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Chuva – Por: Claude Bloc

…….. A chuva de hoje proporcionou-me um curioso diálogo com o tempo. Lembrei-me da Rua Irineu Pinheiro nos muitos invernos que atravessei no Crato. Manhãs caudalosas. A rua inundada de uma ponta a outra, até as calçadas, causando transtorno aos incautos estudantes matutinos. Nem as famigeradas galochas eram suficientes para conter a “fúria” das águas que desciam levando as pedras rua abaixo. Nem os sapatos “colegiais” impediam a alegria dos meninos que saiam em revoada de suas casas para a escola. Risos, risadas, gente encharcada, lama, choro… e muitas vezes o retorno de um ou outro, vítima da “guerra fria” da água barrenta…
…….. Difícil esquecer também os dias infindáveis de brincadeiras pelas ruas, onde, depois da chuva, filetes de água, refletindo o céu nublado, acompanhavam o meio-fio, dobrando na esquina, em busca do Rio das Piabas…
…….. A chuva apascentava os ânimos. As brincadeiras eram infinitamente alegres e provocavam a criatividade. Diques e açudes assoreavam as ruas e invadiam a passagem dos carros. Eu era mera personagem dessa história de chuvas? Descia pela rua pisoteando a água, remexendo os sonhos de algum príncipe escondido n’algum “castelo”. Menino que simplesmente me assistia passivamente passeando pela chuva, chacoalhando a água com os pés, espargindo sonhos por aí…
…….. Foi assim, nesse diálogo com a chuva que comecei a escrever. Tentava nas palavras encontrar o cheiro da terra e os sons das águas lavando e levando as pedras do calçamento. A verdade era para mim como essa chuva. Procurava me encontrar em meio a esse rio de palavras todas que escorriam pela rua desfarelando os sonhos pela enxurrada. A chuva naquele tempo era também a expressão dissimulada do meu pensamento. Eu, mera criança, apreendia o mundo como se eu fora extraterrestre. Tinha dificuldade de escrever. As águas lavavam-me as idéias. Meus textos eram híbridos e insípidos…
…….. Hoje, porém, a chuva e eu podemos andar de mãos dadas…

Por Claude Bloc

Entre a noite e o dia – Por Claude Bloc

….Gosto dessa eterna alternância entre a noite e o dia, entre a claridade e a escuridão. Gosto desse balanço, por entre pêndulos, desses pequenos rasgos de luz que cortam os céus à noite, gosto dessas poções de luz que (i)lustram meu ser durante o dia. E nesta guerra permanente, entre a luz e a sua ausência, deixo-me ficar inerte, nessa hora, no instante exato em que os nossos mundos se roçam pelo espaço. Mesmo que depois, partamos em direções opostas, rumo à claridade, fechados na saudade.
….Gosto do eco da noite e da voz do dia. Gosto do silêncio que tocou a minha alma, para sempre.
….Gosto de pensar e escrever à noite Alimento-me da quietude, me apraz! 
….Gosto da noite que explode como catarse, liberadora de todas as paixões, de todos os excessos reprimidos durante o dia. Gosto de ouvir meus próprios passos durante a madrugada, quando, em silêncio, pareço apenas querer testemunhar a solidão das esquinas e das calçadas. 
….Gosto de viver a força das marés noturnas e de banhar-me nessas ondas. Gosto da noite quando irrompem as primeiras claridades do dia.
….E é assim que chega o dia e me povoa a casa e me invade o quarto, dividindo espaço no mundo da vigília.
Por: Claude Bloc

Reflexos – Por Claude Bloc

…… Cabelos ao vento saltam na testa, em cascata. Sorriso esboçado, mas eloqüente. Traços finos de lábios cor de jaspe. A pintura é natural como na tela ou no espelho… A tarde nublada dissimula a idade, esconde os vestígios da transição do tempo… O reflexo no espelho é (in)finito. Mostra tudo e mais nada dessa visão insubordinada do que de fato sou. Há sempre mais de mim. Ou menos, não sei bem.
…… Apago a expressão canhestra e desafiadora que me faz mergulhar na liquidez do meu ser. Preciso então molhar meu rosto, deixar o sonho escorrer, dar vida a essa vida dentro de mim. Fechar as pálpebras e deixar-me ir além das tinturas fisionômicas, nessa captura de mim mesma, transformada refletida.
…… Enxergo o que fui ontem, o que hoje sou. Passagens achatadas pelo tempo. Vejo-me menina e/ou mulher. Afoita ou intensa. Insegura nas mais vezes. E assim prossigo desenhando nessa tela os retratos de minh’alma misturados ao mais íntimo de mim. Como uma impressão digital que marca a história com todos os meus reflexos…
…… Espelho-me nesse enigma que é a vida e em seus estilhaços percebo o olhar penetrante que me observa. E me vejo finita, findável nessa imagem congelada. Sou, então, o reflexo abstrato, o rascunho concreto no lume do espelho onde me encontro, no olhar refletido na memória… Enquanto cada instante é ( in)finito.
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Por Claude Bloc

