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Convite : Lançamento de Livro !

Mãe – Por João Marni de Figueiredo

Por João Marni de Figueiredo
Mulher, que há milhões de anos, no período cenozóico, uma vez Lucy, deixaste as impressões na lama vulcânica quando instintivamente olhaste para trás, temendo pela vida do teu rebento; Tu, que uma vez Eva, foste castigada por não postergar a procriação, tal e qual adolescente de hoje; Tu, que embalas o sonhos de ser mãe, que exultas e ficas radiante quando concebes e carregas no ventre a razão da tua vida, deixando de existir para ti… que passas a rir ou chorar com o que ao filho acontece;És capaz de nadar em águas turbulentas para salvá-lo, mesmo não sabendo fazê-lo. És também obstinada e nunca perdes a fé, a exemplo do Ingrid Betencourt, suportando um cativeiro de seis anos em meio à selva, às humilhações e maus tratos, acesa apenas pela tênue luz da esperança em rever os filhos.

Mãe, jamais mentes quando dizes que teu filho é o mais bonito, inteligente, inocente e o melhor dos homens. És símbolo de coragem e de responsabilidade, como aconteceu com aquela vietnamita, encontrada num buraco com seus filhos, durante a guerra, tendo negado ao seu algoz sobre seu companheiro com vários “não sei”. Mas quando indagada de quem seriam aquelas crianças, disse-lhe: “São minhas!”

Mãe, cuja maior queixa no consultório do pediatra é que seu filho não quer comer… Adiante, na juventude dele, não dorme enquanto não chega; Mãe, feito Nossa Senhora, que mesmo sabendo desde sempre do destino reservado ao seu filho, Jesus, não foi capaz de segurar as lágrimas. Parabéns a todas as mães, ricas ou pobres, santas ou pecadoras. Até às que abandonam ou agridem os filhos, pois doentes que estão, perdoadas são. Tu que és filho, se não puderes comprar-lhe um presente, prenda maior será beijá-la e abraçá-la entre palavras como: “eu te amo, mãe!”. Se distante estás, manda-lhe uma mensagem e, se já a não tens mais, lembra-te dela com alegria. Presto homenagem agora à minha própria mãe, Maria Olga, num texto que ouso e espero, venha refletir o sentimento de todos pela sua:

Mamãe,

Do sopro do amor, no encontro aleatório dos códigos, iniciei-me na vida.Alimentado como fruto em teu ventre, chorei ao deixar o silêncio e o morno detuas águas! Sorvi cada gota do teu néctar, enquanto maravilhava-me com teu olhar.Nunca mais deixei de cair e de tentar novamente, desde que impelido a andar. Saí por aí e em lugar nenhum encontrei a paz, a entrega e a ternura como em ti, mamãe! Em momento algum lamentaste o que te reservou a vida. Teu espírito é de continuar… Os filhos estão sempre a pedir perdão. Então perdoa-me, mãe, 70 vezes 7, Uma vez mais, quando perturbo o teu sono. És muito rica, pois em tempos difíceis, vendeste tuas jóias, exceto as do coração!Te amo!

