanal, como de costume, e por isso, correra o boato de que ele teria morrido. Na semana seguinte, ele foi ao jornal “À Ação” pedir que aquele jornal explicasse aos amigos que o boato era falso. Dessa feita a manchete veio mais engraçada ainda: “Defunto voltou à feira para avisar que não havia morrido.” Para essa, houve unanimidade entre nós cratenses exilados na Bahia, sobre o autor da noticia. Adivinhem vocês, quem foi ele?

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Que país é esse? – por Carlos Eduardo Esmeraldo

Entro no Iguatemi, o paraíso cearense do consumismo e o que vejo? Casais pobres, acompanhados dos filhos, fazendo compras, coisa impensável há cerca de seis anos. Em minhas raras viagens aéreas quem são meus companheiros de vôo? Entre tantos homens de negócios, encontro mais pobres que antes viajavam de “pau de arara”, e hoje cruzam os céus do Brasil, como Bebé, uma moradora do Sítio São José do Crato, que visitou os filhos em São Paulo, com direito a reportagem do Fantástico da Rede Globo, registrando o fato, uma novidade digna de ser mostrada. Que país é esse em que os pobres moradores da sua porção subdesenvolvida estão fazendo três refeições por dia, possuem cartões de crédito, telefones celulares, circulam pelas nossas ruas de motocicletas e os filhos freqüentam escolas de computação e ingressam nas universidades públicas? Quando foi que os filhos dos trabalhadores rurais freqüentaram escolas nas cidades, tendo direito a transporte escolar gratuito? Que país é esse governado por um simples operário de origem nordestina, sem diploma de curso superior, falando a língua do povo, mas mesmo assim é exaltado como um notável estadista pelos líderes das principais nações européias e das três Américas e reconhecido pelo presidente do país mais poderoso do mundo, como o maior líder da América Latina? Que país é esse que afugentou o neoliberalismo e que antes mergulhava na mais profunda turbulência econômica a qualquer agitação nos mercados financeiros dos “Tigres Asiáticos” e, hoje se encontra preparado para enfrentar a mais grave das tantas crises criadas pela voracidade de lucros do capitalismo internacional? Enfim, que país é esse em que seu presidente é vítima da mais sórdida campanha da imprensa nacional, reconhecidamente da extrema direita e promotora de golpes de estado, entre os quais o que nos mergulhou em vinte e um longos anos de uma ditadura militar, mas mesmo assim, se mantém como o governante com os maiores índices de aceitação popular no continente americano?
Sei que as viúvas do neoliberalismo, tais quais autênticas cassandras, profetizam um futuro incerto para todos e, desconhecendo a independência dos três poderes da República vêem a corrupção que grassa no legislativo, e até no judiciário como culpa exclusiva do Presidente da República. Sei que alguns irão falar de mensalão, esquecendo-se que compra de votos e caixa dois não são exclusividades de nenhum partido político. Que o diga aquele deputado de Roraima que gostava de serrar vivo seus desafetos e que foi presenteado com 200 mil reais para aprovar a nefasta emenda da reeleição. Que nos falem as notícias mais recentes do excesso de passagens aéreas para deputados dos mais diferentes partidos, inclusive muitos daqueles que antes apareciam diante das câmaras da televisão como paladinos da anticorrupção. Que revelem os jatinhos que transportam milionários senadores tucanos…
Somente cegos pelo fanatismo ultraconservador não enxergam que o Brasil dos últimos anos tem vivido melhoras em todos os níveis.
Desde Getúlio Vargas, um líder dos pobres, não apareceu nenhum presidente da república que tenha lançado um olhar para a pobreza, como nosso atual presidente o fez.
Finalizo com as palavras do eminente professor Emir Sater: “Decifrar o enigma Lula é condição de não ser devorado por ele – como tem acontecido com a oposição e com a ultra-esquerda.”
Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Gauche na Vida. – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

“Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida” (Carlos Drumond de Andrade)

