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Vozes do Além? – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

A professora Alcina acordara de um sonho muito estranho, verificando se o quarto onde dormia estava com o estrago que vira naquele misto de realidade e fantasia. Não sabia se estava dormindo ou em vigília. Como que de repente, um clarão forte iluminara o quarto e, o chão rebentava como se do interior da terra fosse surgir uma árvore. De lá brotava uma criança de aproximadamente cinco anos. Uma linda menina, magrinha, cabecinha raspada e olhinhos castanhos muito vivos, surgira das entranhas da terra. Quase num sussurro lhe fazia um pedido: “Socorra minha mãe. Ela mora na Rua Leandro Bezerra, N°….” Demorou a reconciliar o sono e no dia seguinte a imagem vista em sonho não lhe saia da cabeça. Recém chegada à Juazeiro, a professora Alcina vivia naquele longínquo ano de 1966, um verdadeiro conto de fadas. Casara-se com Wálder, técnico em manutenção de equipamentos elétricos e eletrônicos que trabalhava numa empresa estatal, em Juazeiro. Conforme todos afirmavam, ele era um excelente partido. Bom amigo, bom filho, tinha tudo para ser um bom marido, como de fato o foi. Para ela a felicidade que tanto sonhara, começava a ser delineada naquele ano. E se completara com a sua transferência como professora da rede pública estadual da sua pequenina cidade para Juazeiro. Naquele dia do sonho, Alcina não se conteve e contou-o a uma colega do colégio onde lecionava. Nem sabia sequer se existia em Juazeiro uma rua com o nome de Leandro Bezerra, para ela, apenas um irmão do prefeito. Ouviu da colega a sugestão de irem ao local, tão logo terminasse o expediente daquela manhã. Alcina era uma moça muito querida na sua terra, pois se dedicava ao auxílio dos mais carentes. Encontrou naquele convite uma oportunidade de servir, além de verificar se o que tivera era sonho ou uma visão do além. Ao final do expediente, mais ou menos às onze horas da manhã, as duas mestras seguiram em direção ao Salgadinho, procurando número por número o endereço que a garota do sonho havia fornecido. Até que, após algumas tentativas encontraram o número procurado. A casa estava com portas e janelas fechadas. Ao baterem à porta, esta facilmente se abriu como se estivesse sem trancas. Palmas e gritos não obtiveram respostas. Resolveram corajosamente entrar naquela casa. Após a sala de visita, havia um pequeno corredor e dois quartos. No primeiro, encontraram uma velhinha deitada, semi-inconsciente. Conseguiram uma ambulância no Pronto Socorro e a conduziram para o hospital, onde ela ficou internada sob cuidados médicos. No dia seguinte fizeram uma visita e a encontraram bem melhor. Contaram como havia conseguido localizá-la. Ela disse estar preocupada com o filho paralítico que vivia num quarto vizinho ao seu e estava há muitos dias sem ter quem cuidasse dele. Então retornaram à casa da velhinha para acudir ao filho. Levaram-no para o hospital e os médicos constataram que a paralisia que acometia aquele pobre rapaz poderia ser curada com uma simples intervenção cirúrgica pela equipe de ortopedia. Os esforços de Alcina impressionaram os médicos, que resolveram realizar a cirurgia por puro dever da profissão. Passados alguns dias, mãe e filho restabelecidos, Alcina e a colega foram visitá-los, já em casa. Conversaram bastante, pois já se consideravam velhas amigas. A mulher, viúva há alguns anos, mostrou às duas benfeitoras o álbum de fotografia da família. Na primeira página estava a fotografia da menina do sonho, linda, como Alcina a vira naquela noite em seu quarto. E perguntou à mulher: “Quem é essa garota?” “Era minha filha, faleceu quando tinha cinco anos.” “Pois foi essa a menina que me apareceu em sonho! Só que os cabelos dela estavam raspados.” Completou Alcina. “É que ela faleceu de câncer. Na noite em que me sentia mal, lembrei-me que se ela estivesse viva, estaria me ajudando.” Disse a pobre mãe.
Vozes do além? Não. Com certeza, aquela mãe enferma e Alcina eram dotadas de poderes sensitivos extraordinários, que a parapsicologia explica como sendo a telepatia, um fenômeno de comunicação inconsciente entre duas mentes, mesmo sem nenhum conhecimento prévio entre elas. Enquanto pensava na filhinha morta a lhe ajudar se viva estivesse, a mensagem foi transmitida a alguém que tirasse da situação em que se encontravam ela e o filho. Por sorte o seu pensamento telepático foi captado pela professora Alcina, dotada de elevado espírito de solidariedade e preocupação com o bem-estar das pessoas que sofrem. Assim como o “coração tem razões que a própria razão desconhece”, a nossa mente tem poderes que desconhecemos. E dela nós não sabemos usar nem dez por cento da sua capacidade plena.

