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Onde começa, ou acaba o fim da linha? por Elmano Rodrigues Pinheiro

Conheci Leonardo, na época com nove anos, galeguinho, sublime, educado, filho do meu amigo Domingos, doce pessoa, barbeiro importado de Piripiri, interior do Piauí. Durante 15 anos convivi com aquelas figuras fantásticas, vendo o pai amável preparar aquela figurinha legal, para a vida. Por intermédio de um cliente, proprietário de uma rede de postos de combustível, Leo conseguiu o seu primeiro e único emprego, e em quatro anos galgou a posição de gerente. Comprou uma casinha humilde para a mãe, e foi fazer companhia pra ela já que havia se separado do pai, e assim ia tocando a sua vida honesta e progressiva. Trabalhando num posto em frente a uma delegacia de polícia numa cidade satélite da Capital de República, se sentia tranqüilo, e seguro, para continuar sua trajetória tão sonhada, por dias melhores. Só que o inesperado acontece: um adolescente de 14 anos, três assassinatos nos costados, em plena sete horas da noite, invade o estabelecimento e anuncia o assalto.

Com toda paciência do mundo, Leo pede calma a moça que trabalhava no caixa, e que entregasse tudo que havia arrecadado, e cumprisse tudo que o adolescente exigia. A reação por incrível que pareça, foi receber um tiro mortal, que lhe suprimiu a vida. Hoje vejo aquelas duas almas ambulantes, inconformadas com aquela perda irreparável, sem saber mais o que fazer pelo resto da vida, pois perderam tudo que haviam construído com tantos sonhos e tanto carinho, e me pergunto. Daqui há três anos esse assassino frio e cruel vai estar pelas ruas a ceifar novas vidas, e daí?
Apareça alguém com essa religiosidade, para dizer aos pais, que faz parte da vida o perdão, e que Deus está olhando lá de cima, com toda misericórdia do mundo.Essa ferida estará aberta, e purgando por toda a existência. E o meu conselho ao pai foi apenas um. Cerol. Vá fazendo umas visitinhas ao presídio, sempre levando uns agrados aos detentos, e quem sabe, em pouco tempo não vais arrumar um caridoso que te alivie essa dor latente. Meus amigos que me perdoem. Quem não passou por essa dor, não tem o direito de ficar a fazer loas, com o martírio e o sofrimento dos outros.

" Ao Mestre Miguel" meu apreço,e minha admiração. por Elmano Rodrigues Pinheiro

Durante uma semana assisti nas passagens rotineiras pela internet, uma série de postagens discutindo atitudes provincianas de algumas pessoas do nosso convívio social. Confesso que de certa maneira fiquei triste, pois defendo para o Cariri uma unidade regional, que possa trazer benefícios para um todo, sem privilegiar determinado município, e pensava que por um lado algo positivo poderia acontecer, apesar de algumas seqüelas. De repente me deparo com uma notícia na internet, da morte de Mestre Miguel, figura de destaque no cenário musical brasileiro, da Banda Cabaçal Padre Cícero de Juazeiro do Norte, que tanto nos honrou pela sua maestria, e com os títulos conquistados na sua arte. Achei que a notícia estaria estampada nos nossos blogs, dando ao Grande Mestre, todas as honrarias por tudo que representou ao Cariri. Não encontrei uma só linha, e fiquei indagando com meus botões. Será que ele não morreu, ou está sendo premiado com a mais babaca das atitudes provincianas, pelos nossos representantes culturais? “Ao Mestre Miguel,” vivo ou morto, o meu apreço e admiração, por tudo que representa, ou representou, para o engrandecimento da nossa cultura popular.

Por: Elmano Rodrigues Pinheiro

Que venha o Paredon – por Elmano Rodrigues Pinheiro

A sociedade brasileira assiste com incredulidade
o esgoto fétido que tem se tornado a justiça suprema desse país.
O Ministro Joaquim Barbosa nesse momento
representa a revolta que mora no peito de todo cidadão de bem,
que a cada dia acorda com o vergonhoso representante
máximo do Supremo Ministro Gilmar Mendes, a defender
interesses espúrios e mostrar que os interesses particulares
de cidadãos suspeitos e envolvidos nos piores crimes,
têm a sua defesa estampada em suas decisões.
O povo brasileiro está a mercê de uma corja de meliantes,
que transformaram toda sociedade brasileira, apenas numa
clara manobra da defesa de interesses pessoais.