Pontos-de-cruz – Por Claude Bloc

….Volta do trabalho cansada. Depois de refrescar-se, senta-se vagarosamente na cadeira da varanda tentando compor uma imagem com aqueles pontos-de-cruz. Não repara na hora, apenas deixa-se ficar ali por um bom tempo.
….Aos poucos o céu vai mudando de tonalidade. O sol já se avizinha do horizonte e, cada vez mais tímido, avermelha-se no seu ponto de encontro com a linha da serra. É um momento de paz. De um solitário mergulho nessas empoeiradas frestas do tempo.
….A essa hora o silêncio parece abrir as portas. A luz, então se evanesce nesse lapso entre o tempo e o espaço… A vida parece, então, parar por alguns segundos e sorrateiramente se esconder, nesse momento, por trás de pálpebras que se fecham, reflexivamente sobre a alma.
….É ali, naquele instante, que surgem as lembranças para além da ilusão. Memórias que captam o real como um filme, escrevendo nas linhas da vida uma pequena e inusitada história. Detalhes se tornam mais nítidos e vão se definindo. Um momento efêmero que fica para sempre.
….Num gesto quase involuntário, ela toca seu rosto tentando encontrar nele as evidências do tempo, apalpando os vincos ali marcados… Estranhamente a pele está mais aveludada e firme… ….O ambiente de paredes esverdeadas mais se assemelha ao de seu quarto de adolescente. Teria então 15 anos?
….Ouve na sala algumas vozes, risadas, gracejos. A mãe, com sua voz grave de fumante, anuncia placidamente a alegre acolhida aos rapazes que chegam.
….Ainda no quarto, estende-se na cama com displicência, tentando ler aquele livro interminável: “Don Casmurro” tornara-se enfadonho àquela altura. Era afeita à leitura, mas uma grande inquietação não lhe permite a concentração necessária para compreender o sentido da história naquele ponto. Queria ir lá fora, tinha que passar por entre os visitantes, captar algum olhar perdido, furtivo, conversar, até participar…
….Ainda absorta e indecisa entre a razão e o desejo, espreguiça-se no momento em que explode retumbantemente o Bolero de Ravel… Vêm-lhe algumas lágrimas. Retida em seu mundo introspectivo aprendera a apreciar a música clássica e outras tantas ouvidas naquelas noites em sua casa. Solitária, deixa-se acariciar pelas sonatas e pelo dedilhar dos violões de Dilermando que enchem a casa de uma alegria ímpar e, para ela, peculiar.
….Aqueles rapazes viraram personagens singulares. Vendo-os hoje na mente, depois de mais de trinta anos, percebe que as fisionomias e atitudes funcionam como sinais ou signos de histórias individuais possíveis… Àquele tempo todos faziam parte dessa mesma história. Bach, Beethoven, Mozart, Strauss, Schubert… allegros, adágios, prelúdios, sonatas… tudo se mesclava ao silêncio, à emoção, ao sorriso, à íntima alegria de cada um.
….E apesar de tudo, ela ainda se mantinha no quarto deixando-se tocar por aquela lânguida e macia sensação de paz. Mas, insistia-lhe a vontade de passar naquela sala. A timidez a incomodava profundamente. Ela se contrairia fazendo-se ínfima, invisível, quase afásica, naquele percurso. Seria fácil? Vence então a vontade !! Atravessa a sala. Não saúda efusivamente as pessoas, ou apenas balbucia coisas inaudíveis. As palavras ficam presas em sua boca. Sente-se menor, traída por sua inépcia. Queria muito parar… mas continua. …E sai sem destino, porta a fora em busca de nada. Sai querendo ficar. As perspectivas, as casas, a rua integram um clima de quase sonho. A realidade, porém, parece apenas uma convicção. Noites e noites fora assim. Tinha certeza de que fazia transparecer uma indiferença que não sentia.
….Ainda hoje ouve o tilintar dos copos num brinde mudo aos grandes compositores clássicos. Gim com Cinzano? Não importava o que fosse, ela não participava deste eloquente ensejo. A música se ocuparia de fazer o seu papel: escrever por entre ritmos e compassos a informal convivência de onde se manteve mera passageira.
….Agora, sabe que agindo dessa forma, infiltra-se nos mistérios do não saber que o sonho fora possível ou realizável. Bastaria uma derrapagem nesse ajuste, mesmo pequeno e quase imperceptível, para que tudo se tornasse realidade.
….Hoje, mesmo num tempo indefinido, ela entra íntima e emocionalmente naquelas cenas. Pouco importa o momento e a hora: narrar para si mesma o próprio sonho já é torná-lo verdadeiro.