Por: Carlos Eduardo Esmeraldo

Sufoco – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Ah, os médicos! Na ânsia de prolongar nossos dias nesta vidinha mais ou menos, criaram um idioma próprio para nos deixar aflitos. É justo que cada categoria profissional tenha seus termos técnicos. Até os pedreiros os têm. Mas a língua dos homens de jaleco branco é russo puro! Ai do pobre mortal que se meter a besta de ler os diagnósticos dos inúmeros exames que eles pedem. É sofrimento na certa! Outro dia, eu fui fazer um exame rotineiro do coração, pois não desejo ser surpreendido por um enfarte. A minha cardiologista, com muita competência, ressalte-se, achou de pedir dois exames esdrúxulos que, apesar de indolores, deixaram meu pescoço e peitoral todo lambuzado de um gel difícil de ser retirado. Haja papel toalha para limpar o estrago. Ao receber o resultado, fui surpreendido pela Magali, que me mostrou os exames e lá estava para um leigo na tradução da língua médica, um terrível diagnóstico: “doença ateromatosa discreta da carótida, turbulência diastólica no ventrículo esquerdo devido à insuficiência aórtica.” Pronto, com tamanha verborréia, eu que imaginava viver até os cem anos, como a minha tia Rosinha Esmeraldo, achei que não botaria nem até a próxima semana. Por isso, apressei-me a levar o resultado à doutora, a fim de ver se era caso de cirurgia ou se haveria algum medicamento que minorasse os efeitos daquelas anomalias. A atendente me disse que ela somente poderia me receber na semana seguinte. Argumentei que os resultados do exame não eram muito bons e em tom dramático disse que não saberia se na próxima segunda-feira, eu ainda estaria vivo. Com esse papo, ela conseguiu que a médica me visse imediatamente. “Nada demais, tudo normal, o senhor está perfeitamente bem. Essas discretas calcificações são próprias da idade. Seria preocupante se fosse num menino de dez anos.” Tranquilizou-me a doutora.

No ano passado, andei sentindo umas tonturas muito fortes. Como fazia uma semana que usava um colírio por recomendação médica, li a bula e lá estava: “possíveis aparecimento de tonturas e cefaléias.” Pronto, o problema é o colírio, pensei. Só falta agora a dor de cabeça! Antes que ela aparecesse, voltei à oftalmologista e pedi que mudasse de colírio, pois vinha tendo muitas tonturas. Ela me deixou bastante preocupado, ao mandar-me ao neurologista, pois com toda a certeza as minhas tonturas não eram do colírio. Puxa! Só faltava essa: um tumor no cérebro! Vali-me do meu amigo Marcos Cunha, que me indicou um otorrinolaringologista. Meu caso era compatível com labirintite, disse-me ele. Este, após uma glicemia em jejum, precedida de uma deliciosa garrafinha de glicose pura, me encaminhou a um endocrinologista, que constatou uma novidade: eu estou “pré-diabético.” Nada de doces. Adeus rapadurinha da Serra Grande, substituta à altura da rapadura do engenho do Pau-Sêco, a melhor do mundo! Ah, coitadinho do doce de buriti do São José, o mais gostoso dos doces! A receita, minha mãe herdara da minha avó e hoje está com a minha prima Elza, que continua a produzir o excelente doce de buriti do São José, para tristeza de todos nós, pobres “pré-diabéticos”. Agora enfrento um regime alimentar totalmente dietético e com muito mato. Até que, recentemente descobri nas prateleiras do supermercado um doce de goiaba dietético. Achei de comprá-lo. Após o almoço, enquanto conversava, experimentei o tal doce. Estava delicioso! Tinha goiaba ao vivo! Sem que me desse conta, comi meio pacote desse doce e, saí para as minhas aulas na UECE. Após as primeiras horas de aula, comecei a sentir uma turbulência no meu ventre baixo. Os gases denunciavam alguma diarréia a caminho. As tripas estavam revoltosas. No intervalo do recreio, fui ao banheiro dos alunos. Mas não tive coragem de encará-los. Estava imundo, mal-cheiroso e sem papel. Acreditei que daria tempo chegar a minha casa, afinal restavam apenas mais cem minutinhos de aula. Que nada! O sufoco ia crescendo a cada instante. Precisava arranjar um meio de me aliviar. Não poderia ser nas calças, ali na frente dos alunos. Então eu me lembrei do novo prédio do Centro de Estudos Sociais Aplicados, onde pela manhã, dou aulas de Cálculo Integral no curso de Administração de Empresas. Era a minha salvação. Ainda houve tempo suficiente para que deixasse um problema de matemática com os alunos, cuja resolução, levaria no mínimo uns vinte minutos. Corri para o novo prédio, cerca de cem metros de onde eu estava. Lá havia banheiros exclusivos para os professores. Estavam muito limpos, mas faltava papel higiênico. Que fazer? Não havia como pedir à secretária, pois esta não se encontrava no seu local de trabalho. Desesperado, fui até a porta do banheiro, quando vi no corredor defronte, o flanelógrafo repleto de avisos. Não tive a menor dúvida: arranquei-os todos, entre eles um cartaz de um curso de mestrado e fui me aliviar. O aviso do mestrado deu o arremate final no polimento do “alívio”. Ao retornar à sala de aula, o problema que seria solucionado em vinte minutos, já estava pronto. Os alunos conversavam animadademente e, ao me virem, um deles, muito gaiato, indagou: “Melhorou do sufoco, professor?” Somente depois desse dia, é que fui informado que doce dietético em excesso provoca desarranjo. Agora estou mais contido no meu desejo irrefreável de saboreá-lo, pois se houver uma recaída, quem sabe se a exigência daquele pequeno órgão a ser limpo, não evoluirá para um curso de doutorado?

