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Os mortos da nossa felicidade – Por: Dr. José Flávio Vieira


Neste 31 de março faz exatos quarenta e cinco anos que se instalou a revolução militar no Brasil, com a deposição do presidente João Gullar. Uma plúmbea nuvem negra cobriu o Brasil por exatos 21 anos. Congresso fechado, cassações, censura prévia, perseguições políticas, tortura e morte de simples adversários do regime. Criaram-se o pânico e a paranóia. O saldo foi terrível : mais de 2000 civis mortos ou desaparecidos , pessoas presas sem qualquer acusação plausível, o aborto de muitas gerações de lideranças estudantis sob o domínio implacável do coturno e do fuzil. Sem falar num número incontável de mutilados física, mental e espiritualmente pela tortura. Como se dizia , na época, a partir de duas pessoas conversando a polícia já considerava concentração e , mais de três, passeata.
O regime de terror fez despertar na alma dos brasileiros sentimentos antagônicos e a população civil dividiu-se, rapidamente, entre subversivos, indiferentes e dedos-duros. Todos passaram a ser suspeitos de todos, mesmo com prova em contrário. Os que viveram aqueles tempos de chumbo percebem, claramente, o valor da liberdade e ,hoje, imersos na paz alcançada, já têm dificuldade de contar aos filhos os difíceis e espinhosos caminhos trilhados desde 1964.Armadilha do destino : os nossos maiores bens espirituais só mostram definitivamente seu valor quando os perdemos.
Com distanciamento , hoje, após tantos anos, é mais fácil se depreenderem algumas lições da ditadura. O culto da verdade única é uma falácia. Alguns dos nossos ilustres presos e perseguidos cratenses mostraram-se, com o tempo, grandes cidadãos brasileiros : Dr. Marcos Cunha, Valdenor Farias, Ernani Silva, Dr. Raimundo Bezerra, Luiz Cláudio (“Bola Sete”), Sílmia Sobreira, Seu Elói Teles, Dr. Welligton (Ton-Ton),Juvêncio Mariano e tantos outros. Para decepção dos nossos alcagüetes famosos, os comunistas cratenses não comiam criancinhas, apenas sonhavam com um idílico mundo onde os meninos pudessem se alimentar melhor. Depois , a censura apenas estimula a criatividade das pessoas e fica patente que é impossível exercê-la de modo efetivo. Nada de bom floresce sob a ditadura, é que partindo , logicamente, de premissas falsas , jamais ninguém se pode acercar da verdade.
Creio que foi Silvio Rodriguez que ,em uma das suas mais famosas canções, dando graças pela liberdade em que vive agradece àqueles que deram sua vida pela felicidade das outras gerações : “Los muertos de mi felicitá”. Após quatro décadas, imagino que seria importante lembrar aqueles nossos irmãos que , arriscando a vida , lutaram por um país melhor e mais justo. Abandonaram os lares, a comodidade da vida familiar, a vidinha previsível que todos nós levamos e partiram para a luta. Recordemos que hoje, quando falamos o que bem entendemos nas esquinas, quando reclamamos do governo na imprensa livremente, quando não temos a defesa cerceada, devemos muito a estes esquecidos e abnegados que sacrificaram anos de estudo, de vida profissional e tantos e tantos, a própria vida para que hoje a gente pudesse gozar de um benfazejo clima de liberdade.
Em Crato é preciso exaltar o nome de dois gigantes que honraram o nome dos nossos conterrâneos revolucionários de 1817. O primeiro, Aécio Gomes de Mattos, líder estudantil em Recife, preso nos anos 70 e que perdeu vários anos da Faculdade de Engenharia . Ainda hoje ele tem seu nome lembrado no Restaurante Universitário daquela Universidade. O outro : João Roberto Pinho, filho do Cel João de Pinho que já fora este prefeito em Crato. João Roberto integrava um dos Partidos proscritos pela pseudo-revolução e que teve pesadas baixas: o PCBR. João passou nove anos na clandestinidade, jogando para o alto toda a vida estudantil. Após a anistia fixou-se no Rio como artesão e vinha periodicamente ‘a terrinha. O destino lhe foi ingrato e já com os louros da liberdade conquistada faleceu, precocemente, ainda nos anos 80. O Crato esquece-o como fez com outros heróis verdadeiros. Em nome de toda minha geração, hoje, passados quarenta e cinco anos, agradeço a eles pelo inconformismo, pelas lições de que é preciso lutar por aquilo que se acredita e , mais, que para fazer nascer um mundo mais respirável e respeitável faz-se mister usar o fórceps.Obrigado, de coração, por terem trocado o sofrimento de vocês por nossa felicidade ! Lutaremos para ser dignos da liberdade que vocês nos ofertaram !

