468x60

Arquivo do Autor

Carta aberta ao Deputado Ely Aguiar

Por uma região metropolitana mais democrática

Prezado Deputado Ely Aguiar: todos nós já sabemos e já vimos o curso das intenções. O Estado do Ceará tenta criar mais duas regiões metropolitanas além daquela de Fortaleza. Só que os burocratas do Estado só têm uma única experiência de formação metropolitana que é a de Fortaleza. Experiência baseada numa hierarquia em que o maior vai distribuindo crescimento na sua vizinhança.

O curso das intenções é repetir o mesmo modelo hierarquizado, em Sobral já se tem o centro hierarquizado e no Cariri seria Juazeiro. Tem razão para se criar a regiõe metropolitana do Cariri? Sem dúvida, inclusive como fator inovador em relação a este momento histórico centrado apenas no litoral. O como será esta metrópole é que vem a verdadeira luta.

Neste momento da metropolização muitas mudanças ocorrerão em relação ao poder regional e particularmente ao poder municipal. Especialmente o proselitismo municipal se tornará mais ambientado na própria metrópole. Portanto uma metrópole centrada numa única cidade com ocorre em Fortaleza é um atraso para o Cariri e para qualquer das cidades da região, mesmo aquela de menor população. E aí vejam que a cara feia e o desconforto dos políticos de Fortaleza é apenas a dificuldade deles contribuírem para aquilo que realmente nos interessa. Como disse eles não são a melhor referência.

Por isso aconselho você a algumas coisas:

a) Forme uma bancada unidade em torno do tema, não interessam os partidos.

b) Abra um série de audiências públicas na região, intinerantes nas diversas cidades.

c) Estimule a criação de fóruns permanentes de construção do modelo metropolitano mais democrático e que melhor oportunidade ofereça a cada município.

d) Estimule a criação de observatórios e estudos nas universidades regionais para analisar a vocação das cidades e a melhor forma de redistribuir os espaços das cidades; os parâmetros do equilíbrio político, econômicos e administrativo.

e) Este debate sobre o investimento na Exposição do Crato já faz parte da transformação dos espaços sociais em torno da chamada metropolização, que como se viu em Fortaleza é subalterna a uma cidade.

f) Convoque todos os técnicos do seu gabinete para acompanhar todos os projetos Estaduais, Federais e com Organismo Internacionais que tenha por centro investimentos em alguma cidade da região.

g) Faça este acompanhamento inclusive examinando os planos de investimento das diversas secretarias de governo: saúde, educação, segurança, saneamento etc.

h) Já que você é um líder político da região, faça um chamamento ao talento regional, que mora aí em Fortaleza que tenha disposição voluntária e preparo técnico para ajudá-lo nesta grande mobilização: só para lembrar e sem consultá-los lembro do José Nilton e do Carlos Esmeraldo.

i) Ely esta é uma oportunidade extraordinária de avançarmos e não nos deixar cair no conservadorismo amedrontado e lamentoso.

Antes de despedir-me relembro de um deputado de Jardim (esqueci-me o nome, mas não ele , tenho inclusive a memória visual) que durante anos malhou a ferro frio pela iluminação de Paulo Afonso, nunca abandonou a luta e seu nome ficou efetivamente ligado à conquista.

abraços

José do Vale Pinheiro Feitosa

Especulando sobre a mudança do parque de exposições.

Aqui da distância. Tomando como referência apenas o que leio nos blogs da região. Como vejo a questão:

a) estão pensando em investir no Parque de Exposições na região do Cariri. Não é exatamente no Crato.

b) se a questão da localização parece ser a secundária, já que, em tese, o principal é o recurso financeiro, fica evidente que o principal se encontra no político e, no momento, é a localização e esta será fora do Crato ou num ponto entre Crato e Juazeiro.

c) o modo como o Governador responde, o modo até como o Secretário informa, com muita adjetivação e declarações de amor, leva a se considerar que a escolha da localização já foi feita, só basta um pouco de anestésico para o povo do Crato engolir.