Por: Carlos Eduardo Esmeraldo

Um remédio para Jonas: – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Jonas era um jovem adolescente que vivia livre pelas ruas da pequena cidade de Granjeiro. Apesar de ser uma criança hiperativa, pouco incomodava às pessoas, porém os moradores da cidade o julgavam ser um doidinho de nascença. Todos o conheciam e aceitavam aquela maneira dele ser. Diziam até que ele era um doidinho muito bem comportado, porque não mexia com ninguém. E dessa forma, querido por todos, Jonas ia crescendo inocentemente, como uma ave rara. Porém, quando Jonas se tornou adolescente, começou a apresentar alguns problemas de seu comportamento não muito convencional. Não podia ver uma mulher, moça ou menina, que corria atrás dela para agarrá-la. Ninguém podia sair com sua mulher ou filha à rua, pois mesmo que elas estivessem acompanhadas, Jonas passava a perturbá-las. “O Senhor dê um jeito nesse seu doidinho, amarre ele em casa, que não vou agüentar ver ele agarrar a minha mulher e minhas filhas.! Disse “Verdura”, o eletricista da Coelce, a Valdemar, o pai de Jonas. “Homem, leve esse menino ao doutor lá no Juazeiro, que ele passa um remédio para ele se acalmar!” Aconselhava outro com mais prudência.
Conselho dado, conselho tomado. No dia seguinte, lá iam em direção ao Juazeiro, Jonas e o seu pai. Em lá chegando, foram a um famoso médico do Juazeiro que de pronto receitou o menino. “Só tem uma maneira de acalmar este seu filho agressivo. Leve-o para conhecer uma mulher, que ele então se acalmará.” Em lugar de realizar o aviamento daquela receita incomum no Juazeiro mesmo, com sua variedade de motéis e mulheres livres, o pai de Jonas retornou com o filho ao Granjeiro, da mesma forma como fora.
E Jonas voltou à sua vidinha de sempre. Não podia sair de casa, pois imediatamente agredia tudo que era mulher que passasse pela sua frente.
Certo dia, o pai de Jonas estava no Mercado da cidade, quando alguém lhe perguntou pelo filho: “Valdemar, cadê o Jonas, que nunca mais vimos ele por aqui?” “Jonas tá preso em casa. Não pode sair à rua, pois agride as mulheres dos outros e não agüento mais receber reclamações.” Respondeu o pai de Jonas. “Você não levou ele no doutor no Juazeiro? E o que foi que ele passou pro menino tomar?” Quis saber outro comerciante. “O doutor disse que pra Jonas melhorar do juízo tinha que conhecer uma mulher. E aqui no Granjeiro só tem moça virgem e as mulheres casadas são todas sérias. Desse jeito ficou na mesma.” Respondeu conformado o pai de Jonas. “Você não conhece o Assis, aquele que mora na ponta da rua? A mulher do Assis enfeita a cabeça dele. Todo mundo aqui no Granjeiro sabe, inclusive o próprio Assis. Por que é que você não vai lá e conversa com ela?” – Indagou outro amigo que ouvia a conversa, até então sem nada dizer. ”Vá lá pelas quatro horas da tarde, aproveite uma horinha em que o Assis estiver na roça.” Apressou-se a dizer um terceiro. “Vou pensar nesse assunto e criar coragem.” Disse o indeciso pai.
Naquele mesmo dia, mal acabara o almoço, o pai de Jonas, agarrou-o pelo braço e saiu no rumo da casa do Assis, sem se preocupar com o conselho que lhe deram pra ir depois das quatro horas da tarde. Em lá chegando, encontrou o Assis na sala, limpando as unhas com uma peixeira jardinense. Ao vê-lo com Jonas ao seu lado, perguntou com muita curiosidade: “Valdemar, que é que você veio fazer aqui? “Assis, Jonas tá muito agressivo, não pode ver uma muié que corre atrás dela.” Antes que o pai de Jonas completasse o que tinha a dizer, Assis voltou a perguntar: “E daí, que é que nós aqui em casa temos a haver com isso?” E o pai de Jonas nervosamente completou: “Sabe, Assis, eu levei o menino lá no Juazeiro e o doutor disse que pro mode ele ficar bom tem que conhecer uma muié.” E parece que entendendo as intenções do Valdemar, Assis se apressa em lhe dar um conselho definitivo:
– Leve ele pra conhecer a mãe dele, que sendo pra remédio não é pecado não!
Até hoje não soube se Jonas ficou bom da usa hiperatividade.

Condensado de “Histórias que vi, ouvi e contei.” de Carlos Eduardo Esmeraldo, Premius Editora, 2005