Por Claude Bloc

A viagem – (a José do Vale) – Por Claude Bloc


A estação de repente ficou vazia
O apito do trem se extinguiu no espaço
O mundo logo pareceu pequeno
Naquela janela de ferro e de aço
Tudo é passagem, tudo é nostalgia
No semblante doce, na feição serena
De quem fica, em terra, à sombra da alegria…

Os dias passam: contagem regressiva
O caminho é longo
O Crato é bem ali…
Nos trilhos antigos,
ficam
as saudades
as retas
……as curvas
as voltas
……os canaviais
que não mais veremos, além da memória
nesse percurso rumo ao sonho, rumo ao passado…

A estação agora tem cheiro de café
A vida passou e o trem saiu do trilho
Somos mutantes
Somos passageiros
……Somos nuvens
………Somos fumaça
E por não saber decifrar o mapa
Tantas vezes nos perderemos no trajeto.

A estação ficou e nós passamos
Como se passa uma primavera
E detectamos ao chegar mais perto
Que nada se perde ao voltar
à serra
à terra
aos cheiros
à estrada
Sempre há de se encontrar
…………………. a magia pronta e certa…

Escuta, ouve, é o apito de mais uma partida
Partiremos para novos lugares
sem roteiros
sem destino
…… sem poente ou nascente
A direção é a saudade
O maquinista será o tempo
Na plataforma da nossa história…

Não se canse
não desista
…se cansar, acene,
O trem não te deixará
Não hesite,
Não erre o percurso
A viagem prossegue
no vagão de primeira classe.

Por Claude Bloc

Conversa de Domingo – Por: Claude Bloc

Domingo geralmente é um dia apático para mim. Creio que por ser véspera da segunda-feira e coisa e tal… Ou é porque nossa alma se predispõe a sofrer por antecipação nessas vésperas, projetando as agruras da semana, o corre-corre e tal e coisa…

Como não saio quase nada, às vezes arrisco, no sábado, uma praia, um caranguejo… e vou de CocaCola mesmo, visto que nunca consegui assimilar e associar o sabor amargo da cerveja a algo prazeroso ou ingerível (neologismo?)…

Então, no domingo prefiro a calma e a curtição dos netinhos, meu verdadeiro alento. No domingo, também me valho de pessoas amigas como Socorro, Tereza Duarte, Edilma, Iza, (dentre outras), para trocar idéias etc. e tal…e a conversa gira, bate, volta e acaba por esbarrar na “incomunicabilidade” das pessoas hodiernas, ensimesmadas e ausentes… Da indiferença de alguns em relação ao que se passa bem ali do seu lado. De como as amizades hoje são banalizadas por umas tantas pessoas… enfim, assuntos que acabam por se fazer presentes no cotidiano, tanto nos nossos “quinhões”, quanto na virtualidade dos blogs e MSNs da vida.

Mas a conversa segue. O Domingo é propício.

Ora, Zé do Vale encerrou seu papo até segunda feira, pois sua conversa é de sábado. José Nilton Mariano, provocando argumentações e debate, nos remete à reflexão… José Flavio se espanta com os tempos atuais. Dihelson publica as fotos da garota Blog do Crato. Pachelly aplaude a arte das fotos nos bastidores… A matemática do Dr. Valdetário nos dá um branco nos miolos e um nó no juízo… E o pior de tudo: Socorro Moreira, está caladinha e isto eu já conheço e sei de cor o que significa… Coisas de sábado ou de domingo?