J. Flávio Vieira

Morre o compositor Maurice Jarre

29/03/2009 – 20h38


PARIS, França, 29 Mar 2009 (AFP) – Maurice Jarre, compositor de trilhas sonoras de filmes que se tornaram míticos e fizeram a história do cinema, como Lawrence da Arábia (1962), “Doutor Jivago” (1965), e Passagem para a Índia, (1984) faleceu na madrugada deste domingo, aos 84 anos de idade, em Los Angeles (Estados Unidos), anunciou à AFP seu filho, Jean-Michel Jarre, confirmando a notícia divulgada pelo site Purepeople.Maurice Jarre nasceu em 13 de setembro de 1924 em Lyon, na França, e compôs mais de 160 partituras cinematográficas para grandes diretores como John Frankenheimer, Alfred Hitchcock, John Huston, Luchino Visconti e Peter Weir.Famoso pelas trilhas sonoras de grandes sucessos de bilheteria, foi vencedor de três Oscars, quatro Globos de Ouros, dois BAFTA, GRAMMY, ASCAP. Possui uma estrela na calçada da fama em Hollywood Boulevard. Além de suas composições para cinema e teatro ele também compôs ballets, concertos, óperas e cantatas.Maurice Jarre começou a se interessar pela música na adolescência, contra a vontade da família. Estudou percussão, composição musical e harmonia no Conservatório de Paris.Em 1961, foi indicado pelo produtor Sam Spiegel para trabalhar com David Lean no filme Lawrence of Arabia. Inicialmente a música seria composta por três artistas, mas acabou totalmente nas mãos de Jarre. Depoise, passou a colaborar com mais três filmes de David Lean: Doctor Zhivago, Doutor Jivago, Ryan’s Daughter, A Filha de Ryan e A Passage to India. Esses filmes também lhe renderam muita popularidade.Gostava de utilizar muita percussão em suas trilhas, chegando a incluir instrumentos étnicos como a cítara em Lawrence of Arabia, e a fujara em A Tin Tambor. Nos anos 80 incluiu arranjos eletrônicos em sua música, e chegou a compor uma trilha totalmente eletrônica para o filme The Year of Living Dangerously (O ano em que vivemos em Perigo).