DIA DO ÍNDIO – Por: Elmano Rodrigues Pinheiro

Postado por Elmano Rodrigues Pinheiro

Seu Zé Moura – PASTOR DAS COISAS INTANGIVEIS – Por: Elmano Rodrigues Pinheiro

Filho de Francisco Alexandre de Moura e da Maria Romana de Moura, nascido no dia 23 de junho de 1922, no Sítio Umari Torto, no município de Cedro, recebeu, na pia batismal, o nome de José Alexandre de Moura. A vida do pequeno José seria marcada por grandes dificuldades e sofrimentos. O sonho da escola foi logo trocado pela dura realidade da roça. Trabalha quotidianamente no cultivo do arroz, nas vazantes dos açudes, nas frias madrugadas sertanejas. As condições adversas dessa labuta o levou a contrair uma doença reumática que o deixaria paralisado durante anos. Diante dessa realidade, surgiu na alma do jovem Zé Moura uma decisão que marcaria toda sua trajetória existencial: se a vida parecia absurda e sem sentido, resolveu aquele jovem dar-lhe significado. Logo que recomeçou a andar, já palmilhava as veredas do mundo trabalhando nas frentes de serviços, durante as grandes secas, para se manter e também ajudar os seus pais.

Viajou pelo Ceará, Piauí e Maranhão, abrindo estradas nos sertões hostis e ressequidos, construindo açudes nos grotões das serras mais incultas, convivendo com toda sorte de perigos e privações. Autodidata, lia os poucos livros, jornais e revistas que lhe chegavam às mãos, à luz das lamparinas, nos acampamentos improvisados, em latadas de oiticicas e marmeleiros. Do Piauí, ele chegou a Farias Brito, no final da década de 40, época em que conheceu Anita, singela e delicada flor, a beleza mais suave daquele lugar. Casaram-se, e desse casamento nasceram: Jurema, Tibério César (que se encantou em “anjo” com apenas um ano), Rosemberg, Rita de Cássia e Juruena.

A vida desse homem simples do sertão, naquele período, adquiriu talvez o seu sentido mais profundo: resolveu dedicar-se integralmente à educação dos filhos e semear sua bondade com o próximo. Na grande seca de 1958, Zé Moura, com a família, em cima de um caminhão, deixou a cidade de Farias Brito e foi morar no Cedro, reencontrando seus pais, irmãos e parentes.

Trabalhador incansável e empreendedor, Seu Zé Moura se estabeleceu com um pequeno comércio e uma oficina de ferreiro. Em 1964, veio uma grande invernada, e as águas levaram para o mar o pouco que esse homem colhera, depois de décadas e décadas de trabalho. As águas empurram-no agora para o Crato, para as paisagens mágicas e verdejantes do Cariri. Com ajuda do sogro, Manuel Pereira, reconstruiu, pouco a pouco, o que perdera. Passou a trabalhar na gerência de um posto de gasolina e conseguiu, por fim, montar mais uma vez, uma pequena mercearia e sorveteria, na subida da ladeira do seminário. Esse local se transformaria em ponto de encontro de muitos artistas tradicionais e figuras populares da região, que sempre encontravam em seu Zé Moura o conselho fraterno, o socorro para as pequenas dificuldades, a amizade mais sincera. Entre os seus amigos, Patativa do Assaré, Cego Oliveira, Dona Ciça do Barro Cru, Cego Heleno, Vitório, Zé Gato e tantos outros mestres da cultura popular que os seus filhos aprenderiam a admirar. Figura popular e querida, seu Zé Moura, irradiou a sua imensa generosidade e marcou com sua solidariedade o coração de inúmeros amigos.

Homem sincero e cumpridor da palavra empenhada, teve a admiração das mais proeminentes figuras do Crato, mas sempre manteve uma profunda coerência com os seus princípios de simplicidade, de honestidade e de respeito pelo próximo. Se tanto ajudou os outros, com o seu espírito de desprendimento e de solidariedade, tudo fez pelos filhos. Trabalhou noite e dia, em ininterrupto e desmedido esforço, junto com a sua esposa, para que os filhos estudassem em centros mais adiantados, como Fortaleza e Ouro Preto. Para ele, não era importante amealhar bens materiais. Compreendeu, desde cedo, que a grande riqueza, que a grande herança que poderia deixar para os seus filhos, seria a educação, o seu exemplo de retidão, de amor, de bondade, de amizade, de solidariedade e de sabedoria. Não satisfeito, vendo os filhos formados e bem encaminhados, quis, também, que seus netos, seguissem as mesmas lições de vida e de ética. Incansável, já velhinho, velhinho, quis, ainda, para seus bisnetos todos os exemplos do bem.