O Defluxo da Bacurinha

Invariavelmente era mesmo assim. Finalzinho de tarde havia um encontro marcado, pré-estabelecido, na Praça da Matriz. Os comerciantes iam fechando suas lojinhas, os empregados saindo do trabalho e Matozinho ia se preparando pra se envolver por baixo do manto da noite. Antes do recolhimento, uma talagada no Bar do Giba e uma conversa atirada da boca pra fora nas rodinhas da praça. Existia quase que uma pauta definida. Primeiramente as últimas fofocas da cidade , depois as notícias do estado, do país e do mundo, estas últimas filadas do rádio do Coronel Serapião Garrido, o único da cidade totalmente confiável. Os outros eram dados a emitir mentirinhas e noticiário fantasioso de vez em quando. Havia dois moderadores nestas conversas de fim de tarde , escolhidos por conta do bigodão e do poder de fogo: Rui Pincel, o filósofo da vila e o próprio coronel Serapião, proprietário da agência Reuteurs de Matozinho: o velho radião Cliper que tinha mais válvulas do que motor de Mavericks.
Naquele dia, pularam-se algumas notícias locais. Havia uma temperadíssima história de chifre envolvendo Zé Maliça, um conhecido pistoleiro da cidade, mas o homem estava presente à reunião e ninguém se afoitou a puxar o assunto, temendo chifrada na traseira e chuncho no pescoço. O primeiro item da pauta , então, versou sobre o uso de passagens por parte dos vereadores locais. Explique-se: a Câmara Municipal havia disponibilizado passagens na velha sopa de “seu Duzentos” para os vereadores, com o intuito de facilitar-lhes o deslocamento até suas bases eleitorais. A medida, grosso modo, parecia perfeitamente justificável e exeqüível, para qualquer estrangeiro que não conhecesse um mínimo de Brasil. Tudo andou às mil maravilhas até que o Conselho de Contas resolveu, claro por motivos políticos, dar um baculejo no trem da alegria. Como era previsível, descobriu o impensável. Passagens distribuídas à mancheias para parentes, aderentes , quengas, amigos e inimigos . Num só mês haviam furado o bucho do erário em mais de oitocentos mil reais. E o pior: o velho Duzentos, misteriosamente, continuava na mesma pindaíba de sempre.
— Até o velho Tadeu Marcolino ! — Lembrou Rui Pincel. O homem parecia um rato de igreja, carregando opa de Santíssimo e enredando tudo quanto é de mal feito ao Padre Saturnino ! Pois tinha até passagem para o lua no nome dele ! Eu nem sabia que a sopa de Duzentos tinha sido envenenada e virado sputinik!
O segundo assunto: o inverno caudaloso.
— O velho Pedrácio parece que estrompou as torneiras do céu, lembrou Generino. Já tem sapo trepado em cabeça de estaca pedindo socorro. No Piauí, , a enxurrada foi tão grande que morreu curimatã afogada. Já tem pato nadando com bóia e jia pulando na água com duas cabaças amarradas na cintura !
Jojó Fubuia – no seu estado natural , ou seja meio melado – acrescentou de lá com a voz meio engrolada:
— Pois num é que sonhei ontem com o velho Nicanor que morreu na enchente do Paranaporã , semana passada! Ele me contou que na enxurrada um velho observava tudo de longe trepado numa nuvem e, horrorizado, dizia que nunca na vida tinha visto um pé d´água daquele calibre. Sabe quem era o homem que se horrorizava tanto com o chuvaral, Generino ?
— Sei lá, homem de Deus !
— Noé, meu senhor, o velho Noé, o almirante do dilúvio !
À medida que a pauta ia sendo cumprida, os pracianos perceberam que um dos personagens centrais das encontros permanecia lacônico e de cenho contraído. O dono da Reuteurs de Matozinho. O coronel Serapião não metera sua colher de pau em nenhum dos assuntos levantados até então. Instado a tornar públicas suas preocupações, manteve um silêncio obsequioso por alguns minutos. Depois, com cara de quem dá aviso de ensebamento de capim de vivente, confessou:
— Sei não, meus amigos! Ando preocupado. Ontem visitei a fazendo do capitão Sinfrônio, no caminho pra Bertioga. Pois no chiqueiro tava lá uma ruma de porco: mexe cu pra cá, mexe cu prá lá… E o pior : ainda vi três barrão espirrando, Ave Maria !
Os circunstantes acompanharam o raciocínio, mas não conseguiam entender a preocupação.
— E o que é que tem isso, Serapião ? Mexe cu, barrão espirrando ? Que charada da peste é essa?
— Vocês num entenderam não, bando de Zé Mané ? Isso é um sinal dos tempos…Não ouve rádio, não ? Tá dando uma doença feia lá pras banda do México que eu acho que é lá perto do Cococi. Comeu lingüiça, toucinho, já pegou! O cabra com a enfermidade pula na lama e morre espojando e falando:cochim-cochim-cochim. Dizem que é um tal de defluxo da bacurinha e acho , pelo que vi na fazenda de Sinfrônio, que ta chegando por aqui. Pelo sim, pelo não, a rodinha se desfez rapidamente, o povo se trancou em casa e só olha agora o mundo pelas gretas das portas. Pedro Magarefe que negocia com miúdos de porco teve que mudar o meio de vida. Bacurim, em Matozinho, tá vivendo mais que Matusalém e só morre gagá e de arteriosclerose.
J. Flávio Vieira

O Sol de Cada Coisa

Lançamento do Livro:

“O Sol de Cada Coisa”
(Poesias)

Batista de Lima

Data- 15/05/09 (Sexta-Feira)

Local- Salão da Terra – URCA

Hora- 19:30

Apresentação – J. Flávio Vieira
“Meu pai trouxe o mar
para casa
prisioneiro de um grande búzio
e no alto sertão
instalou as caravelas
com que descobri o Brasil”