Nasci canhoto de pé e mão, como no poema de Carlos Drumond de Andrade. E sempre que encontro um companheiro canhoto como eu, convido-o para juntos formarmos uma associação. Por que não uma Associação dos Canhotos do Brasil? Todas as minorias têm suas organizações para se livrarem dos preconceitos de que são vítimas e serem reconhecidas. Admiro muito os negros porque eles se fortaleceram e, hoje seus direitos estão resguardados até na constituição. E ai daquele que discriminar um negro! Será preso em flagrante e sem fiança. Os homossexuais agrupam-se e fazem marchas que arrastam para as ruas milhões de adeptos e já são aceitos pela sociedade. Mas acho que nós, os canhotos, somos os mais discriminados! Até nos dicionários dizem que o destro é um sujeito dotado de habilidade, ágil e desembaraçado, enquanto nós canhotos somos classificados como desajeitados e desastrados. Pode tamanho preconceito?
Alguém já comprou uma faca afiada para o lado esquerdo? Não, todas elas estão amoladas para quem é direito. E ainda dizem que somos um desastre, pois não sabemos descascar nem uma laranja. Para abrirmos uma simples lata de goiabada devemos usar o abridor de latas ao contrário, ou seja, da frente para trás. Como sofremos para cortar um simples bife de panela! Já não conto as vezes em que passei vergonha, pois a porção de carne que gostaria de cortar, voou sobre a mesa, quando não atingiu algum dos comensais do lado oposto. Já soube de casos em que um canhoto, num restaurante de luxo, tentou partir um frango frito e este se propagou pelos ares, indo se alojar na peruca de uma grã-fina duas mesas à sua frente.
E as fechaduras das portas prontas para serem usadas por quem é destro? Não sei quantas vezes já machuquei minha mão esquerda. Há muitos anos, num vôo de Salvador para o Crato, peguei um jornal para passar o tempo. O meu horóscopo dizia que pessoas do meu signo, naquele dia, estavam sujeitas a desastres aéreos. E eu lá nas alturas, nos bancos de um modesto DC3, tomando conhecimento de tão sinistra previsão. Observem que naquela época a Rede Globo ainda não existia para noticiar, com o prazer que costuma ter, o caos aéreo prestes a ocorrer. A certa altura da viagem, resolvi ir ao banheiro. Ao tentar abrir a porta, meio sem jeito com minha mão esquerda, é claro, o avião sofreu os efeitos de uma pequena turbulência. A porta se abriu bruscamente e minha mão esquerda ficou com suas costas na carne viva. Ainda bem que o acidente previsto por aquele intrigante horóscopo foi de pequena monta.
Nas minhas férias do ano passado, num pequeno acidente, fraturei o mindinho da mão esquerda. Fui obrigado a imobilizar a mão com gesso até as proximidades do cotovelo. Ao voltar às aulas, escrevia com a mão direita com imensa dificuldade. E os alunos diziam que a minha letra estava até melhor. Que críticos! Pior é que os conhecidos ao me verem e não se lembrarem da minha condição de canhoto exclamavam: “ainda bem que foi a mão esquerda!”
Alguém já ouviu falar em normógrafo? Quando nem sonhávamos com a computação gráfica, os letreiros dos projetos de engenharia eram feitos com a utilização desse pequeno aparelho. Pois quase que eu não me formava. A Escola Politécnica da Bahia não tinha normógrafo para quem era esquerdo. Ao tentar colocar as letras nas plantas que desenhava, quando passava para a letra seguinte a mão esquerda borrava o letreiro e espalhava o nanquim sobre o papel botando tudo a perder. Tive de aprender a usar a mão direita. Um suplício!
Carteiras escolares para esquerdos? Conheci uma na universidade. Mas aí já estava acostumado a escrever com a mão em forma de rodilha.
Mas de todas as discriminações, a que mais me revolta é quando escuto alguém definir uma pessoa bem conceituada com esta frase de puro preconceito: “Que sujeito direito!” Como se nós canhotos não prestássemos.
Já me disseram que o canhoto leva grande vantagem no futebol. Balela! Se for ruim de bola, como eu, os momentos de glória duram somente uns dez minutos, tempo suficiente para os do time adversário descobrirem que somos esquerdos e, acabarem rapidamente com o nosso único trunfo. Então, passamos a jogar uma bolinha murcha, que só.
Mas resta ainda uma esperança. Barack Obama, o presidente americano, também é canhoto. Alguém viu como foi bonito ele assinar o termo de posse? Estou pensando seriamente em convidá-lo para presidente de honra da nossa associação. Se ele for mais um político a nos decepcionar, então só me restará um único consolo. É que na minha casa, o mouse do nosso micro está instalado no lado correto; o esquerdo. E assim, sou seguido pelos filhos e pela minha mulher. Se por acaso algum visitante, ainda não habilitado ao uso da mão esquerda, tentar usar nosso computador, vai sentir na pele, o quanto nós canhotos sofremos com a ditadura dos destros.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