Pastor das coisas intangíveis, deixou o legado invisível e de imensurável valor, plantado nos espíritos dos seus filhos, netos, bisnetos, irmãos, parentes, descendentes e amigos: o exemplo da sua bondade e do seu amor.

Durante o sofrimento com a prolongada doença, nunca reclamou da sua dor. Fui um sereno guerreiro, um homem de luz. Zé Moura amou a vida como um monge budista, em sua profunda aceitação e serenidade. Sua família, a esposa, Dona Anita, os filhos e os netos estiveram sempre ao seu lado.

Insondáveis são os mistérios de nossa existência. A morte é a completude do homem. Só com a morte, podemos saber, em profundidade, quem era o homem que nos honrou com sua iluminada presença, durante sua rápida passagem pela terra. No momento derradeiro, ali estava Seu Zé Moura, pobre como São Francisco, que nenhuma riqueza material este homem guardara para si. No entanto, como era grande esse homem! Tremem de emoção, de saudade e de reconhecimento todos os que o conheceram e foram transformados pelo seu amor.

Numa época de exacerbação dos valores materiais, em que muitos são lembrados e louvados pelas suas posses ou pelo tamanho dos marcos físicos que na terra deixaram, Seu Zé Moura dá-nos um comovente exemplo de vida. Nada, nada de material esse homem deixou. Talvez, por isso, tenha deixado o seu tesouro maior: a paz dos seus olhos claros, a doçura do seu sorriso, as palavras amigas, o gesto de solidariedade, as brincadeiras, os bombons que distribuía com os netos, bisnetos e crianças da vizinhança; uma paciência, sem fim, diante das agruras e dos sofrimentos da vida que ele tornou sagrada.

José Alexandre de Moura foi um lírio do campo que fiou e que teceu a ternura da vida. No entanto, nem o mais poderoso e rico dos homens foi capaz de irradiar tanta simplicidade e tanto amor, no cumprimento da sua breve missão sobre a Terra. Ele não esperou que a vida e a absurda condição humana lhe dessem um sentido para a sua existência, ele mesmo o fez e humanizou a vida.

Fortaleza, 10 de abril de 2009

Por: Elmano Rodrigues Pinheiro

Brasília se rende, ao talento e a criatividade dos bons nomes do meio cultural cearense. Por Elmano Rodrigues Pinheiro

O Ceará tem recebido do público brasiliense,
as melhores críticas dos espetáculos apresentados
em tôdas as áreas da cultura do estado.
Começando com a Companhia Carroça dos Mamulengos,
que fez tres apresentações sendo duas no Teatro
da Caixa, e uma no Espaço FUNARTE tendo lotação esgotada.
Fechou-se a semana com um show de Myrlla Muniz
com o maestro Manoel de Carvalho, Sivuquinha
e seus convidados, no Clube do Choro de Brasília.
Para começar o mes, acontecerá dia dois de abril
no Anfiteatro Nove da Universidade de Brasília,
um show de lançamento do cd “VIVA O NORDESTE”
de Babi Guedes e Flôr da Aurora que vem recebendo
as melhores críticas. Fecha-se a semana com o lado
humorístico cearense, de Lailtinho Brega, Skolástica
e Paulo Diógenes.
O público cinematográfico, será brindado com o lançamento
de : Patativa do Assaré – AVE POESIA –
de Rosemberg Cariry, que está sendo aguardado
com bastante expectativa, pelas boas resenhas publicadas.

Esse é o Ceará, que nos enche de orgulho.

BOLA NO FOTÓGRAFO – Por Urariano Mota

Recife (PE) – A memória da gente anda muito esquecida. Quase ninguém lembrou esta semana, ou mais precisamente ontem, os 88 anos do nascimento de Antonio Maria. Se em toda a grande e média imprensa nada se disse, não foi por falta da importância de um certo Antonio Maria, que se apresentava como “cardisplicente”, mistura de doente do coração com displicente. E tanta coisa havia e há para falar sobre ele!