Gêmeos – Por: Dr. José Flávio Vieira


Os gêmeos parecem estar definitivamente na mídia. Têm se tornado o assunto da atualidade. Primeiro os de Pernambuco , fruto do estupro de uma adolescente , que terminaram numa polêmica mundial depois da autorização de abortamento por parte da justiça brasileira e a interferência desastrada de D. José Cardoso , Arcebispo de Olinda e Recife. Recentemente outros gêmeos , igualmente, tomaram de assalto a imprensa mundial. Em São Paulo um casal de lésbicas pretende registrar gêmeos no nome das duas mães. Explique-se : Munira Khalil El Ourra não vai dar à luz mas é mãe de duas crianças que devem nascer até o início de maio próximo. As crianças se desenvolvem na barriga da sua parceira Adriana Tito Maciel, mas ela também é mãe. Como isso é possível ? Através de métodos de fertilidade in vitro foram retirados em laboratório óvulos de Munira, que foram fertilizados com sêmen recolhido em um Banco de Sêmen e, depois, implantados no útero de Adriana. A rigor, biologicamente, as duas são mães dos gêmeos. É amigos — apertem aí os cintos ! — a outra notícia de gemelaridade vem da Espanha. Esta talvez até mais estarrecedora. Trata-se de Ruben Noé de 25 anos. Ele é um transexual, nascido com o nome de Estefânia Corondonado. Noé ou Estefânia nasceu com órgãos masculinos e femininos e ainda os mantém como no nascimento. Criado em um orfanato, namora atualmente a espanhola Esperanza Ruiz. Noé resolveu engravidar e, como tem útero, o fez através de inseminação artificial e espera gêmeos para setembro. Pensa em se casar com Esperanza e registar os meninos no nome de ambos. Depois do parto pretende fazer a cirurgia para ablação definitiva dos seus órgãos femininos e usar hormônios masculinos para recuperar a antiga forma de varão. O caso de Noé assemelha-se ao do transexual americano Thomas Beatie que teve uma filha no ano passado e encontra-se novamente grávido.
Talvez estes gêmeos não se tornem tão famosos como alguns dos seus antecessores : Rômulo e Remo , Cosme e Damião, ou os mais recentes de Angelina Jolie e os de Fátima Bernardes. Mas existem alguns sinais que eles vêm anunciar um novo tempo. Primeiro acordamos para o fato da complexidade da família no mundo atual. Longe vai aquele tempo da célula familiar rígida e constituída por um pai, uma mãe e muitos filhos. Hoje a organização da família é muito mais complicada. Envolve filhos de diferentes casamentos, pais, padrastos, mães, madrastas, sogros e sogras vários, avós e avôs tortos e de linha direta, cunhados e cunhadas múltiplos. Não bastasse isso cada dia se torna mais freqüente o casamento ( ainda não legalizado , por enquanto) de pessoas do mesmo sexo, envolvendo filhos adotados ou, no caso de Noé-Esperanza e Munira-Adriana, filhos biológicos. E todos temos que nos preparar para essas mudanças inevitáveis. É preciso se despir dos antigos e arraigados preconceitos para não ser atropelados por eles. A sociedade precisa se adequar aos novos tempos , nas suas leis, nos seus códigos, nas suas ações cotidianas. Imaginem Munira e Adriana buscando registrar os filhos no nome de duas mães , será permitido? E se mais adiante, resolvem se separar, quem deterá a guarda dos filhos ? E se por acaso o dono do sêmen utilizado na fertilização resolver reivindicar o direito de pai, como se resolverá essa pendenga ? No caso de Noé, ele é mãe e pai do filho ao mesmo tempo, como será feito o registro dos seus gêmeos ?
Uma outra realidade bem clara nos bate à porta. O Século XX com um impulso fenomenal nos rumos do conhecimento humano e da Ciência tornou obsoletos todos os Códigos de Ética . Vivemos um vazio deontológico. Os Códigos da Bioética, do Bio-direito, da Moral e dos Costumes, os Códigos religiosos mais que quaisquer outros, não conseguem acompanhar a avassaladora realidade dos novos tempos. Descriminalização das Drogas, Fertilidade In Vitro, Clonagem, Transgênicos, Direitos de Minorias, Desospitalização dos pacientes psiquiátricos, Eutanásia, Aborto, Pesquisa –tratamento com Células Troco, Manipulação genética de embriões, Eugenia, controle de Armamento Nuclear, são apenas alguns pequenos desafios do último quartel de Século. Os desafios são tão grandes que ninguém se atém mais a questões que nos parecem menores. Quem , neste mundo de meu Deus, além do papa, proíbe o uso de camisinhas aos filhos? Quem, fora os Testemunhas de Jeová, se preocupa com as transfusões de sangue ? Quem ,além dos rabinos, discute a circuncisão no nascimento ou a ingesta de carne suina? Quem considera pecado, hoje, fora do dogmatismo da igreja, o uso da pílula ou da laqueadura de trompa ou da vasectomia ? Se repararmos bem, todos os códigos já não respondem a nossas questões básicas, se é que um dia já responderam. Hoje é impossível tentar encontrar em qualquer código uma resposta definitiva para os desafios da modernidade, como se se tratasse de uma receita de bolo.
Mais que nunca precisamos nos afastar do relativismo da ética e buscar uma visão mais universal e, antes de tudo, estabelecer um vai-e-vem reflexivo com toda a sociedade. Se eu me prendo ao meu relativismo sou obrigado a aceitar o relativismo do outro e o relativismo na ética é um pântano, entrando nele, nunca mais se consegue escapar da sua areia movediça. Claro que qualquer comunidade pode estabelecer suas regras de conduta internas, desde que em comum acordo com todos seus membros. Ninguém, no entanto, tem o direito sagrado de criticar regras estabelecidas por outros povos, usando critérios histórico-culturais diferentes. E, antes de tudo, ninguém tem o direito de interferir no estado, seja de que maneira for, no sentido de empurrar de goela abaixo seu código pessoal para outras pessoas que não fazem parte da mesma comunidade.
Talvez os gêmeos que ultimamente têm nos despertado para os terríveis desafios éticos dos novos tempos queiram nos dizer bem mais. A humanidade toda está grávida de uma nova verdade e esta prenhez, amigos, é gemelar, de quíntuplos, sêxtuplos, ou infinítoplos e os gêmeos, possivelmente, não são univitelinos. Os novos rebentos, as nova verdades, não serão únicas e indissolúveis e terão a carinha do pai : este tempo amorfo e eternamente mutável.