O domingo também pode nos conduzir à fuga do desatino, ao esvaziamento proposital de nossas dores para uma contrapartida de novas perspectivas. Podemos pensar em quem amamos. Podemos imaginar que lhes conhecemos as verdadeiras cores, mas também que há pessoas que se revelam possuidoras de cores que provocam o afastamento, a desilusão, o completo desencanto. Sendo eu uma pessoa que, no mais íntimo do meu ser, gosta de acreditar que o amor existe, há dias em que este “roubo” de encanto estanca no domingo …

E nesta conversa de dominical, às vezes, me vem uma sensação de vida vivida em vão, a perseguir objetivos que deixaram de fazer sentido e no que neles fiz por acreditar durante tantos anos. Nos demais dias, os castelos de areia se desfazem, as bolas de sabão rebentam antes de chegarem ao céu… Mas isto a gente apaga no domingo. A realidade é muito mais pungente. A vida também.
No domingo sinto mais saudade de tudo o que gosto. O Crato mergulha em mim. Eu mergulho no Crato. Com gosto de buriti…
Mas, o tempo corre. Chega a hora! Pasárgada seria meu outro lar emprestado, em Sobral?.
Mais uma semana se vai. Também se vai mais um domingo. Não, nossos Blogs ainda não estão insípidos nem insossos. Tem gente nova entrando no contexto, e muita gente que não deixa a peteca cair. Os autores estão lá destilando pensamentos. Provendo de novidades as páginas que se alongam até o infinito… Não nos percamos nesse caminho. Não percamos o encanto. Não desviemos nossa nau mesmo se “these days, the stars seem out of reach.”

Porque hoje é domingo!

Por Claude Bloc

Para ti – Por Claude Bloc

Foi para ti que abriguei a chuva
que calei o vento
e derramei-me feito perfume
nos confins da terra…
Eu te garanto
não toquei em nada mas para ti foi tudo,
tudo o que escrevi!
.
Para ti, criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei a fruta mais doce
e o sabor do sempre
sempre ficar.
.
Para ti dei voz
ao meu olhar
às minhas mãos
.
Para ti
abri os gomos das horas
verti as gotas do tempo
e voltei á rua
e revi a cidade …
.
Para ti, sim, para ti
Escrevi este poema
e pensei que tudo estava em nós
desde outrora, nessa doce espera
no engano das horas
de tudo sermos donos,
e nada termos…
.
Para ti escrevi
simplesmente porque era de noite e não dormíamos…
.
Para ti dediquei
Verso por verso
Em cada prosa
A cada momento
em que eu descia em teu peito
para me procurar.
.
Por Claude Bloc

Imperativo – Por Claude Bloc

Quando cheguei, a porta já estava aberta. Interrompi o momento. Talvez escrevesse um prefácio ou uma dedicatória para alguém. Presumo. Mas encontrei o mesmo silêncio definitivo. Imperativo. Todos os ruídos eram semelhantes ao silêncio que habitava em mim. Somente quebrado pela fricção entre a caneta e a folha de rascunho.
.
Olhei em volta. Nada mudou. A inquietante estranheza era minha. E, no entanto, na desordem aparente que se alojava no quarto, havia sempre um sorriso hospitaleiro e afável nos recantos e nas paredes.
.
Escrevi. Mais um pouco. Eu vivia a síntese, escrevia o ensaio. No papel lembranças em desalinho. Quis sorrir. Mas me custava fingir. Não conseguia entender as coisas novas que me cingiam num abraço dolorido.
.
Quis esquecer. Brincar o sentimento, brincar corpo a corpo com o espelho. Reflexo refletido. E eu o deixei ali na esperança de não perdê-lo. Não vou mais. Tenho os olhos úmidos como esta manhã de março. Todas as distâncias para povoar a saudade. Mas agora só posso escrever.
.
As pessoas têm medo. Medo de amar. Eu tenho medo de esquecer. Por isso, custa-me sonhar aos poucos. Quero descalçar dos pés os sentimentos.. Quero despertar, apalavrando as ondulações cíclicas da manhã. Amanhecer. É… porque mesmo onde não chego vou sempre com um lápis pronto a alvejar o poema.
Quando cheguei, flechei a porta!
.
Por Claude Bloc

Caminhos e descaminhos – Por: J. Teixeira

Nos bastidores, muitas vezes nos surpreendemos com algumas pérolas… Com uma presença que emerge das cinzas do tempo… histórias que se somam e se complementam, como uma colcha em seus retalhos. O antigo torna-se novidade. O texto entra no texto em diálogo aberto. A vida, então, se descostura no prumo das palavras…

J. Teixeira é mais um desses desgarrados do Ceará, (mora no sul) que sente falta, que se lembra e que gostaria de voltar ao ninho através de seus escritos. Pedi permissão ao autor, que é nosso amigo, para postar seu texto. Ei-lo!