Nascido no Recife em 17 de março de 1921, se apenas fosse compositor, deveria ter merecido registros e especiais no rádio, na televisão e nos jornais. Autor de 62 músicas, de canções eternas como Frevo número 1, Ninguém me ama, Manhã de carnaval, Menino grande, Suas mãos, O amor e a rosa, Valsa de uma cidade, e, de passagem, digamos assim, autor desta vã promessa, “nunca mais vou fazer o que o meu coração pedir, nunca mais ouvir o que o meu coração mandar”, haveria muito o que falar sobre esse compositor de letras que são a ternura em quintessência.

Numa coluna de revistas de curiosidades e fofocas, poderia ser dito que foi marido de Danuza Leão, roubada por ele do seu patrão, o grande jornalista Samuel Wainer. E que, ao receber o troco mais adiante, ficando só, morreu de fossa e de amor, em uma madrugada três e cinco, talvez. Que feio, grande e gordo, conquistava mulheres pelo poder da lábia e da inteligência. Que foi ameaçado por Sérgio Porto (sim, o Stanislaw), por ter servido de conselheiro sentimental a uma namorada de Sérgio. E que ao se apresentar como Carlos Heitor Cony a uma madame, levou-a para a cama, para depois contar ao verdadeiro Heitor, “Cony, você broxou”.

Mas ele poderia ter sido lembrado, reverenciado, e lido principalmente por suas crônicas, que estão entre as maiores e melhores já escritas no Brasil. Suas crônicas, quase dizia, suas mãos, misturam humor, crueldade e lirismo, a depender dos dias e da sua vida, que não eram iguais, para ele ou para ninguém. Como neste perfil arguto de Aracy de Almeida:

“Não é bonita, sabe disso e não luta contra isso. Não usa, no rosto, baton, rouge ou qualquer coisa, que não seja água e sabão. Ultimamente corta o cabelo de um jeito que a torna muito parecida com Castro Alves… Faz de cada música um caso pessoal e entrega-se às canções do seu repertório como quem se dá um destino. Não sabe chorar e não se lembra de quando chorou pela última vez. Mas a quota de amargura que traz no coração, extravasa nos versos tristes de Noel: `Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi o prazer que Deus me deu´… e vai por aí, sem saber para onde, ao frio da noite, na espera de cada sol, quando o sono chega, dá-lhe a mão e a leva para casa”

.Ou aqui, dias antes de morrer:

“Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca…

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida”.

E por fim aqui, nestas considerações sobre o sono:

“** Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela!

** Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança.

** A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens.

** Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança.

** Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

** Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes”.

A boa memória conta que Antonio Maria exclamava no rádio, ao ver um jogador chutar fora do gol: Bola no fotógrafo!.Nesse último 17 de março, para a mídia que não o lembrou, também vale dizer: bola no fotógrafo.

Direto da Redação. Publicado em 18/03/2009

O futuro dos seres humanos é o que importa – Por: ………………………..

Para mim, o capitalismo nunca foi uma abstração, um conceito, mas uma realidade concreta, vivida. Ainda menino, minha família abandonou a miséria rural do Nordeste brasileiro em direção a São Paulo. Minha mãe, uma mulher de extrema coragem e valor, deslocou-se, junto com seus filhos, para o grande centro industrial brasileiro em busca de uma vida melhor. Minha infância não se diferenciou da de muitos meninos pobres. Empregos informais. Pouca educação formal. O único diploma escolar de toda minha vida foi o de torneiro mecânico, obtido em um curso do Serviço Nacional da Indústria.

Habilitei-me como um operário qualificado e passei a viver a realidade da fábrica. A vivência do mundo do trabalho despertou-me a vocação sindical. Participei do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, na periferia industrial de São Paulo. Fui seu presidente e, nessa condição, dirigi as grandes greves operárias de 1978-1980 que mudaram a cara do movimento operário brasileiro e tiveram grande influência na democratização do país, que vivia sob uma ditadura militar.