O Fato e a Versão – Por: José Flávio Vieira


Alguém já afirmou que a versão é muito mais importante do que o fato em si. Talvez seja justamente esta lei que resume toda atividade jornalística. Houve um tempo em que as informações circulavam de boca em boca e, claro, que, a cada passagem de língua, as histórias iam tomando nuances próprias que dependiam da capacidade inventiva do povo, mas, também, dos muitos interesses envolvidos no enredo que cada um passava adiante. Os primeiros meios de comunicação de massa como jornais e rádios trouxeram a possibilidade de multiplicar a difusão das histórias e os poderes político e econômico perceberam, rapidamente, que tinham em mãos um instrumento poderosíssimo. Passavam a ter controle de milhares de línguas com capacidade de espalhar a versão que mais lhes interessava. Podiam cometer os crimes mais hediondos, as fraudes mais estapafúrdias, a corrupção mais deslavada pois possuíam nas mãos a mídia capaz de torná-los santos e cândidos. Detinham o monopólio das versões. Assim não existe jornalismo imparcial, a informação sempre está a serviço de grupos ideológicos e econômicos. A luta sempre deve ser no sentido de que todos tenham igual acesso democrático à veiculação das suas versões e, mais, que tenham apurado senso crítico para perceber, claramente, que interesses existem mascarados por trás de cada notícia veiculada. Com a globalização das informações nos últimos tempos, esta arma midiática se tornou bem mais poderosa, mas , por outro lado, democratizou-se mais e fugiu um pouco ao controle do Poder. O grande problema nos dias atuais é filtrar , no meio do turbilhão de versões acessadas, aquelas com um mínimo teor de credibilidade e, mais, entender a intenção subjacente.
Em Matozinho, Gutemberg ainda não havia chegado com suas prensas. A informação e a contra-informação perambulavam de língua em língua e se amplificavam apenas nas rodinhas da Praça da Matriz, na Igreja e nas conversas no Bar do Giba e na Botica de Janjão. Além disso, havia naturais difusoras na vila que eram suas fofoqueiras, imprescindíveis ao leva-e-traz, à fabricação de inimizades e à tessitura de intrigas. Algumas, como D. Filó, morassem em cidades maiores e mais conflituosas, já teriam envenenado as relações internacionais e o planeta já estaria vivendo, segundo Rui Pincel, sua quarta ou quinta Guerra Mundial.
Segundo nosso filósofo, quem primeiro em Matozinho percebeu a importância da versão e não do fato em si, teria sido o velho Chico Liberalino. Ele vivia na cidade do aluguel de alguns imóveis que herdara do pai. Nunca fora de muito trabalho. Suor de Chico, no dizer de Rui Pincel, tinha poder de curar tudo quanto é enfermidade perigosa: câncer, paludismo, hidropsia e “até está tal de gripe do bacurim que vai terminar chegando por aqui”. Chico tinha um filho que herdara do pai a mesma disposição. Grandão, meio destrambelhado e gorducho, andava com passadas largas como quem toma chegada prá atirar em nambu. Confiado no tamanho, Albericão gostava de se meter em arranca-rabos, geralmente escolhendo com cuidado seus contendores entre os mais franzinos da cidade. O filho de Chico contava uma vantagem danada. Aumentava seus atos heróicos e seus embates e epopéias, traçando histórias que fariam inveja a Ferrabraz.
Um belo dia, pai e filho saíram para cobrar um aluguel atrasado de Zé do Sal. O homem alugara um pequeno quartinho a Liberalino e lá instalara uma bodega sortida. Vendia de um tudo. O comércio vivera até com certa estabilidade até que Zé se acoloiou com uma mulher dama da Rua do Caneco Amassado. O estabelecimento começou a não dar lucro suficiente para sustentar as duas famílias e, mais, pagar o aluguel de Liberalino que já varava mais de três meses sem o devido ressarcimento. Foi com este mister que Chico e e Albericão saíram decididos a ter a pendenga resolvida. Zé era um rapazinho franzino e meio empererecado. Só que morara durante muitos anos na Bahia e lá se fizera professor de capoeira, embora nunca tivesse exercido esta função após a volta a Matozinho, possivelmente por falta de alunos.
Em lá chegando, pai e filho, colocaram Zé na maior sinuca de bico. Queriam porque queriam o atrasado. De início a conversa até transcorreu com uma certa civilidade, mas rápido partiu para a agressão verbal. Albericão, confiado no seu físico, resolveu ir às vias de fato e exemplar o inquilino. Não sabia das proezas marciais de Zé. Nas primeira tentativa de tapa, recebeu Albericão uma pernada no tronco das orelhas e se estendeu no chão. Zé do Sal, num salto de felino, pulou em cima e passou a bater nele sem pena. Nisso Liberalino , ciente de que não poderia ajudar muito ao filho, resolveu utilizar o poder da propaganda. Como a briga acontecesse no interior da bodega, em pleno dia de feira, Chico se pôs na porta do estabelecimento e começou a gritar a plenos pulmões :

— Vamo Simbora, Albericão, já basta ! Num mate o homem de peia não ! Já basta, meu filho ! Ele vai terminar pedindo o caco!
Albericão sofreu uma surra fenomenal mas até hoje Matozinho conta uma versão que ele fez Zé do Sal se mijar todinho com o tamanho da sova que levou.