O Cobrador – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Esta é mais uma das muitas histórias que me foi contada pelo meu amigo Leofredo Pereira, um famoso contador de “causos” juazeirense e que foi meu colega de Coelce. Segundo Leofredo, aí pelos anos de 1940 até 1960, existia em Juazeiro um advogado muito solicitado. Tratava-se do Dr. Erílio Luz, um perito na arte de fazer cobranças para as empresas do comércio da cidade. Competente no seu ofício, o Dr. Erílio tinha consciência da fama de bom cobrador que desfrutava na região. Por isso não cultivava a virtude da modéstia. Certa vez alguém quis saber se ele havia estudado no Seminário do Crato. “Estudei seis anos lá, mais seis em Fortaleza. Desisti na hora de ser ordenado. Se tivesse continuado, hoje eu seria cardeal, na boquinha para ser papa.” Respondia o imodesto causídico.
Havia em Juazeiro um comerciante que se especializou em revender caminhões. Vendeu um deles a um cliente do Iguatu com pagamento em duas parcelas. Uma entrada de cinqüenta por cento e o restante para ser pago seis meses depois. Decorridos mais de um ano, sem conseguir receber o dinheiro, o comerciante procurou o Dr. Erílio. Fechado o contrato, marcaram viagem para o Iguatu. “Considere-se com dinheiro no bolso.” Disse o gabola advogado de cobranças.
Advogado e cliente saíram do Juazeiro às três horas da tarde, na velha “Maria Fumaça” da RVC e lá pelas oito horas da noite já estavam confortavelmente hospedados no Hotel Ferroviário do Iguatu, bem defronta da estação. Após o jantar, cadeiras na calçada, os dois aguardavam a suave e refrescante brisa do “Aracati”. Quando de repente, ouviu-se um tiroteio sem fim e aproximação de um estranho rapaz, nu sobre um cavalo, com duas mulheres também nuas na sua companhia. E haja tiros para o alto e correrias das pessoas para todos os lados. Os dois juazeirenses assistiram atônitos aquela bizarra brincadeira. Tão logo o jovem e esbelto cavaleiro passou por eles, o Dr. Erílio exclamou para o seu cliente: “Que rapazinho insolente!” A esta exclamação, o vendedor de caminhões completou: “Este é o valentão com quem o senhor irá acertar as contas amanhã de manhã.” Imediatamente o Dr. Erílio encerrou a conversa e o contrato. “Considere a causa perdida. Nós vamos mesmo é voltar para o Juazeiro no trem da madrugada.”

Por: Carlos Eduardo Esmeraldo

A Avenida dos Meus Sonhos – por Carlos Eduardo Esmeraldo

O talentoso escritor cratense e meu amigo Roberto Jamacaru escreveu excelente artigo, aqui no Blog do Crato, sobre a Avenida Padre Cicero. Ele está longe de imaginar como suas palavras caíram tão profundamente no meu íntimo e resgataram lembranças adormecidas há mais de meio século. Em primeiro lugar, porque devemos ter orgulho de ser conterrâneo do Padre Cícero. Ele é o filho mais ilustre do Crato, reconhecido internacionalmente. Infelizmente muitos cratenses não nutrem esse sentimento. Mas agora, graças ao nome desse taumaturgo, as duas cidades estão urbanisticamente se unindo num grande e futuro centro de desenvolvimento das regiões que margeiam os dois lados do Araripe.

Essa avenida teve uma importância fundamental na minha vida. É a avenida dos meus sonhos. Explico: fui criado no Sítio São Jose, em terras que pertenciam à nossa família e se estendiam desde o rio Grangeiro, que por lá tinha outra denominação e iam até a divisa do Crato/Juazeiro com o município de Barbalha. A estrada da qual Roberto se refere e que o Padre Cicero deve ter percorrido em abril de 1872, não foi exatamente esta extraordinária avenida que conhecemos hoje. Ela tinha outro percurso e, em alguns pontos ficava distante até um quilômetro da atual avenida. A partir do viaduto do Rio do Saco, em demanda do Juazeiro, a estrada derivava à esquerda, serpenteando a via férrea. Passava pelo São José, onde ficavam as casas do meu pai, de muitos tios, primos e tantos amigos, até o antigo matadouro do Juazeiro. Havia ônibus na porta de casa, aliás, as “Sopas do Anselmo”, aproveitadas da carroceria de velhos caminhões, daí o nome. Anos depois, vi e andei em Salvador em lotações dos anos de 1960, que lembravam as nossas “sopas”.