d) a maior evidência é a fala do Governador meio que ameaçadora, se vocês não quiserem, lavo as mãos e o investimento não vem. Vejam que ele incorpora na ameaça o investimento no Campus da URCA, radicalizando o sentimento de perda pela população e tentando imobilizar os opositores da localização.

e) agora retorno ao Samuel, o prefeito do Crato, é preciso que ele fale, se expresse sobre o assunto, aqui neste blog que tem enorme simpatia por ele e em outros meios de comunicação da região.

f) a eventual fraqueza do Samuel neste momento seria o caminho para duas coisas danosas: o não investimento no campus da URCA e no parque de exposições.

g) cabe ao Samuel derrotar a “chantagem” do Governador, com este papo de não investir se o povo do Crato reagir à solução dele.

h) só lembro ao Samuel e me desculpo pelo que direi: há alguns anos, ele já era prefeito do Crato durante um embarque em Juazeiro, encontrei com um Vice-Reitor da UFC e estranhei o não aproveitamento dos espaços já instalados no Crato para a sede da UFC regional, inclusive o curso de Agronomia. A desculpa dele foi de que a culpa era da lerdeza da gestão do Samuel, para em seguida aplaudir a rapidez do prefeito de Juazeiro.

i) enfim, visto aqui de longe, tudo leva a crer que o debate original da mudança do Parque na direção do Juazeiro parece verdade mesmo.

José do Vale Pinheiro Feitosa

DAS FORMIGAS DE ASAS AOS CUPINS

Mesmo sem atender à convocação, transitei o caminho duro das dúvidas entre a real natureza do ambiente e a ambiência de uma real necessidade. Afinal, mesmo não gostando da redução da real natureza do ambiente a um intento associado e dependente, me dei conta da real necessidade de manter a ambiência. Como uma formiga de asas e um cupim por evolução e transformação.

A formiga de asas se fez símbolo da liberdade. Saiu do sólido piso e ganhou os ares. Tudo mais rápido, elevado, acima da digestão da uma vida no tubo alimentar do predador. Por sobre a língua elástica do sapo, num vôo errático, que se atrai com a luz e cai no solo como aparição num repente onde não existia.

A formiga de asas, então as perde e imprevidente se toma de uma cegueira ainda insuficiente que se perca. A formiga de asas se transforma num cupim ávido por celulose. Atravessa barreiras de alvenaria, forma túneis extensos numa ramificação de oportunidade e rói toda a celulose que se interponha na sua progressão.

O cupim derruba a arquitetura das estruturas de madeiras, tudo pelo que perdeu do seu vôo de liberdade. Agora ele é intento sem freios de tornar pó aquele lenho rendilhado ou concêntrico que um dia um olhar se pôs. A liberdade de destruir o quê para si é apenas alimento.

CONTRA A PENA DE MORTE E A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL – Por: José do Vale Pinheiro Feitosa

justica


O George Macário postou duas matérias que versam sobre a punição de pessoas que cumprem atos criminosos. Uma em defesa da pena de morte e outra sobre a redução da maioridade penal. Na primeira matéria bati os olhos e não tive tempo de ler e estava no centro de um debate aqui sobre saudosismo e preferi, por mero cansaço, não entrar em outro. Mas hoje, refiz minha posição, pois afinal não teria sentido ficar aqui escrevendo se não fosse para a contribuição geral. A contribuição, inclusive, do contraditório. Pois sou contra a pena de morte e contra a redução da maioridade penal.

Existem torres de controle para os aviões não se chocarem. Sinais e leis do trânsito para evitar acidentes e criar uma responsabilidade sobre o condutor de veículos, que, aliás, não é um direito individual, é uma concessão do Estado. Hospitais para recuperar a saúde, Bancos Centrais para regular o mercado financeiro e assim poderemos ir a centenas de instrumentos civilizatórios para promoção, prevenção e recuperação de meios, pessoas e coletividades. Agora mesmo se intentam de sobremaneira a recuperação das cidades inundadas naquilo que se denomina Defesa Civil.