J. Flávio Vieira

Ascalon

Hoje é dia de São Jorge Guerreiro, amigos, um dos mais fortes santos da nossa mitologia. Reza a história, que tão facilmente se mescla com as lendas, que teria nascido na Capadócia, atualmente território da Turquia. Teria vindo ao mundo no final do segundo século depois de Cristo. Ainda menino, migraria para Palestina e aos 23 anos, já fazia parte da corte imperial romana, como tribuno militar. Poderia ter levado uma vida na maciota, não fosse sua sublevação contra o martírio dos cristãos em tempos de Diocleciano. Consta ter tornado públicas sua revolta contra a perseguição e, também, sua fé no cristianismo. Terminou torturado e degolado há exatos 1706 anos, na Ásia Menor em Nicomédia. Sua popularidade é impressionante, é patrono da Inglaterra, Portugal, Geórgia, Catalunha, Lituânia, de Moscou e extra-oficialmente da Cidade do Rio de Janeiro. As artes o imortalizaram nos pincéis de Rafael, Donatello, Martinelli.
Mas de onde teria saltado a imagem mítica que temos de São Jorge a combater implacavelmente o seu dragão ? É possível que tenha surgido da mitologia nórdica na figura de Sigurd , o caçador de dragões. O certo é que as baladas medievais cantavam as suas peripécias como filho do Lord Albert de Conventry e que sua mãe faleceu no seu nascimento tendo ele sido criado pela Dama do Bosque. Seu corpo possuía três marcas: um dragão em seu peito, uma jarreira em volta de uma das pernas e uma cruz vermelho-sangue em seu braço. Já rapazinho, viajando muitos meses por mar, chegou a uma cidade da Líbia onde encontrou um pobre eremita que lhe pôs a par do sofrimento da sua cidade. Ali existia um dragão feroz, de hálito venenoso e coberto de uma carapaça inexpugnável. Todo dia devorava uma donzela e, só assim, aplacava sua ferocidade. Agora só existia Sabra, a filha do rei que seria sacrificada no dia seguinte. O monarca prometera casamento a quem impedisse o sacrifício da princesa. Jorge enfrenta a fera e a mata com sua espada chamada Ascalon. O rei, no entanto, não queria ver sua filha casada com um cristão e o envia para Pérsia ordenando aos soldados que lá o matassem. Jorge, no entanto, se livra do perigo e leva a noiva para Inglaterra onde se casa e vive feliz para sempre. Existem várias versões da mesma história, sempre narrando os heróicos atos do nosso Jorge Guerreiro e da sua valentia frente às adversidades. O interessante é que a ligação íntima de São Jorge com a lua é eminentemente brasileira. A nossa fortíssima influência afro é responsável por isso. Na Bahia, nosso Jorge é associado sincreticamente a Oxossi, o orixá ligado diretamente ao nosso satélite natural.
As lendas mitológicas não são histórias de Trancoso ou da Carochinha. Elas têm profundas raízes fincadas no inconsciente coletivo. O dragão , certamente, representaria o poder diabólico, a idolatria destruída com as armas da fé. A donzela seria a imagem onírica da província que se viu livre da heresia.O interessante é que Papa Paulo VI rebaixou nosso São Jorge a um santo menor, de terceira categoria, com culto opcional apenas em calendários locais. A força mítica, no entanto, falou mais forte, em 2000, João Paulo II terminou reconduzindo nosso guerreiro a um patamar de primeira instância, na hierarquia católica.
A história do nosso guerreiro nos dá margem para algumas reflexões. No fundo, a história narrada oficialmente está sempre embebida de lendas e mitos. Quanto mais o realismo se untar das fontes do fantástico mais perenes se tornarão seus relatos. A ficção é sempre mais palatável e digerível que a realidade nua e crua. O que adoramos em São Jorge não é sua valentia, sua santidade , mas a figura mágica que brota do meio de todas as lendas. O segundo ponto é que as figuras míticas sobreovam todos os livros sagrados; elas não pertencem a uma religião específica, mas se imiscuem em muitas crenças: apenas mudam um pouquinho o nome, as nuances. O mito, por outro lado, é indestrutível pelas armas convencionais; se os enfrentamos ferozmente ou os apoiamos eles crescem com a mesmíssima força. Não terá sido exatemente isso que aconteceu aqui pertinho com o Padre Cícero ? Perseguido, excomungado, de nada adiantou. Tornou-se santo pelas mãos míticas do seu povo. Tentar reabilitá-lo é apenas um mero artifício burocrático. O povo é que empunha a Ascalon , é ele que destrói seus dragões e salva suas Sabras. Às vezes, no entanto, é difícil perceber de onde rescende o hálito venenoso da fera .