Por volta de 1952, creio, iniciou-se a construção da nova estrada. Acho que eu deveria ter uns seis anos de idade e, um dia fui ver a obra da Estrada Nova, como a chamávamos, com o meu inseparável amigo Vicente. Menino extraordinário, Vicente tinha um olho cego, mas pouco me incomodava com isto. Ele era neto de uma senhora que trabalhava na nossa casa, alguns anos mais velho do que eu. Sei bem da confiança que minha mãe depositava nele. Ela estava certíssima. Nunca ouvi dele uma anedota de mau gosto ou qualquer palavrão. Era um alegre contador de histórias, declamava e às vezes até cantava versos de cordel que costumava ouvir dos emboladores nas feiras do Crato e Juazeiro. Há anos que não o vejo, mas sei que ainda reside no São José e é um dos homens de bem que existe no Crato.

Na estrada em construção, eu e Vicente ficamos algumas horas sentados na ribanceira de um corte, para mim altíssimo, observando lá de cima todo o movimento das máquinas operando. De repente, uma camionete novíssima e muito bonita parou na nossa frente. Vi descer um homem de óculos escuro, roupa bonita, botas longas e um comprido rolo de papel nas mãos. Foi arrodeado de trabalhadores e dava ordens a todos. O Vicente me disse: “Aquele ali é o doutor engenheiro.” E de repente eu lhe confidenciei com muita convicção uma idéia que nasceu naquele momento: “Quando crescer, eu quero ser engenheiro.” Hoje quando passo no local, onde fica o antigo Parque Grill, procuro aquele corte com a barreira que não é tão profunda como me parecia, por aquele menino que um dia sonhou alto e agradeço a Deus pelo sonho realizado. Obrigado, Senhor! Aquela criança sonhadora ainda continua vivendo dentro de mim.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Ser Cristão! – Por Magali e Carlos

Temos ouvido muitas pessoas se declarando católica não praticante. O que é isso? Se não é praticante, então não é católico. Ser católico não é apenas ser batizado, crismado, ter casado na Igreja Católica. Católico é antes de tudo um cristão, isto é: um seguidor do projeto de vida que nos foi deixado por Jesus Cristo. Cristão é aquele que dá continuidade à missão de Jesus, que é a implantação definitiva do Reino de Deus, aqui, agora e em todos os confins do mundo. O Reino de Deus não é como muitos pensam algo para depois da nossa morte. Ele começa agora e continua para sempre, pela eternidade. O Reino de Deus é um projeto sócio-político em que predomina a partilha fraterna dos bens, a justiça e a paz. Parece inviável dentro da estrutura capitalista e materialista da nossa sociedade atual. Mas nós podemos implantá-lo pelo nosso testemunho de vida, libertando-nos do egoísmo, do desejo irreprimível de acumulação exagerada de bens materiais, responsáveis por milhões de vidas que são lançadas na pobreza. Nas “Bem-aventuranças” Jesus declara que “felizes são os pobres, pois deles é o Reino”. Assim, ele nos mostra que a justiça desejada pelo projeto que veio implantar liberta os oprimidos e injustiçados. Então o Reino de Deus é somente para os pobres? Não, ele é para todos, mas principalmente para os pobres. São eles as principais vítimas daqueles que não desejam repartir os bens e privilégios que Deus destinou para todos. Observamos que os pobres sabem repartir fraternalmente o pouco que têm com seus semelhantes. Muitas vezes, já presenciamos pobres agricultores repartirem com seus vizinhos a carne de um porco ou de um cabrito que matam. Eles não acumulam bens materiais. O rico, porém, guardaria o que sobrou de suas refeições na geladeira. Por isso, os primeiros seguidores de Jesus foram os pobres e marginalizados. Foi para resgatar a dignidade dessa gente que Jesus veio ao mundo.
É através do nosso testemunho de vida que será possível sermos “sal da terra e luz do mundo”. O fermento no meio da massa, do qual nos fala Jesus, com muita sabedoria. O verdadeiro cristão é aquele capaz de ceder o próprio corpo à pessoa de Jesus Cristo para que ele viva em nós. É pelos seus discípulos, que hoje somos todos nós, seguidores de Jesus Cristo, que ele continuará sua presença entre nós, trazendo esperança para todos aqueles que precisam de justiça para ter liberdade e vida. O cristão é aquele que vive em oração, isto é em diálogo permanente com Deus, escuta a sua Palavra e a põe em prática. Jesus executou tudo pela prática. Quem assim norteia sua vida pode considerar-se cristão. De nada adiantará dizer-se católico ou de qualquer outra igreja cristã e não viver essa fé.

Por Magali de Figueiredo Esmeraldo e Carlos Eduardo Esmeraldo

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