Isso tudo em razão do modelo de felicidade que se traduz numa sociedade de direitos humanos, sociais, econômicos e políticos. E mais ainda, numa sociedade que igual à grega, entende os fundamentos de todos estes direitos e obviamente da felicidade geral. Hoje mesmo um soldado americano enlouquecido numa clínica militar em Bagdá matou cinco colegas e feriu mais três. Então o crime de qualquer espécie tem muitos aspectos que uma vez negados entram em lesão máxima da própria civilização. Não é por nada que Bento XVI foi a Israel reconhecer o quê um infeliz bispo negara: o genocídio de judeus na segunda grande guerra.

Os fundamentos de tantos direitos tem base na cultura cristã, tem base na ciência (sociologia, antropologia, psiquiatria, psicologia, etc.) e claro no direito. A sociedade que vivemos não é uma máquina de resultados, é um imperfeito que sofre os efeitos do sistema econômico dominante, da ordem política e claro da própria natureza que não existe para servir aos homens, sendo estes apenas uma pequena parte do seu conteúdo completo. Ora, dizer que o coletivo é superior ao indivíduo não diz mais nada. É apenas uma palavra de efeito ou um mantra da velha política da ordem das classes superiores sobre as subalternas.

Vivemos na civilização do indivíduo. Por isso é que o direito não é um só, retorne-se aos princípios fundamentais na constituição e dos direitos e garantias fundamentais. Estão lá: II – a cidadania; III – a dignidade da pessoa humana; IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – o pluralismo político. Por isso é que no capítulo dos direitos e garantias fundamentais temos: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes.

Sobre a redução da maioridade penal faz parte da fragmentação que não mais cabe no conjunto de uma sociedade de indivíduos e coletividades. Se tivermos que enfrentar a complexidade da vida e das sociedades, inclusive do modo de produção e distribuição de riquezas e da própria natureza, é muito mais adequado um todo abrangente e de certa forma orgânico do quê fragmentos de meias verdades. Por isso a defesa do Estatuto da Criança e do Adolescente é mais conseqüente e muito mais real, do que ECA que apenas punem, sem pensar a civilização. A redução da maioridade penal não muda questões complexas nas tensões sociais, nas disputas genocidas, na disseminação de estados alterados da mente sobre efeito de drogas e bebidas. Uma sociedade não se resolverá nos tribunais, mas nos Estatutos, que democratizam o exame das questões através de conselhos locais. De conselhos que estimulem políticas públicas e sociais, que dialoguem com a escola e a saúde pública, que busque meios de segurança pública e claro, por último na cadeia, a justiça para recuperar. Mas a recuperação é tão importante quanto, especialmente quando os meios de promoção e prevenção não puderam resolver casos específicos.

José do Vale Pinheiro Feitosa

O Que é uma Epidemia ? – por: José do Vale Feitosa

saude2


U
ma epidemia tem muitos parâmetros. Entre os mais banais: a incidência com a qual atinge as pessoas (o número de casos de pessoas que adoecem); a letalidade (quantidade de mortes sobre o total de pessoas que adoeceram); a gravidade dos casos para efeito de cuidados (ambulatório, internação, tratamento intensivo etc.); a idade da população mais atingida; a área geográfica atingida pela epidemia entre outros. Às 3 horas no horário de Brasília a OMS divulgava o boletim da febre suína de acordo com o quadro abaixo:

Países Casos Mortes (letalidade)
EUA 2.532 3 (0,11%)
México 1626 48 (2,95%)
Canadá 284 1 (0,35%)
Costa Rica 8 1 (1,25%)
Europa
em 24 países 188 0 (0,0%)
África 0 0 (0,0%)
Ásia em 4 países 9 0 (0,0%)
Oriente médio
em Israel 7 0 (0.0%)
Oceania
em 2 países 8 0 (0,0%)
América Latina
em 6 países. 32 0 (0,0%)
Total
em 30 países 4.694 53 (1,1%)

O vírus efetivamente se espalhou. O número de casos nos EUA já é maior que no México, mas a letalidade entre os dois países tem uma enorme diferença. Igualmente a letalidade mexicana pela gripe é muito superior ao Canadá o terceiro país com maior número de casos. À exceção da Costa Rica, só ocorreu mortes nos países com maior número de casos. Que lições poderíamos tirar destes números?