J. Flávio Vieira

O Atlas da Fé no Brasil – Por: Dr. José Flávio Vieira

Escritor francês André Malraux profetizou: “O século XXI será religioso ou não será.” Acertou quem percebeu ênfase na primeira opção e detecta, hoje, campos polireligiosos nos quatro cantos do mundo. Em alguns casos, como no Oriente Médio, esses campos viram arenas de disputas políticas a pretexto da defesa da fé. Em pé de guerra ou de forma pacífica, a crença religiosa vive a experiência do igualitarismo e da diversidade, uma exigência moderna do Ocidente.
No Brasil, onde confessionários, hóstia sagrada, vestes imponentes, anjos, santos e altares, rituais e símbolos da Igreja Católica sempre se confundiram com a história da religiosidade, a alternância de credo chega a transformar a sociedade. No início do século XX, quase 100% dos brasileiros se diziam seguidores do Vaticano. Cem anos depois, o catolicismo segue como maioria absoluta, mas o maior país católico do mundo entrou mesmo na rota da diversidade religiosa do mundo globalizado.
Atlas da filiação religiosa e indicadores sociais no Brasil, assinado pelos professores Cesar Romero Jacob e Dora Rodrigues Hees, da PUC-Rio, e pelos pesquisadores franceses Philipe Waniez e Violette Brustlein, associa pela primeira vez a cartografia à religião para jogar luz sobre a fé brasileira. Reúne 400 mapas, além de tabelas, gráficos e análises dos movimentos que levaram a Igreja Católica a perder em nove anos quase dez pontos porcentuais em seu rebanho: de 83,3% em 1991 para 73,9% em 2000. O Atlas identifica em que territórios e condições
Demográficas e sociais vem ocorrendo a transferência dos fiéis para as correntes evangélicas e para o grupo dos “sem religião”, que subiu de 4,7% para 7,4% da população. A debandada se concentra nas periferias dos grandes centros, na zona rural e nas fronteiras agrícolas, áreas com um fenômeno histórico em comum: a atração de migrantes que se tornam vítimas do desenraizamento cultural e do abandono do poder público.
“Há mais de dez anos a Igreja discute a diversidade e sabe que perderia fiéis nesse processo, mas não contava com uma diminuição tão acelerada. Durante 90 anos, de 1890 a 1980, perdeu dez pontos porcentuais. Na última década caiu mais de um ponto por ano”, compara Jacob. Com base nos dois últimos censos do IBGE, o estudo mostra e analisa as transformações sócio-religiosas em mapas federais, estaduais e metropolitanos. É um instrumento revelador para os estrategistas das religiões que disputam os fiéis – ou, em alguns casos, os eleitores. Em função da mistura inédita de fé e religião na campanha de Anthony Garotinho (PSB-RJ) nas eleições presidenciais, os pesquisadores cruzaram os dados sobre os votos do ex-governador e constataram que os lugares onde a Rede Record – controlada pelo bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus – tem mais retransmissoras coincidem com as maiores concentrações de pentecostais e com os melhores desempenhos do candidato. Ele teve menor votação nos locais onde o Brasil é mais católico.
Religião
Se os pentecostais cresceram de 6% para 10,6% em nove anos, o Atlas mostra que o avanço não se deu de forma homogênea. Na maior parte da região Norte e em grande parte do Centro-Oeste, eles chegam a mais de 16% da população, enquanto a Igreja Católica perde mais de 16 pontos porcentuais. A Igreja se mantém firme na zona rural, porém cada vez mais esvaziada pelo êxodo, bem como nos núcleos das capitais, com melhores indicadores sociais. É no interior do Nordeste que a influência do catolicismo permanece mais viva. Continua forte também na maior parte de Minas Gerais, Santa Catarina, no sul do Paraná e no norte do Rio Grande do Sul.
