Por Carlos Rafael Dias
O nº 5 da revista Tendência – Caderno de Ciências Sociais, publicação do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Regional do Cariri (URCA), lançada em setembro de 2007,- traz um interessante artigo de autoria da professora Cleide Correia de Oliveira(1), sob o título “A Loucura em Liberdade: Vivência e Convivência”(2). A partir da identificação de personagens considerados diferentes, ou “loucos”, que circulavam livremente nos espaços públicos da cidade do Crato, no período de 1930 a 1970, o artigo é um estudo sócio-histórico ancorado no método da história oral. No artigo, “a loucura narrada no cenário de Crato indica a existência de uma multiplicidade que revela a complexidade, a diversidade transcendendo o paradigma psiquiátrico tradicional, cujo princípio fundamental é a idéia de que o louco deve ser isolado da sociedade”. Este paradigma se apóia na idéia de que a intervenção médica para o tratamento da loucura deve prescrever necessariamente o isolamento do doente em casas especializadas – os temidos hospitais psiquiátricos. Somente por este aspecto, o artigo já teria o seu inegável valor como literatura médica. No entanto, para quem viveu em Crato no espaço cronológico escolhido pela autora como recorte de tempo , o artigo vale, e muito, pelo resgate de uma série de personagens que, pela singeleza de suas vidas, nunca interessaram à história oficial, mas que permanecem preservadas indelevelmente no imaginário de toda uma geração. O período abordado foi escolhido por abrigar dois marcos na história da saúde do Crato: a fundação da primeira instituição hospitalar na região do Cariri, o Hospital São Francisco de Assis, em 1936 (quando a sociedade local ainda convivia com a loucura em liberdade), e da criação do Hospital Psiquiátrico “Casa de Saúde Santa Tereza”, em 1970 (quando a loucura foi aprisionada).
Com a coleta de depoimentos de pessoas que conheceram os ditos personagens considerados diferentes, o artigo resgata a história de vida de nove loucos, verdadeiros tipos populares que marcaram época em Crato: Maria Caboré, Pernambucana, Tandôr, Compadre Chico, Dona Joaquina, Baixeirinha, Moipen, Pedro Cabeção e Antonio Corninho. Os relatos, com suporte de fontes secundárias, enfatizaram as características, as vivências e convivências desses personagens e revelaram situações tanto trágicas quanto cômicas. Esses “estranhos” personagens viviam em casas velhas, em ruínas e praças públicas, apresentando comportamentos que fugiam das normas sociais e dos mecanismos institucionais de controle.
SONHOS, MANIAS, DRAMAS E PAIXÕES
Entre esses personagens, alguns chegaram a transcender suas vidas de excentricidade e sofrimento, como foi o caso de Maria Caboré, “uma morena com estatura mediana, que gostava de usar pulseiras, bijuterias e colar doados pelos moradores da cidade. (…) Tinha um desejo muito forte de contrair núpcias com o “Rei de Congo”. As crianças da época conheciam esse desejo e exigiam que ela deglutisse objetos, como bola de gude, frutas pequenas e outros, em troca do casamento. Sendo assim, essa personagem fazia um grande esforço para engolir tais objetos, para casar-se com o referido Rei, fruto da sua imaginação.” Depois de morta, vitimada pela peste bubônica, na década de 1930, Maria Caboré passou a ser venerada como dispensatária de milagres. Até hoje, o seu túmulo, no dia de finados, é visitado por grande número de pessoas, que deposita flores e velas em retribuição às graças alcançadas.
Compadre Chico é outro personagem que merece destaque, pela sua fixa crença de que o regime monárquico seria restaurado no país e pela sua mania de planejar como este fato se daria. Com o seu imaginário subalterno, a quem chamava de Frutuoso, “planejava batalhas, nomeava comandantes, designava o local em que as tropas deviam postar-se para o ataque e, às vezes, marcava a data em que o Crato seria saqueado (…) em prol do retorno do imperador.”
O drama, não como uma ficção artística, mas como uma realidade cotidiana, sempre foi uma constante na vida desses personagens, como aquele vivenciado por Dona Joaquina, que viveu no Crato entre as década de 1940 e 1950. Trabalhava, junto com a filha, como doméstica, mas um dia abandonou a família e foi morar na Praça da Sé, sob um oitizeiro. Diariamente, sua filha deixava-lhe comida e um dia foi buscá-la quando o mal que a vitimou lhe acometeu.
Nas décadas de 1950 e 1960, um homem de estatura alta e de aspecto moribundo vagava pelas ruas da cidade, de porta em porta, com um prato de flandre já gasto, girando em um dedo da mão direita enquanto repetia, com voz diferente, uma locução: Moi… Moi… Moi… Moipen… Moipen… Moipen. Por isso, todos o conheciam por Moipen, sabendo, devido a sua inclinação religiosa, que a estranha palavra era uma corruptela que significava “uma esmola para Nossa Senhora da Penha”.
Para finalizar, não poderia deixar de citar outros dois personagens enfocados no artigo, responsáveis por situações de rara comicidade: Pedro Cabeção e Antonio Corninho.
Pedro Cabeção, assim conhecido devido a avantajada cabeça, ainda mais desproporcional devido ao seu corpo miúdo, tinha dois sonhos, que só veio a realizar depois de passar a perceber uma renda fixa por conta da aposentadoria: conhecer a estátua do Padre Cícero, na vizinha cidade Juazeiro do Norte, e adquirir um aparelho de rádio. Pedro vivia com uma tia que ao chegar em casa viu-lhe quebrando o rádio com uma pedra. Indagado por que fazia aquilo, Pedro respondeu que era por causa do rádio, que não parava de lhe aperrear, perguntando o tempo todo: você viu o cabeção por aí? Na verdade, ele se referia a um refrão de uma canção muito tocada pelas emissoras de rádio no início da década de 1970(3).
Já Antonio Corninho, que tinha ponto fixo na Rua da Vala (hoje rua Tristão Gonçalves), ficava bravo quando lhe tratavam pelo depreciativo sobrenome. Incontinenti, retrucava: “melhor ser corno do que ser prefeito. Prefeito é só quatro anos e corno é pra vida toda”. Não se sabe, porém, se a alcunha foi por conta de algum trauma sentimental, devido a uma infidelidade que lhe foi atribuída. Mas, os relatos sobre ele atestam a existência de um caso amoroso que ele manteve com uma louca a quem apelidavam de Macaúba, “a qual sempre aparecia grávida. Os dois viviam em eterna lua-de-mel, na rua Tristão Gonçalves, nos batentes do prédio onde funcionava o escritório da VASP, causando transtornos aos transeuntes.”