O vírus tem uma circulação ampla e se espalha através daqueles canais do trânsito mundial do comércio e turismo. Na Europa, por exemplo, os maiores números estão em países como França, Reino Unido, Alemanha e Itália. Inegavelmente com maior trânsito com a América do Norte. No Oriente Médio só ocorreu em Israel e na Ásia se destaca o Japão.

A não ocorrência no continente africano pode ser apenas um problema de detecção da saúde pública regional, mas tudo leva a crer que será apenas uma questão de tempo. A chegada do vírus à China abre uma oportunidade, tanto pelo modelo, pois lá tradicionalmente tem sido a fonte “forjadora” dos vírus influenza, além da concentração populacional e da criação intensiva de porcos.

Se estivermos numa região de transmissão e concentração de casos, como em partes do México e EUA a nossa chance de sermos contaminada parece, pela expansão verificada, muito alta. Agora se imaginar que o México tem mais de 108 milhões de habitantes (incidência até agora de 1,5 por 100 mil pessoas), o EUA com 300 milhões (incidência até agora de 0,844% por 100 mil pessoas) e o Canadá com 35 milhões (incidência até agora de 0,811% por 100 mil pessoas). Acontece que nestes níveis de incidência provavelmente não se consiga explicar a extensão mundial do vírus tendo como fonte apenas a América do Norte. Se aplicarmos unicamente os números divulgados para cada 17,2 casos da América do Norte teria surgido outro caso em algum continente, especialmente na Europa.

Mesmo se considerando a população mundial em viagens ente a América do Norte e o resto do mundo há de considerar que a epidemia estaria num nível de incidência muito baixo naqueles países para que possa disseminar assim e de modo tão diversificado. Estamos diante de duas hipóteses: ou a incidência nos três principais países em que a epidemia chegou é bem superior ao que se divulga (até pelo efeito de análise sentinela) ou os vírus estão evoluindo de modo independente ou sendo espalhado por outra forma. Se todos os casos descoberto fazem parte da vigilância sanitária de fronteiras, o mais provável é que um viés de saúde pública possa “esquecer” algo fora deste canal. São ponderações a se verificar num futuro próximo.

Por último a questão da letalidade. A letalidade tão alta do México em comparação com a Americana e a Canadense, pode significar a maior incidência, atingindo seguimentos sociais mais diversificados, mas demonstra a iniqüidade dos sistemas de saúde mexicanos em relação aos outros dois. Uma hipótese forte é as autoridades do México não terem o real conhecimento da incidência e que esta seja bem maior. É mais fácil um sistema contar os mortos que doentes com dificuldade de acesso a serviço ou serviços que não notificam os casos para as autoridades sanitárias.

José do Vale Pinheiro Feitosa

UM SÁBADO COM PENCAS DE MADURAS SAUDADES – por José do Vale Pinheiro Feitosa

Nestes PPTs da vida costuma uma frase lapidar acompanhar nossas angústias de tempo: viva este momento como se fosse o último. Mas nesta manhã de sábado, tão cheio de saudades do Crato, inverti literalmente a frase: vida este momento como se fosse o primeiro de toda sua longa vida. Tenho que viver este momento com o senso que a vida é longa e não posso deixar os cantis largados na trilha: na frente terei sede. Terei sede de Crato. Dos cratenses.

Sede de espaço e gente. Da chapada do Araripe e toda sua louca aventura da flora brasileira: cocais, mata atlântica e cerrado. Desta bacia em que pulsam todos os corações dos cratenses e seus sonhos de futuro, suas tiradas das manhãs, tardes e noites; suas saudades do universo tão vívido quanto vivido.

Saudade de ser eleitor de Pedro Felício, mas sorrir para Ossian Alencar Araripe em plena Praça Siqueira Campos numa conversa de voto e não voto. Saudades de Luiz de Borba e sua pausada voz de advogado numa narrativa sideral das dinastias egípcias. De Zé Alencar, bem ali na esquina da Siqueira, com enorme barriga, nela batendo de manso e dizendo: agora se vai para casa, toma-se um banho, bebe-se um copo de leite e….Melito completa: morre-se.