O impacto do movimento sindical no conjunto da sociedade brasileira, levou-nos a criar o Partido dos Trabalhadores, que reuniu operários, camponeses, intelectuais e militantes de movimentos sociais. O capitalismo brasileiro, a partir de então, não nos aparecia apenas sob a forma de salários baixos, condições indignas de trabalho ou repressão da atividade sindical. Ele se expressava na política econômica e no conjunto das políticas públicas do Governo, mas também nas restrições às liberdades. Descobri, junto a milhões de outros trabalhadores, que não bastava reivindicar melhores salários e condições de trabalho. Era fundamental lutar pela cidadania e por uma profunda reorganização econômica e social do Brasil. Disputei e perdi quatro eleições antes de ser eleito Presidente da República em 2002. Na oposição conheci profundamente meu país. Com intelectuais, discuti alternativas para uma sociedade que vivia na periferia do mundo o drama da estagnação e de uma profunda desigualdade social. Mas meu conhecimento maior do país foi no contato direto com seu povo nas Caravanas da Cidadania, que realizei percorrendo dezenas de milhares de quilômetros do Brasil profundo. Ao chegar à Presidência deparei-me não só com graves problemas conjunturais mas, sobretudo, com uma herança secular de desigualdades. A maioria dos governantes, mesmo aqueles que realizaram reformas no passado, haviam governado para poucos. Pensavam um Brasil onde apenas um terço da população teria vez. A herança que recebi não foi somente de dificuldades materiais, mas de arraigados preconceitos que ameaçavam paralisar nossa ação governamental e conduzir-nos à mesmice.

Não poderíamos crescer – dizia-se – e lograr estabilidade macro-econômica. Menos ainda crescer e distribuir renda. Teríamos de optar entre voltar-nos para o mercado interno ou para o externo. Ou aceitávamos as duras regras da economia globalizada ou estaríamos condenados a um isolamento fatal. Em seis anos derrubamos esses mitos. Crescemos e logramos estabilidade macro-econômica. Nosso crescimento foi acompanhado da inclusão de dezenas de milhões brasileiros no mercado de consumo. Distribuímos renda para mais de 40 milhões de brasileiros que viviam abaixo da linha de pobreza. Fizemos com que o salário mínimo aumentasse sempre acima de inflação. Democratizamos o crédito.Criamos mais de 10 milhões de empregos. Impulsionamos a reforma agrária. A expansão do mercado interno não se fez em detrimento das exportações. Elas triplicaram em seis anos. Fomos capazes de atrair muitíssimos investimentos estrangeiros sem sacrificar nossa soberania.

Tudo isso nos permitiu acumular 207 bilhões de US$ em reservas e, assim, proteger-nos contra os efeitos mais destrutivos de uma crise financeira que, nascida no centro do capitalismo, hoje ameaça o conjunto da economia mundial. Ninguém se aventura a predizer hoje qual será o futuro do capitalismo. Como governante de uma grande economia dita “emergente”, posso dizer que tipo de sociedade espero que surgirá desta crise. Ela deverá privilegiar a produção e não a especulação. O setor financeiro deverá ter como função estimular a atividade produtiva. e deverá ser objeto de rigorosos controles nacionais e multinacionais por meio de organismos sérios e representativos. O comércio internacional estará livre dos protecionismos que ameaçam intensificar-se. Os organismos multilaterais reformados manterão programas de apoio às economias pobres e emergentes, com o objetivo de reduzir as assimetrias que marcam o mundo de hoje. Haverá uma nova e democrática governança mundial. Novas políticas energéticas e reformas do sistema produtivo e dos padrões de consumo garantirão a sobrevida do Planeta hoje ameaçado pelo aquecimento global.

Mas, sobretudo, espero um mundo livre dos dogmas econômicos que invadiram a cabeça de muitos e que foram apresentados como verdades absolutas. Políticas anti-cíclicas não podem ser apenas adotadas quando a crise se desencadeou. Aplicadas com antecedência – como o Brasil fez – elas podem ser uma garantia para lograr uma sociedade mais justa e democrática.

Como disse no início, dou menos importância a conceitos e abstrações.
Não estou preocupado com o nome que terá a organização econômica e social que virá depois da crise, contanto que ela tenha no centro de suas preocupações o ser humano.

Luiz Inácio Lula da Silva é presidente da República Federativa do Brasil.
Artigo publicado no jornal inglês Financial Times em 10/03/2009

Por:……………………………..

A EXCOMUNHÃO DA VÍTIMA. – Por: ……………………

Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.

Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.

Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.

Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.

O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.

Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.

É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.

Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.

Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.

E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.

{ Zé Piaba }

Por: …………………………..

O ARCEBISPO DA INQUISIÇÃO – Por: …………………..