Nos Leilões do Padre Onofre – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Esta é uma das muitas histórias que o meu amigo Leofredo Pereira costumava contar. Um dos seus companheiros de infância, nos anos cinqüenta, tinha um estranho apelido: De Bronze. Não cheguei a conhecê-lo, mas de tanto ouvir Leofredo contar suas peripécias, imaginei que De Bronze não poderia ser nenhum santo. Depois de haver aprontado muito no Juazeiro, De Bronze foi trabalhar na construção de Brasília, onde imagino que até hoje esteja radicado. Na época, correu a notícia de que De Bronze havia se transformado num homem, para contentamento geral e alívio de toda a população juazeirense. Dois ou três anos depois da sua ida para Brasília, De Bronze voltou de férias, justamente na época das festas de São Miguel. Na primeira noite do leilão, De Bronze reuniu os amigos, Leofredo entre eles e partiram para uma noitada de diversão na quermesse do padre Onofre. De Bronze trazia os dois bolsos laterais de suas calças completamente cheios. Salientava-se de seu interior algo parecido com dois volumosos maços de cédulas de dinheiro vivo. A toda hora, De Bronze batia sobre os bolsos emitindo um som fofo e dizia: “Hoje nós vamos deitar e rolar. Trabalhei duro em Brasília e vamos gastar, beber e comer como reis. Esta é a minha lei”. De Bronze e os amigos ocuparam umas três mesas que foram ajuntadas no centro da quermesse e começaram a arrematar tudo que era posto em leilão: perfumes, quinquilharias diversas e galinhas fritas. O padre Onofre esfregava as mãos de contentamento e dizia para seus auxiliares: “Atendam bem àquele jovem, ele está muito animado e veio de Brasília com os bolsos cheios de dinheiro!” De Bronze parece que intuíra o estado de espírito do padre e a cada instante voltava a bater sobre os dois pacotes que trazia em seus bolsos laterais, repetindo: “Vamos beber e nos divertir pessoal! Tudo aqui é por minha conta. Vou gastar como um príncipe árabe!” E continuava arrematando tudo que era oferecido no leilão. Depois que eles e os amigos estavam fartos de comida e bebida, passou a oferecer as prendas por ele arrematadas às mesas das autoridades presentes àquela festa. O prefeito, o juiz, a sua primeira professora, juntamente com o marido dela, os vizinhos foram todos contemplados. Não esqueceu nem mesmo do delegado, seu velho conhecido de outras noitadas insones que passara na prisão. A admiração era geral. Todos eram unânimes em afirmar que o jovem voltara realmente muito mudado. Ficara rico em Brasília! Tava aí um novo homem! Exclamavam uns para os outros. Finalmente, tarde da noite, já quase às duas horas da madrugada, todos já haviam se retirado, menos De Bronze e os amigos. Alguns já emborcados sobre as mesas dormiam o sono dos justos embriagados. Outros pensativos, sem ao menos saberem ao certo onde estavam. Finalmente o padre Onofre chegou com a conta e disse: “Meu filho, a festa de hoje foi muito animada, graças a você e a seus amigos. Mas infelizmente chegou ao fim e aqui está a sua continha. Deu três mil e novecentos e cinqüenta cruzeiros, o que para um jovem como você, que voltou endinheirado de Brasília, não representa nada.” De Bronze levantou a cabeça e com os olhos semi-cerrados respondeu: “Padre, pode mandar me prender que eu não tenho um tostão!” E surpreso, o Padre Onofre indagou: “Então o que é isto que você traz nos bolsos?” E o De Bronze prontamente lhe respondeu: “São dois pão doce, para eu comer na cadeia!”

(Condensado do livro: “Histórias que vi, ouvi e contei.”)
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
Ajudem o blog do Crato: Telefonem para ( 088 ) – 3523-2272. e adquiram o livro “Histórias que vi, ouvi e contei.”

Amor Virtual – Por João Marni de Figueiredo

De tanto ouvir sobre tragédias nos noticiários, fruto de encontros ora do acaso, ora de forma premeditada, envolvendo pessoas inocentes e bandidos, refleti que isso sempre ocorreu, sabe-se lá desde quando; hoje certamente em maior escala e riscos.
A tecnologia vem contribuindo, seja pelo telefone celular ou pelo computador, para esses contatos entre pessoas, muitas vezes envolvendo crianças, e também casais virtuais, sem que os personagens troquem olhares ou sintam o perfume do outro, – dirá o ferormônio, deixando de lado a visão de um certo jeito de andar… Ai veio-me a lembrança de tempos não tão distantes, da prática interiorana na busca pela cara-metade reservada nos altares de Deus, dos sonhos de cada um. Os encontros aconteciam também em qualquer lugar mas, muito freqüentemente, nas praças. A Siqueira campos, aos domingos à noite, era o grande palco onde as garotas passeavam num rito austero e delicado, nunca sozinhas, mas em pequenos grupos, de braços, limpas e cheirosas, em seus vestidos bonitos e pouco insinuantes, repetidos com choro e não menos espetaculares. Desfilavam contornando a praça para uma platéia de marmanjos que ficava à margem, aparentemente alheias a eles em seus segredos. Vez ou outra os olhares se cruzavam furtivamente, deixando alguma dúvida que só seria revelada no giro seguinte.
Confirmado pelo olho no olho, o coração dispara e as pernas – pelo menos as minhas, fraquejavam diante da próxima etapa do passeio, quando lá vem a todo-poderosa, e o homem deixa de ser menino, dirigindo-se à pretendida sem medo de uma “rabissaca”, ou de um “corte”, roubando-a de seu grupo e convidando-a a sentar-se em um dos bancos, no centro daquele carrossel de ilusões, de encanto, de paixões e de decepções… Ainda ouço os risos e os incentivos dos amigos que continuavam a tentar a sorte…
Dali, relações afetuosas se formavam e vingavam, como foram as do meu pai e da minha mãe, e de muitos outros que, como eu, são românticos e nostálgicos e só acreditamos, a exemplo de São Tomé, após termos visto,tocando e cheirado! Talvez a única vantagem de agora é que os pais não precisam mais entrar em casa na ponta dos pés a fim de surpreenderem o namoro dos filhos ou dos netos, pois através da telinha do computador não se escutam as juras de amor, mas apenas o barulho discreto do teclado tocado por mãos que não afagam, transmitindo mensagens ditas por bocas mudas que não beijam, olhos que não vêem e corações que apenas batem mas provavelmente não sentem. Seus aposentos trancados têm um cheiro azedo de suor, chulé e mofo, por proibirem o sol de lá entrar e iluminar-lhes as mentes modernas. À noite, semanalmente, sedentos iguais NOSFERATUS, encontram-se em baladas, num ritual de ficar por alguns instantes, revezando-se num pescoço marmóreo e exaurido, e retornam sem paixão, sem afeto e sem norte.
Tantas modas voltam, mas, infelizmente, tenho a impressão que as praças não têm mais pistas apropriadas para o flerte (expressão caduca e estranha), mas para corridas ou caminhadas cronometradas , silenciosas, individualizadas, daqueles que visam melhorar a condição física pelo culto ao corpo, a despeito de haver ali alguém solitário que ainda hoje arrisca um olhar a partir do circulo externo… Ou será que a vida é que está sempre indo e nós é que, de fato, ficamos?
Crato, CE, 10/12/08.
Por João Marni de Figueiredo.