J. Flávio Vieira

Nonato velho de guerra

A natureza humana é revestida de muitos mantos. A parte visível e superficial do nosso caráter é apenas a mais angelical, lá no fundo escondem-se e dissimulam-se todos os nossos demônios. O mais das vezes, as pessoas tidas como perigosas, loucas e pervertidas são simplesmente aquelas que não conseguem acorrentar suas feras interiores. Mas mesmo aquelas tidas como dóceis, meigas e perfeitamente normais, de vez em quanto, rescendem , a contra gosto, um cheirinho de enxofre. A primeira impressão que se tinha de Padre Nonato, ao se chegar a Matozinho, não era das melhores. Vigário da cidade há uns dois anos, nosso pároco era meio agoniado, vexado e algumas outras explosivo. Suas histórias já haviam preenchido todos os livros do folclore regional. Esta primeira impressão, no entanto, desvanecia-se quando se convivia mais perto com nosso Nonato. Mostrava-se um doce servo de Deus. Amigos dos pobres, abrira seu templo, preferencialmente, aos desfavorecidos deste mundo. Atendia-os com uma presteza impressionante. Como pastor, estava de plantão as vinte e quatro horas. Além de tudo, levava uma vida beneditina. Batina esfarrapada, casa paroquial humílima, parecia um cínico ateniense. Nunca se soube, também, de nenhum desvio seu que atentasse contra a moral e os bons costumes. Além , claro, de um ou outro destempero, quando flagrava o rebanho a saltar as cercas erguidas pelos livros sagrados. O único meio de transporte que utilizava, além dos pés, era uma velha lambreta que dirigia sem nenhuma perícia e que já computara inúmeras infrações: atropelamento de galinhas e porcos, desembesto em ladeiras e rampas, manobras radicais em meio de feira. Padre Nonato nunca conseguira decorar bem onde ficava o acelerador , a embreagem e o freio da velha “Vespa”.
As histórias que coletamos em Matozinho e aqui fazemos registro fazem parte da memória afetiva da vila e são contadas de boca em boca reverenciando de um lado a suposta “doideira” do nosso sacerdote, mas sempre tentando mostrar um ar de santidade por trás do aparente desequilíbrio. Em Matozinho, após sua morte, Nonato tornou-se um santo popular, obra milagres e seu túmulo apinha-se de ex-votos e oferendas. O povo percebia que , no nosso padre, a superfície apresentada não se mostrava muito diferente das profundezas mais recônditas de seu caráter.
Ainda no início das suas atividades evangelizadoras em Matozinho, Nonato recebeu, à noite, um telegrama que o preocupou. Fora endereçado por um sobrinho seu que estudava em um seminário na capital. Pedia sua presença com urgência. Nosso pastor imaginou tratar-se de problemas relacionados à saúde do menino e partiu utilizando a única forma de transporte disponível. Saiu pegando inúmeras caronas com caminhoneiros. Três dias depois, às doze da noite, foi que conseguiu chegar. Dirigiu-se, aflito, diretamente ao Seminário com fins de tomar pé da situação. Acreditou que talvez o menino estivesse interno e aventava até a possibilidade de cirurgia e morte. O vigia, no entanto, após a identificação, avisou que o seminarista estava bem e dormindo. Nonato pediu que o homem o despertasse, pois havia sido chamado com urgência. Após alguns minutos, o sobrinho, de olhos inchados, bocejante, veio ao seu encontro e tomou-lhe à bênção. . Nonato, então, o interrogou sobre o motivo do chamado :
— Pronto, meu filho ! Vim com urgência ! O que aconteceu ?
O sobrinho, titubeante, tentou explicar:
— Não, tio, não é nada demais, é que eu descobri que não tenho vocação para ser padre …
Nonato, então, não suportou a besteira do sobrinho.
— Tá ficando doido, menino ? Me manda chamar de tão longe por causa de uma besteira dessas ? Eu que tenho trinta anos de padre ainda não sei se tenho vocação, você já quer ter esta certeza no Seminário Menor ?
Havia um sacramento que Nonato cultivava por especial : o Batismo. E aí ele tinha uma verdadeira implicância com os nomes que os matozenses escolhiam para batizar os inocentes. Vivendo nuns confins daqueles, o povo começou a apresentar a progressiva mania de escolher nomes estrambóticos para os filhos arrancados geralmente da televisão, do cinema e do Show Bussiness. Parece que isso lhes imprimia um certo ar de nobreza e majestade. E aí começaram a surgir verdadeiros estapafúrdios: primeiro porque a população não entendia bem os nomes que pulavam da TV e, depois, porque os tabeliães não haviam sido reciclados em línguas estrangeiras várias: inglês, Alemão, espanhol, Russo. Nosso padre entendia que um pobre rebento que já nascia carregando o peso de um pecado cometido ainda no Gênesis, não merecia a pena de carregar consigo um nome que . algumas vezes , surgia como um verdadeiro Karma. Na hora da pia batismal, o diálogo era inevitável :
— Qual o nome que vocês escolheram para o bichim ?
— Yakosdgovsky, seu padre !
— Ya, o quê ? Tá ficando doida ? E isso é lá nome para os pé rapado aqui de Matozinho ? Mundim te batizo , em nome do pai, do filho, do espírito santo ! Outro !
A história mais clássica do nosso Nonato passou-se na celebração do casamento de Gilbertina , a filha do Coronel Uglino Mangabeira, um dos homens mais temidos da cidade. O velho era mais positivo do que núcleo de átomo. Pois bem, Gilbertina engraçou-se de Filé, filho do Cel Filismino Saturnino, antigo chefe político da cidade e o namorico terminou nos pés do altar. Gilbertina , menina prendada, carregava consigo um grande defeito: era ciumenta como galinha choca.
Toda a sociedade da redondeza havia sido convidada para o grande enlace matrimonial. Dia de festa, Padre Nonato celebrava a solenidade com todo o aparato ritualístico que a ocasião exigia. Ao chegar na hora do “Sim”, Filé, com um sorriso, confirmou sua pretensão em desposar a noiva. Gilbertina, no entanto, sabe-se lá porque, lembrou-se de um suposto namoro do noivo, antes mesmo da sua administração. Na hora h , descobriu-a no meio dos convidados e, furiosa, à pergunta solene do padre, respondeu asperamente :
— Aceito não !
Imaginem o tamanho do escândalo , do mal-estar das duas famílias. A festa cancelada, choro pra tudo quanto é lado. Agressões verbais, a partir dali, se acentuaram entre as famílias de Uglino e Filismino. Na cidade, a fábrica de boatos trabalhou a todo vapor, principalmente incentivada por aqueles que não haviam sido convidados para o rega-bofe. Passados alguns meses, no entanto, a turma do deixa-disso começou a atuar e terminaram aproximando novamente Filé e Gilbertina. Um semestre depois, resolveram novamente retornar ao altar. Convocaram Nonato que meio cabreiro aceitou novamente a peleja. Num belo domingo de maio , repetiu-se o cenário matrimonial na Igreja da Sé de Matozinho. Aparentemente tudo transcorria sem intercorrências maiores. A mocinha, motivo da dissensão anterior, desta vez havia sido cuidadosamente esquecida. Nonato, algo temeroso, preferiu perguntar inicialmente a pretensão casamentícia à Gilbertina que respondeu forte pela aceitação. Nonato respirou aliviado e virou-se candidamente para Filé, fazendo a pergunta fatal . Filé, então, neste átimo, lembrou de toda vergonha que havia passado na tentativa de casamento anterior, tendo sofrido quase uma execração pública. Na hora da resposta, desta vez, foi ele que refugou :
— Aceito , não, seu padre !
O escândalo, desta vez, foi fenomenal. Os familiares quase que se engalfinham dentro do templo. Nonato , acalmados os ânimos, saiu fulo da vida. A fofoca novamente tomou conta da cidade e o assunto animou as rodas de praça e de bar por mais de um semestre. Mas Filé e Gilbertina tinham algo a seu favor, apesar de todas as confusões se amavam de verdade e mais uma vez, arrefecidos os ânimos, as alcoviteiras retomaram o trabalho. Pronto, estavam todos vingados, o Placar era de 1 X 1 ! Tanto fizeram que resolveram novamente voltar ao altar. O problema era um só: convencer Nonato a pagar um outro mico ! A missão coube aos dois maiores bigodes de Matozinho : Uglino e Filismino. Dirigiram-se a ele com um certo receio, mas ficaram surpresos com a receptividade. Ele disse que ia com o maior gosto desse mundo.
Remarcada a data, reconvidados todos. O templo, agora , estava apinhado também de muitos curiosos. No momento solene, Nonato demonstrava uma tranqüilidade totalmente inesperada. Fez a pergunta a Filé que confirmou a vontade de contrair núpcias com Gilbertina. Esta , por sua, vez, confirmou fortemente a intenção de se unir eternamente à Filé. Toda a igreja, familiares , convidados e curiosos respiraram aliviados. Faltava apenas a bênção final de Padre Nonato. Ele , calmamente, fitou os dois nubentes, a platéia e fechou a cerimônia :
—- Todos querem, não é ? Pois agora quem não quer é Nonato velho de guerra.
Pegou a bíblia, o cálice e foi-se embora sem dar mais uma palavra.