Zé Alencar tinha fobia da morte. Como alguns vivos têm horror da morte através das saudades dos outros. Que tais saudades possam soterrar a insipidez dos dias em curso. Ou que uma vez prisioneiro das saudades nada se possa com a gema desta manhã luminosa (vá que seja chuvosa). Mas o que temos é um plano que não é plano, não tem espessura e nem medidas cardeais. É um plano para o infinito e nele vamos metabolizando este momento de agora mesmo, ao som de Billy Vaughn destilando Que Será Será.

Estou num quarto de apartamento, cercado de livros, CDs, papéis, equipamentos eletrônicos, um ventilador para as manhãs de calor, e estas letras na tela eletrônica que dizem exatamente isso: tenho saudades do Crato. Do cratinho de açúcar, do cratinho como era e do cratinho como quer ser. Mas aí um cuidado.

Até aceito que os cratenses interpretem suas saudades de outro modo, mas o cratinho como vai sendo na manhã de hoje é uma potência de ser. E sendo, poderá não sê-lo. Ele, assim como a saudade, aceita crítica. O maior vigor da crítica é sobre o presente e o futuro, pois com ela caminhos mudam, algo pode ser feito, existe um pêndulo de vontade.

Isso mesmo um pêndulo. Não a objetividade pequeno-burguesa, é um pêndulo de vontade, por vezes para nosso lado, noutra para além. O melhor, a mais original boa vontade, será sempre sujeito da melhora. E não adiante calar a voz discordante com as farpas da acusação de coisas como “do contra”, “da besteira” e assim por diante, nunca os cratenses esqueçam que antes da voz dizer, tem um pensamento acabado. Calar-se não é desaparecer o desejo, é apenas cessar o som da voz. Quem pensa que calou alguém se engana, pois um dia uma reação haverá como eternidade daquilo que se cala, mas não em vontade.

José do Vale Pinheiro Feitosa

UMA ELEFANTE NA LOJA DE CRISTAIS – por José do Vale Pinheiro Feitosa

Partindo de um dado líquido e certo – ter saudades – mas de premissas erradas – antigo melhor que hoje, certos lugares que mesmo ruins etc. – o Dihelson publica uma série fotográfica de propaganda da gestão Samuel Araripe. Ora ter saudades não se vincula àquelas premissas, até por que as saudades mais fecundas são das coisas boas. Realmente boas para quem as viveu, sem métricas do olhar posterior. Não é possivel quem vem depois aniquilar as saudades sentidas pelos anteriores, até por um lapso de tempo não experimentado. Mas é uma grande coisa que a saudade seja uma mensagem do contínuo, de que a vida é a mesma com a natural evolução, mas é possível saber da evolução, exatamente por não se ter rupturas na narrativa. Olhem bem, meninos entusiastas, quando buscares algo de identidade ela estará por aí sob a forma de saudades, de ícones, nomes, ruas, arquitetura urbana, músicas, pinturas, palavras, bandas cabaçais etc.

O contínuo a que serve a saudade até se encontra, por exemplo, no filho de Ossian Alencar Araripe, ex-prefeito do Crato quando nem iluminação de Paulo Afonso existia. Se encontra no filho de Humberto Macário de Brito, há tanto tempo foi prefeito que certamente a saudade dos seus eleitores se prestam. Deste modo uma lição se tira disto tudo: até para se fazer propaganda, ou loas, mostras da boa intenção ou comemorar avanços na gestão é preciso competência específica. Pisar no calo dos “saudosos” certamente não é uma boa prática.

Que Samuel Araripe, atual prefeito do Crato, vai adiante com os seus compromissos de campanha e execute bem os seus projetos. Todos desejamos isso. Até quem não votou nele.