Distrações: Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Distrações? Quem não as tem? Quem, como eu, não guardou a chave do carro naquele bolsinho da frente da calça e antes de sair à rua, procurou desesperadamente pela chave em todos os cantos possíveis da casa, revirando tudo que antes estava em perfeita ordem? Quem não estacionou o carro e deixou a chave na ignição, trancando por fora todas as portas? Confesso que isso aconteceu comigo e o que é ainda pior, com o carro funcionando. Alguém já telefonou para falar com o chefe e disse que gostaria de falar com um sujeito que tinha o seu próprio nome? Pois eu liguei para o meu chefe em Fortaleza, superintendente da Coelce, e disse que gostaria de falar com o Carlos Eduardo Esmeraldo. A secretária que não reconheceu minha voz disse: “O Carlos Eduardo Esmeraldo trabalha no Juazeiro.” “Ah, é? Pois eu sou o Carlos Eduardo Esmeraldo.” Distraído, pretendia dizer de imediato que era eu quem estava falando e as preocupações do dia-a-dia me traíram. Pior ainda foi quando cheguei a minha casa e não vendo o carro na garagem, perguntei: “O Carlos saiu?” E alguém já indagou à secretária qual o telefone de sua própria casa? Pois eu já fiz tudo isso! Velhice? Vá lá que seja, mas quando essas coisas me aconteceram, eu tinha menos de 45 anos. Mas os jovens também têm suas distrações. Um dos meus filhos procurava desesperadamente pela sua toalha de banho que deixara no varal, quando sua mãe observou que ele estava enrolado na própria toalha, como se ela fosse um saiote. Outro dia, um rapazinho meu parente viajava de carro, quando um dos pneus furou. Ao trocar o pneu que estava todo rasgado, distraído, jogou fora a carcaça do pneu substituído com o aro da roda e tudo. Uma distração que lhe custou no mínimo uns cento e cinqüenta reais. Certa vez, sai ao centro da cidade para visitar as livrarias. Ao retornar, cumprimentei Magali que preparava o almoço e disse a ela que já estava em casa e podia servir o almoço. Enquanto aguardava, deitei-me numa rede para ler um dos livros que havia trazido. Meu filho mais novo chegou do colégio, foi até o quarto, tendo perguntado o que eu estava lendo. Depois voltou à cozinha e sua mãe lhe disse. “Seu pai ainda não chegou para que eu bote o almoço na mesa”. “E quem é aquele homem que está lendo lá no quarto?” Perguntou o meu filho.
Gente importante também tem suas distrações. Lembro-me que nos anos oitenta, o jantar do Rotary Clube do Crato era servido pelas senhoras dos rotarianos. Uma delas, que carregava uma pesada travessa de arroz, sentiu que de repente a travessa perdera o peso, como por encanto. Depois de servir a certo senhor de idade, foi que ela notou que havia descansado a bandeja sobre a cabeça dele.
Mas distraído mesmo é um dentista que conheci em Belém. Certa vez ele convidou um amigo para jantar em sua casa. Assim que o amigo chegou, desejando-lhe comunicar que o jantar estava servido, disse para o visitante: “Abra a boca.” Era assim que ele passava o dia falando aos seus clientes. Hoje, aposentado, este dentista mora aqui em Fortaleza. Logo que surgiram os primeiros telefones celulares, daqueles bichos gigantes da Motorola que eram guardados num suporte preso ao cinto das calças, ele foi um dos primeiros a aderir à novidade. Sua filha lhe telefonou e depois de alguns minutos de conversa, a mão desse amigo tocou no suporte do celular e ao senti-lo vazio, disse para a filha: “Minha filha, vou desligar. Aconteceu um problema muito sério, roubaram meu celular!” “Calma papai, o senhor está telefonando de onde?” Perguntou-lhe a filha. “É do celular!” Constatou assim a distração. Esse amigo dentista tem um filho que casou com uma portuguesa e foi morar em Lisboa. Ele resolveu visitá-lo e comprou passagem num vôo da TAP que saia de Fortaleza. Ao receber a passagem, foi informado que iria num novo Boeing da empresa, adquirido no Canadá e que faria o primeiro vôo. O meu amigo preparou-se com muito esmero para essa viagem. Comprou um terno no Domênico e embarcou todo arrumado. Em dado momento do vôo, sentiu vontade de ir ao banheiro. Ao abrir a porta, viu que havia dentro do toalete um distinto senhor. Pediu-lhe desculpas, logo fechando a porta e aguardando que o ocupante do banheiro saísse. Esperou cerca de uns quinze minutos e foi reclamar à comissária: “Moça, não tem outro banheiro? O sujeito que está ai, faz mais de meia hora e não sai.” A comissária abriu a porta do banheiro e disse: “Não há ninguém aqui!” Foi então que meu amigo notou sua elegante imagem refletida no espelho.
Mas distraída mesmo era uma tia afim, já falecida, viúva de um irmão do meu pai. Certo dia, ela estava na porta da sua casa, quando passaram duas mulheres com fama de sapatão. Toinha, uma pessoa que fazia seus serviços domésticos lhe confidenciou: “Madrinha, o povo diz que aquelas duas ali fazem sabão.” “Ò Toinha, pergunta por quanto elas fazem a barra?”
É isso aí! Ninguém está livre de distrações. Aquele que não foi ainda vítima de uma, que atire a primeira pedra. A nós distraídos, só nos resta cantar em forma de oração o refrão de uma música muito bonita: “O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído. O acaso vai me proteger, enquanto eu andar…”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Por que Rua Coronel Teófilo Siqueira? – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Aos oito anos de idade, eu passei a residir numa rua de calçamento novo, construído com muito esmero em pedras de paralelepípedos rejuntadas com uma argamassa gorda de cimento e areia, recoberta com uma espessa camada da mesma argamassa. O calçamento, bem trabalhado, dava a todos a impressão de ladrilhos de concreto. A rua resumia-se apenas a um quarteirão no prolongamento da Rua das Laranjeiras, como se chamava antes a Rua José Carvalho. Mas naquele trecho situado a partir de onde hoje se localiza o final da Rua Pedro II ou Beco dos Calangos, a rua em que eu morava recebia o nome de Rua Coronel Teófilo Siqueira. Por que esse nome tão esquisito para uma rua? Eu não sabia quem teria sido esse tal Teófilo Siqueira e acredito que a maioria dos moradores daquela rua também não sabia. O meu pai me disse que Teófilo Siqueira era um farmacêutico antigo do Crato. Somente depois de adulto é que fiquei sabendo que seu Teófilo era um autêntico humorista que viveu no Crato no final do século XIX e metade do século passado. Aos poucos fui tomando conhecimento das muitas anedotas por ele protagonizadas. Segundo Lindemberg de Aquino, seu Teófilo nasceu em Palmares – Pernambuco e passou a residir no Crato aos quatro anos de idade, ai pelos idos de 1873, quando seu pai fora nomeado juiz da nossa cidade. Aqui ele cresceu, estudou e estabeleceu-se como farmacêutico licenciado. A extraordinária memória do professor José Alves de Figueiredo Filho, posta à prova em seu