J. Flávio Vieira

Cristo vem ? – Por: Dr. José Flávio Vieira

Tenho um dileto amigo muito religioso. Ele não é um católico praticante, desses que fazem da atividade religiosa uma missão e, às vezes, mesmo uma obsessão. No entanto, traz consigo uma fé sedimentada, dessas que reluzem , iluminam e tranqüilizam aqueles que dele se aproximam. Nesta Semana Santa me faz ele uma revelação e me deixa atônito. Os católicos todos esperam a volta do Cristo, os evangélicos o aguardam a qualquer momento, têm até o slogan: “Cristo Vem!” e os judeus estão certos de que o Messias ainda não veio, que Cristo foi apenas um profeta , como Isaias, e imaginam que em breve Ele aqui estará entre nós. Em outras palavras: todos os Cristãos O esperam ansiosamente, uns o retorno, outros a vinda.
Pois bem, meu amigo, do alto da sua espiritualização, em plena Páscoa, mal disfarçando a tristeza, me revela: “Cristo não vem mais à Terra”, é triste mais cheguei a esta drástica conclusão. Absorto, ouço sua argumentação que, segundo ele, foi germinando pouco a pouco no seu coração e, quando menos esperava, brotou como rosa feita, imutável , uma dura constatação.
Há 2000 anos cá Ele esteve entre nós. Sua mensagem sempre foi de paz, de harmonia e de amor entre os homens e seus semelhantes. Revelou um Deus novo que parecia ser à nossa imagem e semelhança. Aquele Deus do Velho Testamento que nos foi apresentado como um Senhor de longas barbas brancas, mais para o temor que para o amor, aquele que pedia a Abraão para sacrificar o filho, que secou o braço de Oza e transformou uma mulher em estátua de sal , de repente, quando se fez homem, foi substituído por um Deus compreensivo, dado à piedade e com todas as características de um pai verdadeiro — mais afeito ao perdão que à punição.
Ora, me diz o amigo, pois esse Deus, mal conseguiu viver 33 anos e foi levado torturado e sacrificado junto com míseros ladrões comuns. Se Ele retornasse agora, teria destino diferente? Me pergunta ele. Imagine o Sermão da Montanha, teria que ser feito com toda a mídia apoiando e com a turba cantando: “Erguei as mãos e dai glória a Deus!” E já pensou- me retruca ele- o trabalho que teria para expulsar os vendilhões do templo ? Esses mercadores, hoje ,proliferaram de tal maneira, construíram templos próprios e adoram novos e disfarçados bois de ouro, que expulsá-los seria uma hercúlea tarefa. Milagres como o dos peixes, dos pães, de Lázaro, seriam expostos ao ridículo e , certamente, nos domingos, Mister M aparecerá no “Fantástico” , tentando mostrar que foram farsas e simples trucagens. Aquele período da vida do redentor da humanidade, entre os 8 e 30 anos , que os evangelhos nada contam, será apresentado, agora, em versão modernizante, escrita por um jornalista sensacionalista qualquer, como uma “Biografia não autorizada de Cristo” e é fácil se concluir as aterrorizantes revelações que poderão ser inventadas. Meu religioso amigo ainda estende suas preocupações: E a Ceia Larga, já imaginou a quantidade de paparazzi presente? A passagem de São Pedro decepando a orelha do soldado, certamente será apresentada no “Ratinho”. Cristo, certamente, já deve ter chegado à conclusão de que na sua primeira estada na Terra, teve apenas um alcagüete : “Judas”. Já nos seus novos discípulos, seria tão fácil encontrar pessoas em busca de um objetivo comunitário, quando hoje, todos fazem Programação Neuro-Lingüística , com fins de esmagar todos concorrentes e se tornarem os únicos vencedores ? O Julgamento, me diz ele, então ,seria uma barbada, novamente Barrabás iria para o trono com determinação direta do juiz, uma vez que já não há Pilatos para lavar as mãos.
Meu sacro amigo, com ar triste, mas resignado, conclui: E já imaginou a cobertura da tortura e do Gólgota? Seria feita possivelmente por Galvão Bueno, em rede mundial, com a entonação de quem relata o piripaque do Ronaldinho! Cristo não volta, pode ficar certo, afirma o amigo, além do mais, naquele tempo Ele foi crucificado entre dois ladrões e um era bom; imagine hoje onde colocar os ladrões todos crucificados, era preciso destruir a floresta Amazônia para se fazer cruz e crucificá-los no Everest, única montanha capaz de abrigar tantos larápios: do orçamento, da câmara de São Paulo, do INPS, dos Bancos, das privatizações etc.
Digo a meu amigo que talvez ele esteja certo, mas fiquei meditando se na realidade Ele tinha um dia nos deixado. Em apenas alguns anos Cristo modificou todos os rumos da humanidade e continua vivo , como nunca. O Cristianismo instituído é um mero arremedo do que pregou, mas sua palavra é que determina a maior parte das ações críticas do homem neste planeta. O ato da sua ressurreição nos fez ver que todos temos o poder de reviver a cada momento. Nossos crepúsculos não determinam o fim do dia, mas a perspectiva da aurora vindoura. A cada instante podemos ressuscitar na esperança e construir um mundo melhor , mais harmônico e mais justo.