Os adeptos da tese de que há uma conspiração contra a soberania brasileira na Amazônia encontram um terreno fértil nos mapas, que detectam na região uma influência crescente de religiões que reúnem numerosos adeptos nos Estados Unidos, especialmente os missionários batistas, adventistas e da Assembléia de Deus. As duas primeiras são classificadas como tradicionais, enquanto a Assembléia, a maior das pentecostais, apresentou em áreas do Amazonas, Pará e Amapá um crescimento de mais de dez pontos porcentuais. “Não gosto de teorias conspiratórias, mas não sou ingênuo de achar que elas não existem. A região tem a maior reserva de água doce do mundo”, ressalta o pesquisador Jacob. No Nordeste, é visível a entrada dos pentecostais pelo oeste do Maranhão, litoral de Pernambuco e sul da Bahia.
As outras religiões que compõem o mosaico da diversidade estão presentes especialmente nas metrópoles, mas não interferem na batalha estatística entre católicos e evangélicos. Isso pode ser explicado, segundo os autores do trabalho, pela própria falta de interesse dessas religiões em ampliar seus domínios. O islamismo, a religião que mais cresce no mundo, não é significativo no Brasil: tem apenas 27,2 mil seguidores. É uma presença menor do que a do judaísmo (87 mil) e a do budismo (214,8 mil). Os seguidores da umbanda e do candomblé somam 515 mil e curiosamente não estão concentrados na Bahia, mas no Rio, São Paulo e Porto Alegre. Os espíritas lideram o ranking dos menores, com 2,3 milhões concentrados em São Paulo e no Rio.
Com a globalização, maior acesso à informação, à tecnologia e a respostas científicas para antigos mistérios divinos, era de se esperar que o mundo se distanciasse da religião. Mas não é o que acontece. “As pessoas buscam mais o sentido da vida e esse é um caminho natural para a religiosidade”, diz Regina Novaes, antropóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto de Estudos da Religião (Iser). Outro fator explica mais nitidamente o poder de atração das igrejas evangélicas sobre os setores mais carentes da população: a auto-ajuda e a congregação social. “É a chave dos pentecostais”, afirma a antropóloga. Para ela, os evangélicos falam da vida real e de soluções para os problemas cotidianos, enquanto o catolicismo remete a salvação para depois da morte. É muito importante, também, o atendimento personalizado. A pregação pentecostal individualiza os fiéis: “Você é o escolhido por Deus.”
A operária aposentada Maria Pereira Rodrigues é um retrato evangélico no Brasil, migrante e desenraizado. Ela e o marido, Constantino Rodrigues, ambos de 54 anos, se mudaram há três décadas de Minas Gerais para Guarulhos, periferia da Grande São Paulo, onde trocaram o catolicismo pela Igreja Internacional da Graça. “Eu sofria de uma tosse alérgica que não me deixava dormir e consumia metade do meu ordenado em remédios. Fui a um culto da igreja e uma semana depois já não sentia nada”, conta Maria. Na esteira da “cura” ela levou para os cultos o marido, os dois filhos e as noras. O Atlas identifica uma categoria de trabalhadores predominante entre os pentecostais: a empregada doméstica. “O perfil deste grupo é de não-brancos com menor escolaridade e menor renda. Chama a atenção o alto porcentual de mulheres que trabalham como domésticas. Já os empregadores são, em maioria, católicos”, explica Jacob.
Vida nova