excelente livro “Meu mundo é uma Farmácia” nos deu a conhecer muito da personalidade do seu colega de profissão. Com muito entusiasmo e uma profunda admiração, Figueiredo Filho revela que o Coronel Teófilo foi um homem dedicado ao trabalho e com elevada preocupação com os mais humildes, a quem tratava com muita consideração, sem nada lhes cobrar. Daí ser merecedor da homenagem que os cratenses lhe dedicaram, com o nome em uma rua. Mas seu Teófilo era também um humorista de alta qualidade, contador de anedotas e a quem muitos simulavam alguns casos encenados pela sua inteligência impar. Além de farmacêutico, Teófilo Siqueira era profundo conhecedor do código civil e por isso, exercia também a profissão de advogado provisionado. Certa vez foi advogar num júri na cidade de Quixará, hoje Farias Brito. A viagem naqueles anos era algo imaginável nos dias atuais. Durava um dia inteiro em lombo de cavalo. Em Quixará, Teófilo foi acolhido pelo chefe político local, o Coronel Pimentel que lhe hospedou em sua casa. Na noite da chegada, o jantar servido tinha galinha e uma deliciosa paçoca. Seu Teófilo fartou-se daquela iguaria e passou a elogiar a cozinheira: “Se o presidente da República souber de uma comida dessas, manda buscar a senhora para cozinhar pra ele no Rio de Janeiro”. Com esse elogio, a mesa do visitante nos dias que se seguiram foi a mais caprichada possível, não faltando a deliciosa paçoca. Encerrada a temporada de júri que durou uma semana, o Coronel Teófilo partiu cedinho para o Crato, em seu cavalo. Ao meio-dia estava em Dom Quintino, indo almoçar na casa do chefe político local. Ao bater à porta deste, disse: “Me acuda Coronel Raimundo Chicô, que estou morrendo de fome. Passei uma semana na casa do Coronel Pimentel lá no Quixará, só comendo paçoca. Estou com paçoca saindo até pelos ouvidos.” O dono da casa prontamente mandou matar um capão gordo e depois do almoço, oferceu-lhe rede limpa para o descanso, enquanto o sol declinava um pouco. Continuou sua viagem lá pelas duas e meia da tarde, chegando ao Crato já à noite. Dois ou três dias depois, recebeu a visita de um jovem furioso, armado até os dentes. Era o filho do Coronel Pimentel do Quixará, que veio cobrar satisfação pelo que dissera do tratamento recebido na sua casa, quando de passagem por Dom Quintino. “Como é que o senhor disse umas inverdades dessas? Foi muito bem acolhido na nossa casa e é assim que paga o tratamento que teve?” “Calma rapaz!” Respondeu-lhe seu Teófilo. “Você acha que se eu não tivesse inventado uma mentirinha daquelas, o Raimundo Chicô, miserável como ele é, iria me dar um prato de comida?” Essa extraordinária presença de espírito do seu Teófilo, salvou-o do aperto e o filho do Coronel Pimentel soltou uma sonora gargalhada. Deste dia em diante, os dois ficaram muito amigos.
Segundo o primo Huberto Cabral me assegurou, numa segunda-feira, uma senhora da zona rural levou a filha ao Doutor Teófilo. “Doutor, essa menina está muito indisposta, todo bocado que põe na boca, depressa ela bota pra fora. Queria que o senhor tratasse dela.” Seu Teófilo olhou rapidamente para moça e tascou o diagnóstico: “Minha senhora, sua filha está grávida.” “Num pode ser, seu doutor, ela é moça de famia.” E saiu furiosa, descompondo o nosso farmacêutico. Na segunda-feira seguinte, a aflita mãe voltou ao doutor Teófilo: “Doutor, é verdade, ela confessou o que fez com o namorado, mas disse que foi por riba do lençol. Será que num tem um jeito?” “O único jeito que tem é que a senhora vai ter um neto coado!”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Cotovia, o louco – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Ouvi esta história há muitos anos, não me lembro contada por quem, acho que quando ainda eu era criança. Provavelmente ela é uma das muitas lendas que se criou em torno do nome do extraordinário rábula cearense Quintino Cunha. Por volta da década de 1930, havia em Belém do Pará um louco conhecido por toda população pela alcunha de Cotovia. A meninada logo descobriu que ele não gostava do apelido e de manhã até a noite gritava pelo nome Cotovia por onde quer que esse louco passasse. E ele reagia atirando o que encontrasse pelas ruas: paus, pedras, restos de materiais de construções e até as mangas caídas dos mangueirais que arborizam as ruas da cidade. A insistência da meninada em gritar pelo apelido Cotovia era proporcional à reação do louco. E havia uma correspondência entre a intensidade dos gritos das crianças com mais pedradas e outros objetos atirados contra a turba de crianças e adolescentes. Até que num triste dia, uma banda de tijolo atingiu em cheio a cabeça de um menino na Praça da República. A criança teve morte instantânea e a policia prendeu o pobre Cotovia em flagrante. Naquela época, louco que cometesse um crime era julgado, condenado e preso junto com outros sentenciados, sem essa história de ir para manicômio. E o crime de Cotovia revoltou a cidade, pois a criança por ele assassinada era filha de um influente figurão. Tão logo terminado o processo, foi marcado o dia do julgamento de Cotovia. Nenhum advogado quis assumir a defesa do pobre louco. Quintino Cunha, que se encontrava em Belém a passeio, soube da notícia pelos jornais e foi se oferecer na véspera do julgamento para a defesa do louco Cotovia. Na hora em que foi pronunciar a defesa, Quintino Cunha limitou-se a saudar o juiz: “Excelentíssimo, digníssimo, honradíssimo e meritíssimo juiz de direito dessa comarca; senhores jurados.” E repetiu com muita insistência essa saudação: “Excelentíssimo, digníssimo, honradíssimo e meritíssimo juiz de direito dessa comarca; senhores jurados.” Quando já declinava a terceira ou quarta repetição da saudação, o juiz perdeu a paciência e bateu violentamente a campainha, dando murros na sua mesa e gritando para o representante da defesa: “Chega, deixe dessa brincadeira estúpida!” A essa reação do juiz, Quintino Cunha virou-se para os jurados e disse: “Senhores jurados, observem que um juiz, homem digno e culto, cujo alto equilíbrio emocional não é posto em dúvida por nenhum dos que aqui se encontram, teve essa reação descontrolada ao ser elogiado com insistência. E notem que foram somente elogios! Agora imaginem os senhores, esse pobre homem, louco, sem família, sem ter sequer um lugar onde recostar a cabeça, sem ninguém ao seu lado, ser perseguido de manhã à noite por um grupo de moleques, que parecem seres sem pai e mãe, a gritar nos seus ouvidos o horrível apelido de Cotovia, todos os santos dias, durante anos a fio? Pensem nisso, senhores jurados”. Conta-se que ao final daquele julgamento, o Cotovia foi absolvido por sete votos a zero.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Carta a José Nilton Mariano Saraiva – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Prezado José Nilton Mariano