J. Flávio Vieira

Pilatos – Por: Dr. José Flávio Vieira

Cá estamos em plena Semana Santa, já sem o glamour de tempos passados. Algumas cidades brasileiras aproveitam o feriado da sexta feira para armar grandes festas perfeitamente profanas. A maior parte do povo perdeu a ritualística cristã e já não sabe bem o que significa o feriadão. Empanturra-se de vinho e aparenta um ar de santidade e transcendência. As crianças ligam imediatamente a páscoa ao coelhinho e ao chocolate. As classes mais desfavorecidas aproveitam a oportunidade para abastecer um pouco a despensa vazia e saem mendigando víveres para um jejum cada dia mais raro e distante. Os comerciantes entendem a santidade desta semana como o momento oportuno para aumentar o preço do peixe e do bacalhau e levar um pouquinho mais ao caixa da empresa. Nas igrejas os santos se cobrem de roxo talvez mais pelo absurdo total do que vêem a sua volta do que pelo peso plúmbeo e culposo da memória terrível da crucificação.
Desde os tempos de juventude que a quaresma me suscita a imagem de Pilatos. Sei que o nome Pilatos hoje remete imediatamente à academia de fisicultura. Os mais jovens lembram-se de pronto daqueles aparelhos para malhar e sair por aí bombados e impressionando a garotada com músculos mais definidos. Assim, preciso explicar : falo de Pôncio Pilatos. Bem, ele foi prefeito da Judéia entre 26 dC e 37 dC . Teria passado totalmente despercebido dos livros de história se não houvesse participado de um dos mais importantes julgamentos de toda a história. Pilatos foi o juiz do processo de Jesus e terminou acatando a opinião da maioria e ao lavar as mãos condenou-o ao suplício no Gólgota. A sua decisão manchou definitivamente a sua história e, certamente, contribuiu para um julgamento histórico implacável de todas as condutas da sua vida. Tido como violento, venal, corrupto e de uma ferocidade sem limites em todos os júris que participou, segundo os historiadores Filão e Flávio Josefo. Nos séculos seguintes surgiram inúmeras lendas envolvendo o seu nome. Desde um final desastroso em Tevere ou em Vienne na França, o suicídio em 37 dC; até sua conversão ao cristianismo, influenciado por sua esposa Prócula que é considerada santa pela Igreja Ortodoxa. Ele mesmo foi santificado pelas Igrejas etíope e copta. O “Credo”, oração surgida em torno de 200 dC, no entanto, lhe macula definitivamente a memória : “ padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado…”.
Em tempos de tanta liberalidade nos rituais religiosos da Semana Santa por parte da população, me ponho a imaginar o papel singular de Pilatos em toda a história sagrada ocidental. A primeira questão a ser levantada por tantos juízes de plantão é simples. Se todo o suplício de Jesus estava pré-estabelecido, inclusive previsto por profetas, é possível que o papel de Pilatos assim, também, estivesse determinado e que ele apenas tenha sido um veículo necessário à confirmação da profecia e dos desígnios divinos. Mesmo afastando esta hipótese, nos coloquemos no papel do juiz romano. Julgava um prisioneiro político que não conhecia e , como no direito romano, seguiu a opinião dos jurados. Opor-se seria, em tempos atuais, afastar-se da decisão do corpo de jurados e tomar uma decisão unilateral, um verdadeiro absurdo jurídico na visão contemporânea. Mesmo assim , Pilatos hesitou na sentença e preferiu tirar o corpo de fora. A posteridade escolheu o caminho mais cômodo e lhe imputou a culpa pela crucificação. Em nenhum momento se volta para a grande turba que preferiu Barrabás e que ano após ano, julgamento após julgamento, continua politicamente escolhendo sempre a pior parte.
Basta olhar em volta, em meio aos tonéis de vinho consumidos, ao comércio do jejum, às festas profanas reverenciando o sagrado, para se perceber que se Cristo voltasse, se o julgamento fosse hoje, a crucificação se repetiria. Os que hoje fazem a multidão e o corpo de jurados são descendentes fiéis de Barrabás. Pilatos ao menos lavou as mãos, os juízes de hoje as tingiriam, rapidamente, de rútilo sangue inocente.