A identificação da empregada doméstica alagoana Maria das Dores Vieira da Silva com a Assembléia de Deus foi quase imediata. “Antes eu frequentava pagode, bebia e chegava na segunda-feira estragada. Tinha uma vida desregrada, minha alegria era passageira. Na igreja, mudei de vida e hoje tenho felicidade permanente” diz. Maria frequenta um templo em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Lá ela reza, se diverte e faz uma espécie de terapia. Trabalha em Ipanema, zona sul carioca, na casa da capixaba Martha Barroso, que, reforçando a tese, é católica. As duas, patroa e empregada, são o revestimento pacífico e predominante hoje nas relações entre os grupos religiosos. “Eu adoro ser católica, mas respeito as outras opções. Percebo que a igreja evangélica supre a vida social da Maria”, diz Martha.
Por coincidência, Martha e Maria moram no Rio de Janeiro, identificado pelo IBGE como o Estado de maior pluralismo religioso. O comerciante carioca Angelo Roberto de Siqueira Neto é a própria tradução da diversidade. Ele nasceu católico há 58 anos, fez a primeira comunhão e seguiu a tradição até a adolescência, quando se tornou mórmon. Depois, passou a questionar tudo e virou ateu. Na idade madura, se converteu ao espiritismo kardecista, que frequenta até hoje sem abandonar suas investigações filosóficas. Admira o budismo e faz meditação.Durante os meses em que morou na Bahia, conheceu o candomblé e a umbanda. Tudo é equilibrado pelo tai-chi-chuan, uma arte marcial com base espiritualista. “Praticar várias religiões só mostra que tudo leva ao mesmo lugar: a Deus.”
Se o avanço dos pentecostais se dá principalmente entre os mais pobres, moradores da periferia e migrantes, o catolicismo se mantém praticamente intacto na outra ponta, os brancos de renda mais alta e maior nível de escolaridade. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, 50 anos, médico e pertencente a uma tradicional família de Pindamonhangaba, interior do Estado, é um expoente do catolicismo. Ele e a mulher, Maria Lúcia, 51 anos, frequentam aos domingos, com os três filhos, uma igreja no Morumbi, onde têm seu apartamento. São devotos de Nossa Senhora Aparecida. Em discursos e palestras, o governador costuma citar frases de São Tomás de Aquino e Santo Agostinho. Uma de suas preferidas, de Santo Agostinho, diz: “Prefiro os que me criticam porque me corrigem aos que me adulam porque me corrompem.”
Como a família Alckmin, a maioria dos católicos é tradicional nos costumes. A experiência religiosa moderna, no entanto, tende a construir novos e flexíveis conceitos. A tese consta da pesquisa Desafios do catolicismo na cidade: pesquisa em regiões metropolitanas, realizada no ano passado pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris). O trabalho, coordenado pela socióloga Sílvia Regina Fernandes, detecta anseios como o da atualização da Igreja Católica. É, por exemplo, o caminho da Renovação Carismática, que atrai muitos jovens. “Há uma tendência moderna em considerar como privadas as questões ligadas à sexualidade”, conclui a pesquisa. Ou seja, os católicos querem cada vez mais autonomia em relação a assuntos de foro íntimo, como casamento, métodos contraceptivos e opção sexual, temas que o Vaticano tenta manter sob o controle de suas rígidas tradições.
Na pesquisa do Ceris, grande parte dos católicos é a favor do segundo casamento (62,7%), do sexo antes do casamento (43,6%) e do divórcio (60%). Segundo Sílvia, “eles esperam que a Igreja promova debates e oriente, sem imposições”. Da mesma forma, o brasilianista John Burdick, que nasceu em Massachusetts (EUA) e viveu na Baixada Fluminense na década de 80, diz em seu livro Procurando Deus no Brasil que o “modelo da religião única deixou de ser satisfatório”. Em seu trabalho antropológico, Burdick flagra os católicos em migração para o pentecostalismo ou a umbanda. Ao fim de tudo, a constatação é de que religião, hoje, é um mercado livre. Do lado bom tem a palavra livre e do ruim, o mercado.