Veja como nós somos: há alguns dias me posicionei contra as idéias do meu ex-colega do velho Colégio Diocesano e ainda hoje meu amigo Armando Rafael, quando ele criticava o desempenho do Governo Lula e toda carga de rejeição que ele tem aos partidos não alinhados com as idéias dele. Naquela ocasião tive a honra de ser secundado por você. E agora, nas questões levantadas pelo amigo com referência aos artigos publicados com transcrição de textos de Frei Leonardo Boff formulando denúncias contra papas e bispos da igreja católica, me ponho ao lado do Armando, pois não pude acompanhar o séquito daqueles que aplaudiram um tema que realmente leva às grandes discussões, sem nenhuma conclusão, posto que atinge questões de fé, assunto de foro íntimo de cada um. Foi por isso que no comentário que eu fiz em apóio ao diácono Policarpo, a quem não conheço, que escrevi: “o silêncio contra essas palavras ocas deve ser a melhor resposta.” E não foi, portanto nenhuma tentativa de desqualificar as palavras de Frei Leonardo Boff postadas por você. Quis dizer com isso que não tinha a intenção de participar do debate, mesmo porque a legião dos que nesse blog o aplaudiam era incomensurável. Quem se der ao trabalho de pesquisar os artigos do Blog do Crato desta semana de 26 a 31 de janeiro, verificará que foram escritos dez artigos, que no meu entender formam uma tentativa de desqualificar a Igreja Católica, isto somente no corpo principal do Blog, afora os inúmeros comentários que cada um dos textos continha. É preciso entender que a Igreja Católica não é um prédio, nem altares ou riquezas, nem somente papas, bispos, padres e diáconos, mas Igreja somos todos nós, povo de Deus que tem como finalidade continuar a missão de Jesus Cristo na construção do Reino de Deus, que é de Justiça, Paz e Amor, aqui e agora. Ser “cristão é tornar-se um perigo” já dizia uma música da Irmã Cecília Vaz muito cantada há uns dez anos nas igrejas. Isto porque não basta ser batizado, crismado ou ir às missas para se dizer cristão, mas ceder o próprio corpo à pessoa de Jesus Cristo para que ele possa dar prosseguimento à sua missão. E isso é quase uma utopia, pois poucos são os que conhecendo a Palavra de Deus se dispõem a tal. É muito difícil oferecer a outra face, desfazer-se de todos os nossos bens em benefícios dos pobres e perdoar setenta vezes sete, isto é: sempre. Conseguimos fazer, quando muito, apenas poucas tentativas daquilo que Cristo nos ensinou.
Muito se tem escrito aqui, que o blog é democrático, que se “deve debater saudavelmente e em nível elevado”, mas percebemos que isto somente se verifica quando as opiniões são todas convergentes. Qualquer opinião contrária é imediatamente taxada de “desqualificação”, como o amigo citou.
Finalizando, faço meu registro de que as revelações declaradas pelo ex-franciscano Leonardo Boff não são para nós católicos motivos de aplausos ou aprovação. E a nossa fé não será abalada por isso.
As idéias de cada um de nós não são todas da mesma forma. Assim como discordamos em alguns pontos, há muitos outros em que concordamos o que não nos impedirá de sermos amigos, assim como o meu saudoso pai foi amigo do seu.
Meu fraternal abraço.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