O Recife (PE) – Todo o mundo soube que Dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, excomungou os médicos que praticaram um aborto em uma criança de nove anos. Mas quase ninguém soube que o aborto não se fez onde a menina estivera internada, no IMIP, porque o arcebispo ameaçou romper o contrato que esse hospital mantém com a Santa Casa. De fato e de direito, para evitar a santa ira, os médicos cumpriram com o dever na Maternidade da Encruzilhada, em outra terra e contrato. E mais não se disse, porque na notícia é comum a expulsão da história. Vê-se o fato – e peço perdão por não resistir à tentação do trocadilho – vê-se o feto, mas se esquecem os antecedentes. O arcebispo que ganhou o mundo há muito anunciou os seus sinais, quando assumiu a direção das almas católicas em Olinda e no Recife. Pois Dom José Cardoso tem uma sombra. Ela se chama Dom Hélder Câmara. Há correspondências que ajudam a semelhança, que se casam nesse estranho conúbio e associação. A começar pela altura, física. Dom José Cardoso e Dom Hélder Câmara têm ambos a mesma estatura. À vista desarmada, dir-se-ia que os dois medem os mesmos 1 metro e 58, se muito. Ambos são nordestinos, Hélder, do Ceará, José, de Pernambuco. Ambos se encontraram na Arquidiocese de Olinda e Recife. Mas aqui terminam as semelhanças. Nas diferenças, bem mais cresce a sombra que o ser atual na Arquidiocese. O vigor da sombra Dom Hélder Câmara é de tal monta que mais vale esclarecer quem é Dom José Cardoso Sobrinho. Vejamos o que dele dizem as suas ovelhas. Das realizações do atual arcebispo, o jornal Igreja Nova, criado pelo Grupo de Leigos Católicos IGREJA NOVA, denuncia um desmonte implacável da Igreja semeada por Dom Hélder Câmara. Da posse em 15 de julho de 1985 até a condenação sem direito à defesa do padre João Carlos Santana da Costa, expulso da paróquia do bairro de Água Fria, a memória conta inúmeras perseguições e abusos. Em 2001 o Diário de Pernambuco publicou escândalo envolvendo imóveis da arquidiocese: o Dr. Rui João Marques em testamento havia deixado uma casa “para obras caritativas da paróquia” e um apartamento, “para formação de seminaristas verdadeiramente vocacionados”. A arquidiocese tomou conhecimento do legado em 1995, mas não tomou posse, e revendeu os imóveis a terceiros, sem respeitar a vontade do falecido. Os paroquianos se revoltaram, reagiram, colocaram na imprensa, fizeram abaixo-assinado, mas nada conseguiram. O pároco, pressionado pela comunidade, requereu o valor do imóvel, onde pretendia fazer uma casa “para a educação de crianças pobres”, segundo a vontade do morto em testamento. Foi advertido pelo arcebispo, ameaçado de expulsão, a menos que assinasse um documento que havia recebido o dinheiro. Mesmo assim, meses depois foi expulso e saiu teoricamente como “ladrão”. E como melhor lembrou o Jornal Igreja Nova: “Dom José Cardoso, o sucessor de Dom Hélder na Arquidiocese de Olinda e Recife, será lembrado como um senhor bispo, ou um bispo senhor, no sentido do procurador romano, ou como lídimo representante de uma hierarquia gendarme, que executa, com o código de direito canônico na mão, as determinações do poder central. Como alguém que veio com a triste e árdua tarefa de desmontar e desfazer até nos alicerces o modelo de Igreja preconizado pelo Concílio Vaticano II e ensaiado por Dom Hélder”. (Jornal Igreja Nova, http://www.igrejanova.jor.br/edabr00.htm) Ou no mesmo jornal, nesta magnífica e santa passagem: “No dia 6 de agosto de 2004, durante a concelebração eucarística de encerramento das festas do padroeiro de Olinda, São Salvador do Mundo, Dom Cardoso enviou recado à Prefeita de Olinda, Luciana: que ela se retirasse da fila da comunhão (que era a que ele distribuía), porque ela pertencia a um partido político ateu (Partido Comunista do Brasil). Ao mesmo tempo, numa atitude covarde, trocou sua fila com a de Dom Fernando Saburido (bispo Auxiliar)”. O arcebispo que excomunga médicos é o mesmo que condena, persegue e expulsa padres e freiras desde 1985. Expulsa sem direito à defesa dos condenados e perseguidos. Mas expulsar adultos por delito de consciência não é o mesmo que expulsar fetos. Quem expulsa homens salva o evangelho. Quem expulsa fetos comete um crime. Desde os tempos da Santa Inquisição.

Urariano Mota – Direto da Redação.
Publicado em 11/03/2009

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