(Fonte Amai-vos)

Bento XVI critica na África uso da Camisanha para evitar AIDS

Juan Lara.

Yaoundé, 17 mar

Bento XVI chegou hoje a Yaoundé, onde expressou sua oposição ao uso da camisinha como forma de combater a aids e denunciou que a África sofre “de maneira desproporcional” com fome, pobreza e doenças, e que seus habitantes “imploram a fortes vozes” por reconciliação, justiça e paz. Onze anos depois da última visita do papa João Paulo II à África, Bento XVI pisou hoje pela primeira vez no continente, e, já no avião que o levava de Roma até Yaoundé, primeira escala de sua viagem de uma semana que inclui também Angola, falou sobre um dos grandes flagelos africanos: a aids, que afeta 27 milhões de pessoas. O pontífice afirmou que a doença não pode ser combatida somente com dinheiro – apesar de ter destacado que os investimentos para lutar contra a aids são necessários -, nem “com a distribuição de preservativos, que, ao contrário, aumentam o problema”. Segundo especialistas, esta foi a primeira vez que um papa disse publicamente a palavra “preservativo”. Até agora, o termo usado mais correntemente era anticoncepcionais. A aids, segundo o papa, pode ser vencida com “uma humanização da sexualidade, uma renovação espiritual, que comporta uma nova forma de comportamento de uns com os outros”, e através da amizade, disponibilidade e amor aos doentes. A capacidade de sofrer com os que sofrem é a resposta oferecida pela Igreja, acrescentou o papa, que explicou que a “dupla força” da religião é, por um lado, renovar o homem, e, por outro, dar a ele força espiritual e humana, para um justo controle de seu corpo. Em Yaoundé, o pontífice foi recebido por dezenas de milhares de camaroneses, que, usando roupas coloridas, cantando e carregando cartazes, aclamaram Bento XVI, que se deslocou no papamóvel, para facilitar ser visto pelos fiéis. No aeroporto, o papa foi recebido pelo presidente, o católico Paul Biya, e sua esposa, que usava um conjunto rosa brilhante e um chapéu grande com cruzes desenhadas. Após ressaltar que chega à África como pastor, “para confirmar meus irmãos na fé”, Bento XVI passou a falar totalmente sobre os problemas que afetam o continente. O pontífice denunciou que a África sofre, “de forma desproporcional”, com fome, pobreza e doenças, e assegurou que seus habitantes “imploram a fortes vozes” por reconciliação, justiça e paz. Ele condenou o tráfico de humanos, especialmente de mulheres e crianças, crime que considerou “uma forma moderna de escravidão”. “Em um continente que, no passado, viu tantos de seus habitantes serem cruelmente raptados e levados ao outro lado do oceano como escravos, o tráfico de seres humanos, especialmente de mulheres e crianças desarmados, se transformou em uma forma moderna de escravidão”, disse o papa ao presidente camaronês. Bento XVI ressaltou que, em um tempo como o atual, “de escassez de comida, de desordem financeira e de modelos desordenados pela mudança climática”, a África sofre desproporcionalmente, e um número cada vez maior de habitantes é afetado pela fome, pela pobreza e pela doença. Nesse ponto, o papa pronunciou três “nãos”: não a novas formas de opressão econômica ou política, não à imposição de modelos culturais que ignoram o direito à vida dos ainda não nascidos – em alusão ao aborto – e não às rivalidades interétnicas e inter-religiosas. Sobre a questão do aborto, o pontífice destacou a necessidade de, em Camarões, serem defendidos “claramente” os direitos dos não nascidos. Ele pediu a reconciliação dos povos africanos e destacou que, em Camarões, onde os católicos são um quarto da população (quase cinco milhões), a Igreja está preparada para levar adiante sua missão em favor da saúde e da união dos habitantes do continente. Em relação ao tema sanitário, destacou o trabalho dos centros católicos e considerou elogiável que os doentes com aids recebam tratamento gratuito em Camarões. Bento XVI disse ainda que os cristãos não podem ficar calados perante a dor ou a violência, a pobreza ou a fome, a corrupção ou o abuso de poder. Amanhã, o papa se reunirá com os bispos e com representantes de outras denominações cristãs. O motivo da primeira viagem do pontífice ao continente é entregar às Conferências Episcopais da África o “Instrumentum laboris” – documento de preparação – do 2º Sínodo para a África, que será realizado em outubro no Vaticano. A escolha de Yaoundé deve-se a que Camarões é um país considerado uma África em miniatura, com mais de 200 etnias. De Camarões, Bento XVI irá à Angola, onde comemorará em Luanda o 500º aniversário da evangelização desse país.