O Encontro *- Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Em uma fria madrugada, seu Lunga voltava de uma viagem à cidade pernambucana de Exu, quando um dos pneus da sua velha rural furou, justamente nas proximidades da casa de Raimundo. Como havia alguns catadores de pequi nas proximidades, logo chegou um deles para oferecer seus préstimos a seu Lunga.
– O Senhor está no prego? – Indagou o catador de pequi.
– Eu não. Não está vendo que é o carro, seu besta?
– Mas eu posso ajudar ao senhor a trocar o pneu, bem ligeirinho. – Insistiu o serrano.
– Como, se eu não trago um macaco? Vai bem querer levantar a rural nas costas?– Interrompeu seu Lunga bruscamente.
– Bem ali é a casa de seu Raimundo Oliveira. Ele deve ter um macaco, pois tem um carro igual ao seu. Se o senhor tiver sorte, pode ser que ele lhe empreste. – Disse o humilde catador de pequi, na esperança de uma boa gorjeta.
– Então eu vou lá acordá-lo, pra a gente resolver logo este problema.
– O senhor tenha cuidado, pois seu Raimundo é muito grosso.
Sem dar importância ao conselho, seu Lunga saiu pelo caminho, conversando sozinho. Dizia consigo mesmo: vou bater na porta dele, ele vai perguntar quem é, ele é grosso, conforme o rapaz disse e eu não gosto de quem é grosso, pois sou mais grosso ainda; digo logo quem eu sou e que desejo pedir um macaco emprestado. Ele vai me negar e eu vou mandá-lo para os quintos dos infernos. Seu Lunga interrompeu bruscamente o seu monólogo interior, pois já estava defronte da janela do quarto onde dormia Raimundo Oliveira. Deu quatro ou cinco batidas forte na janela, aliás verdadeiros murros, quando uma voz tonitruante ecoou lá de dentro:
– Quem diabo está morrendo ai fora?
– Sou eu, Lunga do Juazeiro. Quer saber de uma coisa, seu filho de uma mãe. Pegue o seu macaco e soque, que eu não preciso mais dele não. – Encerrou seu Lunga aquele amistoso diálogo.
*Extraído de “Histórias que vi, ouvi e contei” à disposição dos amigos do Blog do Crato, com o Dihelson Mendonça. blogdocrato@hotmail.com ou pelo telefone: 088-3523-2272 deixe recado na secretária com nome e seu número de telefone.)
Por: Carlos Eduardo Esmeraldo

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