Caminhos e descaminhos

A água que passa, toca leve a tua “tenerezza”
Despertando sentimento relegados ao esquecimento, talvez guardados
Na segurança das gavetas estreitas ,do armário interior.
Ou ,quem sabe,na caixa das lembranças mais ternas:
Depósito recôndito “del nostro cuore”!
A colcha de retalhos dessas lembranças, quando revolvidas
Trazem de volta o que as ondas levaram,
Cabe-nos filtrar e deixar passar, apenas, o que realmente importa :
O brilho de ouro e luz refletidos, dos antigos ribeirões
ou as matizes coloridas das pedras polidas pra não te machucar;
Ou as cândidas lembranças dos adolescentes ruborizados,
No primeiro encontro.
Não é preciso te cobrir d’oro e luce
Isto só desfocaria a tua beleza e o teu riso largo, franco e pleno de “lumière” !
É preciso não mais olhar pelas fenestras
Para te ver dançar e sorrir nas poças d’ água das chuvas de verão.
Antes, te pegar pela mão e correr pelos caminhos que serpenteiam
Os rios da minha terra.

Eu te daria a mão para te mostrar a plenitude dos campos,
E a magia que cada gotícula traz…
Ver e ouvir a paz tarde ser quebrada, num gorjeio solitário do sabiá.
Lembrar das antigas preghiere, com seu café quente (bem quente e doce) e sequilhos,
ou da devoção dos penitentes , a luz das velas(que em provocação, as apagávamos…)
Lembrar as festas de kermesse e o cheiro acre do “aluar”
Tudo fortalece o que a alma não esquece.
O vinho inebria o corpo,viva Bacco!
Vênus ilumina il cuore, viva os amantes!
Morpheu torna possível,o que a realidade nega !
Viva os sonhos !…

Por: JAT

Não te disse… Por: Claude Bloc

Ainda não te disse, mas a noite habita todos os meus manuscritos. Enquanto o sono me amarrota os sonhos, cá estou a escrever. A pensar. A chorar. A tentar conter a esperança. A demover intenções. A dedilhar incertezas. Inquietações. Nessas plagas noturnas nem mais sei o que desejo ou se sou insensata.

Não te disse, não, não te disse. A chuva parou. Sequei o inverno e recoloquei as palavras na gaveta para não me magoar. Dissequei alguns advérbios de tempo e de bons modos. Reacendi a luz do pôr-do-sol. Desenrolei os filamentos do teu nome em minha memória… mas também não disse que soletrei gota a gota a chuva que bebi dos teus olhos em noites silentes. Que descobri meu rosto e lixei o cheiro das tuas palavras. Tirei-lhes as arestas. Apaguei meu pranto e as ficções da tua alma. Matei tua poesia…

Atirei pedras na lua feito louca, mas não te disse! Ela foi a culpada! Logo percebi o meu delírio… Acariciei as pulsações de tua voz … Tentei falar a última vez sobre um último beijo, o último poema. Mas não te disse!

Sei apenas o que ouvi dizer sobre as páginas em ebulição que te escrevi. As águas que vieram desaguar na mansidão dos rios em direção ao mar que idealizei. E agora, eis-me num planeta estranho onde não sei de cor o tom de azul que eu não te disse. Assim como não sei dos astros onde revoas, em que te escondes. Só na poesia é que os conheço…. Não reaprendi os dialetos da tua boca e é por metades que escrevo e me apago nas linhas cúmplices das incertezas que não dissequei.

Não te disse para não lagrimares minha saudade, pois todas estas coisas já não são. Tornaram-se apenas pontos de onde os desejos se despem e dançam e se despedaçam… Onde a incerteza reclama meu exército de solidões e por onde vou levando murmúrios em mi bemol, nessa canção de embalar meus sonhos. E já não sei onde a vida, por ouvir dizer, ainda diz que existe.

Por isso não te disse nada! Para te livrar das utopias que não consigo corrigir … Só sei o que ficou por dizer. E se já não tiveres bravura para ler, apaga-me. Risca tudo. Passa uma borracha nos olhos, pois eu só disse metade. Para não me magoar com o ácido de meus versos. Versos que retiro da gaveta além das reticências.

***

Por: Claude Bloc

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