J. Flávio Vieira

Fofocas – Por: Dr. José Flávio Vieira

Pois é, amigos, vivendo e aprendendo ! Hoje é sábado, dia de futricas e fofocas, especialíssimo para se comentar um assunto desses. Pesquisa na Inglaterra, envolvendo um universo de 5000 entrevistados , chegou a conclusões totalmente imprevisíveis. Os homens são bem mais fofoqueiros que as mulheres, passam em média 78 minutos do horário de trabalho conversando miolo de pote com os colegas, enquanto as mulheres gastam apenas 52. E mais, amigos, 31% dos homens preferem fofocar com a companheira a fazer sexo. É isso mesmo ! E vejam que a pesquisa vem de um dos centros mundiais mais cultivadores da fofoca : a Grã-Betanha. Lá a arqueologia da vida alheia é um verdadeiro esporte nacional. Os tablóides de fofoca – surgidos em meados do Século XIX– , vendem milhões de exemplares por mês e, inclusive, abalaram as vendas dos jornalões, fato também visível nos EUA. As pessoas , cada vez mais, têm se detido nas histórias de superfície, ligadas a excentricidades e escândalos, e se afastado do jornalismo mais sério e analítico. Cada vez mais se cultua Nélson Rubens, cada vez menos Roberto Pompeu de Tolledo.
E não se enganem não, amigos, o poder da fofoca é imenso. Durante toda a história, articulada como boatos, foi veículo de muitos crimes, muitas guerras, muitas mortes. O III Reich já afirmara que a informação e a contra-informação eram armas bélicas iguaizinhas aos canhões e às metralhadoras. Armamento utilizado por muitas ditaduras, por muitos grupos políticos articulados na mídia, a fofoca derrubou governos, destruiu impérios, incendiou palácios e dissolveu relacionamentos com um poder de fogo sempre muito subestimado. E, claro, foi utilizado sutilmente, também, pelas classes menos favorecidas. Em português, etimologicamente, o nome fofoca parece ser originário do banto, uma das línguas africanas que a nós somaram a sua rica cultura.
E em tempos de se quebrarem todas as barreiras da informação: com Internet, Celular, TV a cabo, mais que nunca a fofoca tem aumentado seu poder de contaminação. Se de boca em boca já se alastrava como uma praga incontrolável e agora montada no Orkut, no You Tube, no Twitter , nos blogs e nos e-mails ? Existe já toda uma indústria da fofoca envolvendo revistas especializadas, tablóides, programas televisivos,cadernos dos jornalões, sites , jornalistas e paparazzi. A dona de casa, hoje ,está mais a par das proezas da Paris Hilton do que a da vizinha que mora em frente. O buraco da fechadura ampliou-se como jamais se imaginaria acontecesse.
Junto dessa fofoca institucionalizada existe ainda a fofoqueira tradicional, de ponta de esquina, mas ela perdeu um pouco o glamour dos velhos tempos. E as fofocas de rodinha de praça, de mesa de bar, de barraca de praia subsistem ainda a duras penas. O fofoqueiro típico é aquele que critica nos outros os desejos que ele próprio não consegue deixar explodir. Ver e comentar os desvios alheios de alguma maneira nos tira a culpa e nos torna santos e mais puros. No fundo, há visíveis rastros de uma inveja mal disfarçada em cada ato criticado. E quem sabe, algumas vezes, a fofoca seja a maneira que se encontra de se apimentar um pouco essa vida, se colocar um pouco de tempero em existências insulsas e inodoras. Talvez , por isso mesmo, quanto menor a vila, maior o seu potencial de fofoquismo. É que não existindo outras formas de lazer mais interessantes a vida alheia substitui o jornal, a TV, o Rádio, o teatro , o cinema.
Mas comentemos um pouco a pesquisa inglesa que apresentou resultados aparentemente tão absurdos. Quem diabos nesse mundo imaginaria que os homens ganhariam das mulheres num esporte em que a língua veloz e afiada é essencial ao bom desempenho ? Certamente isso só pode acontecer mesmo na Inglaterra um país todo às avessas, onde a direção do carro fica à direita, a mão e contramão são invertidas e ao invés das medidas de metro e quilo, se usa as de pés e onça. Um povo fleugmático, meio distante ,que para namorar com as esposas pede com licença e ao terminar diz : muito obrigado ! Onde já se viu uma “ingrizia” dessas? No Brasil, perdoem-me as mulheres, nós perdemos de goleada. Mulher aqui é pior do que maracanã em roça de milho. E algumas línguas que conheço deveriam certamente só circular por aí, livremente, com porte de arma fornecido pela polícia federal. Convenhamos que os homens, uma vez ou outra, fazem alguns comentários leves e despretensiosos, mas fofocar mesmo, amigos, definitivamente, por aqui, não é coisa do nosso gênero. Desde a Bíblia que esta verdade é presente. A ordem para o primeiro despejo da história, a expulsão dos jardins do Éden, aconteceu por conta de um fofoquismo desenfreado entre Eva e a serpente. A esposa de Ló virou pedra de sal porque não conteve a curiosidade e virou-se para observar a destruição de Sodoma e Gomorra, contrariando a ordem de Deus. Certamente, depois iria bater com a língua entre os dentes por aí contando com detalhes o que havia acontecido. Até a gravidez angelical de Maria motivou um fofoquismo desenfreado. Talvez por isso mesmo, em Matheus, tenha Cristo logo alertado : “De toda declaração sem proveito que os homens fizerem prestarão contas no Dia do Juízo; pois é pelas tuas palavras que serás declarado justo e é pelas tuas palavras que serás condenado.” Não quero nem imaginar o tamanho das penas e das filas na porta do inferno no dia do julgamento derradeiro.
Bem , amigos, e vou terminando por aqui antes que vocês concluam que isto, mais que uma crônica, é uma grande fofoca. É que a crônica é, certamente, o gênero literário mais propenso às futricas. E, já que toquei fogo no circo, é melhor ir escapando de fininho. Mexi na caixa de marimbondos e vou acabar na mira de um sem número de fofoqueiras e dos seus ferrões pontudos, que isto aqui num é a Inglaterra não, meu senhor !
J. Flávio Vieira

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