Na primeira noite, ela se surpreendeu: o barulho do mar embalou seus sonhos por 14 horas seguidas. No segundo dia, meio sem saber o que fazer com tantas horas livres, resolveu explorar a região. Acabou descobrindo um passeio pelas ilhas da redondeza. Estava no cais aguardando para em barcar na escuna “Rompe Mundo” quando um braço de pescador surgiu à sua frente, oferecendo amparo para que ela não perdesse o equilíbrio. A atração entre ela e Roque foi mútua. Samanta sentiu um arrepio ao fazer contato com aquele corpo forte e se dutor. Com um sorriso alvo e simpático, Roque, o capitão, desejou a todos boas-vindas, puxou a âncora e partiu sem tirar os olhos dela. O passeio foi inesquecível. O sol, o céu, o mar, as ilhas, a caipirinha de pitanga, o coco, o peixe na brasa, o bronzeado, a aragem que vinha do mar, o balanço das on das. Ela estava se sentindo no paraíso.
Aos poucos, seu cotidiano em São Paulo tornou-se uma imagem turva no fundo da memória. Nada mais tinha importância a não ser aquele momento mágico que ela estava vivendo. Os dias que se seguiram não foram diferentes. Samanta deu início a um tórrido romance com o capitão, com direito a sexo no convés sob a luz da lua, peixinho assado na areia de uma praia deserta, amor na rede da varanda e até coco tirado do pé. Estava esquecida do tempo e do espaço quando chegou o dia de ela voltar para os números, faturas e índices.
De volta a São Paulo, continuou a se corresponder com o amado. Mas não agüentou de saudade e decidiu mandar uma passagem para o deus de ébano. Foi um desastre. A magia dos trópicos começou a se diluir no aeroporto. Toda a elegância, charme e sedução de Roque tinham ficado na Bahia. Em São Paulo, ele parecia inadequado, não casava com a rapidez da metrópole, era um peixe fora d’água.
Samanta tentou dourar a pílula. Saiu com ele para fazer compras, mas não havia Daslu que desse jeito. O cara combinava só com Havaianas, bermuda e camiseta. Qualquer coisa a mais ficava fora do tom. Além disso, ele não sabia se comportar socialmente e não tinha papo com os amigos dela. Na cama, o tesão foi diminuindo até acabar de vez, quando ele, encantado com os confortos do apartamento de Samanta, começou a trocar o sexo pela televisão.
Depois que Roque se foi, Samanta desabafou seu desencanto com uma amiga que viajava sempre em férias pelo Brasil. Ouviu que namoro regional é namoro regional. Tirar o cara do hábitat destrói a paixão. A amiga tinha aprendido isso anos atrás, quando se apaixonou por um peão em Barretos. Hoje, ela já sabe que mulheres metropolitanas são mais flexíveis a parques temáticos. Entram no jogo e brincam de mulher de peão ou de pescador. Mas o inverso não acontece: “Da próxima vez que você se apaixonar por um cara de outro reino, deixe ele lá, na terra da fantasia. Nunca traga para o seu mundo um príncipe porque ele vira sapo”, aconselhou a amiga.
Samanta, que tinha tomado gosto por férias, prometeu a si mesma que, caso rolasse alguma coisa no próximo réveillon, em Fernando de Noronha, agiria de forma ecologicamente correta: o que for de Noronha fica em Noronha. Romances da fauna e flora locais devem ser preservados e jamais retirados do seu ecossistema.
Patricya Travassos é atriz, apresentadora do programa “Alternativa Saúde”, do canal GNT, e autora do livro “Esse Sexo É Feminino!” (Editora Símbolo/ O Nome da Rosa, 120 págs.)
