José do Vale Pinheiro Feitosa

I´m In Heaven – por José do Vale Pinheiro Feitosa


Para o encanto desta noite ouvindo velhas canções americanas na Rádio Chapada do Araripe. E com vocês loas de janeiro de 2003 ao velho Fred Astaire, no Cheek to Cheek de Irving Berlin, flutuando com Ginger Roger pelos salões dois-a-dois que não mais existem:

Estou no céu,
contigo pela mão,
lufadas sobre nós,
paraíso verdecido.

Flash de flores em cores,
silvos do “bico-de-prata”,
universo migrando desejos,
à nossa frente, livre a prometer.
No céu para sempre.

Mas se o celífluo cessar,
consumindo desejos feito chama,
procurares-me e nem sombra houver,
não praguejes da eternidade rota.

A ausência que não devia,
vazio no que seria imortal,
não é capaz de finalizar meu grito,
contigo, no céu para sempre.

O céu eterno e infinito,
continua intacto,
se estamos ou não permaneceremos,
eterno é somatório de intervalos,
infinito continente dos fragmentos,
de modo que o céu nos contém.

Quanto a nosso amor eterno,
eterno será, se vivos sempre somos,
tal qual eterno, se finitos formos,
pois não haverá saudades ou esperas,
se contudo a morte nos igualar,
e eterno, já que momento exato do desejo,
como o amor, portanto, sempre será.

Nas duas situações:

Eu estou no céu.

José do Vale Pinheiro Feitosa

O CRATO E OS CRATENSES – por José do Vale Pinheiro Feitosa

O Crato é uma cidade do mundo. Cidade é coisa de gente. Gente é coisa do mundo. O mundo é uma areia do universo, mas gente não. Não é areia. Gente não tem medidas. Nem espaço. Não existe um dentro e um fora. Existe gente, o mais são metáforas.

E creia-me se o Crato é um ponto da areia do universo, os cratenses são outra coisa. Sem ângulos, superficialidade ou profundidade; sem verticalidades ou horizontalidades; sem pontos de fuga. Nem centímetros ou medidas de volume. Não possuímos volumes. Assim como não temos um reservatório interior para poupar vivências, menos ainda um compartimento exterior preservado para a segurança de ser no mundo.

Assim os cratenses não são o mesmo que o Crato. E logo vem a alternativa: seriam espíritos soltos do mundo? Tampouco. Estamos e não estamos no mundo, somos e não somos o mundo. Nós, os cratenses, somos e não somos nós mesmos. Não sendo o mesmo que o Crato somos, no entanto, cratenses. Entre sim e não se encontra a nossa real natureza.

Deste modo: temos e não temos medidas. Temos e não temos espaço. Mas temos tempo? O correr. Temos o correr do tempo. Não ele como uma métrica do antes, de agora ou depois. A corrida dele. Isso temos. E vamos nós. Lá vou eu.

José do Vale Pinheiro Feitosa

Palmas e nada mais – por José do Vale Pinheiro Feitosa

Manhã no aterro do Flamengo,
na réstia do terreno defronte do Passeio Público,
da janela do ônibus em que estava,
a celebração da humanidade,
uma roda de pessoas batendo palmas.

Para algo que havia acontecido,
palavras que abriram os céus,
cantos das pressões dos ventos alísios,
orações que atordoam a fatalidade,
uma cinta de solidariedade e amor.

Mas poderia ser aquela uma seita?
De candomblé sincrético na variante raça?
Alça da escada social de uma igreja evangélica?
Liga revolucionária da teologia do oprimido?
Seria algo carimbado parte do conflito?

Como palmas ao discurso fascista?
Tremores de uma epifania terrorista?
A hierarquia de um palco positivista?
Graças de uma alegria neoliberal?
Seria?
O que importa o seria?

Menos humano que da janela vi,
pergunta alguma encontraria,
nem lixos das idéias em luta,
ou móveis que justificam o ser no mundo,
nem uma causa que as palmas aplaque.

E do intervalo de interrogações,
esperei o sinal abrir em verde,
andando com um coração vermelho,
eram palmas da liturgia de ser humano,
e sem perguntas trouxe o momento até aqui.

José do Vale Pinheiro Feitosa

PUBLICIDADE

468x60
Login -