Por: Dr. José Flávio Vieira

Desmantelos – Por: Dr. José Flávio Vieira

O que existe mais nesse mundão de meu Deus — e o Brasil talvez mereça entrar no Guiness , neste item específico — é cabra desmantelado. Nossa mitologia nordestina está eivada deles : Canção de Fogo, Pedro Malasartes, João Grilo e até “Camões”, um sujeito da rede rasgada, como se diz por aqui, e que nada tem a ver com o nosso poeta clássico. No Crato tivemos um desses célebres traquinas : o Padre Verdeixas ( 1803-1872) , além de outros tantos como Zé de Matos, Zé Bedeu, Jotinha, Chico Soares, Melito, Luiz Sarmento , conhecidos sátiros e boêmios desta Vila de Frei Carlos. Foram eles que emprenharam de irreverência a história desta cidade e que terminaram por lhes insuflar vida. Como se repetindo o Gênesis , houvessem soprado cuidadosamente no primitivo boneco de barro que esta pequena cidade representava. Basta observar cuidadosamente a nossa língua caririense para perceber como temos expressões típicas para caracterizar este chamado “desmantelo” . Ele é da “ paia voou”, “ da rede rasgada” ; “é carga torta”, “ mais desmantelado do que vôo de anum”; “do que rastro de carroça”, “mais desmantelado do que galope de cururu”.
O desmantelamento caracterizado tão bem nessas expressões traz consigo várias possibilidades de interpretação. No geral são aplicadas àquelas pessoas que fogem das regras gerais pré-estabelecidas pela sociedade, pelo senso comum. No fundo, as tradicionais regras e etiquetas firmadas no nosso convívio criaram-se para padronizarem-se comportamentos e condutas. No fundo, pretendemos que todos ajam seguindo uma receita de bolo. Isso pode, aquilo não é permitido. Qualquer cristão que por acaso fuja a esta padronização corre o risco imediato de entrar na lista dos “desmantelados”. Nesta lista, geralmente, encontram-se as figuras mais interessantes e são justamente elas que conseguiram mudar os rumos do universo. O bando dá uma sensação de segurança, mas uma manada não pensa, apenas segue adiante, com toda a tropa , olhos no chão, sem prestar muita atenção na estrada e no destino. Para transformar o planeta precisa-se da contestação, daqueles que escaparam do bando perigosamente e, assim, conseguem ver múltiplos ângulos e facetas dos desafios que dia a dia nos batem à porta. Mário Benedetti , poeta uruguaio, definiu muito bem esta revolução em um de seus poemas : “ Só quando transgrido alguma ordem / o mundo se torna respirável”.
Os mais viajados devem lembrar-se de uma outra típica expressão caririense para o alegado desmantelo: “Mais desmantelado que o PTB de nova Olinda”. Ainda morando em Recife, mostrava-me curioso com a origem desta expressão. Sei perfeitamente que estes ditos vão entrando no cotiadiano do nosso linguajar, se vão tornando quase que automáticos e vão-se perdendo , na poeira do tempo, os rastros de sua origem. Um dia perguntei a Elói Teles, que fora filiado ao partido ainda nos idos dos anos 50, de onde diabos tinha surgido esta frase. Ele me elucidou através de uma história muito verossímil.
No início dos anos 60, o PTB estava em pleno topo, com João Goulart na presidência. O PTB de Crato havia agendado uma convenção do partido em Nova Olinda , no início de julho. Partiu de Crato a cúpula do partido encabeçada pelo saudoso Dr. Ferreira de Assis. Ao chegarem a Nova Olinda estranharam a calmaria na cidade: imaginavam uma recepção mais festiva com fogos e banda cabaçal. Dirigiram-se à sede do trabalhismo local e a encontraram de portas cerradas. Que poderia ter acontecido ? Resolveram , como derradeira opção, procurar a residência do presidente local do PTB. Em lá chegando, perguntaram pelo mais alto potentado do partido. A esposa informou que João tinha ido para a roça, não lembrara a convenção. Dr. Ferreira, então, solicitou-lhe a chave da sede e a pediu para ir até ao roçado avisar que a cúpula do PTB o estava esperando lá. Voltaram , então, à sede , na perspectiva de tentar organizar uma reunião com quórum mínimo , de última hora. Ao abrirem, no entanto, a sede , desvaneceram-se todas suas esperanças. João havia emprestado o pequeno auditório para uma quadrilha de São Pedro. O ambiente estava imundo, com uma quantidade imensa de bandeirolas cruzando diagonalmente a sala. Na parede, uma blasfêmia política : o venerado retrato de Getúlio Vargas encontrava-se de cabeça para baixo. João chegou depois de uma hora, totalmente embriagado e entrou com voz engrolada gritando :
— Viva o papa Getúlio Varga !
A direção regional do PTB, cabisbaixa, deu meia volta e retornou caladinha danada, sem que ninguém na cidade percebesse o mico que haviam pago. Na estrada, por fim, longe dos olhos dos adversários, alguém comentou a frase que se perpetuaria na história do Cariri:
— Mas menino ! Que bichim mais desmantelado esse PTB de Nova Olinda !
E eu vou terminando por aqui esta croniqueta de sábado que já vai ficando tão desmantelada quanto o partido da nossa vizinha cidade.

J. Flávio Vieira

Show Tributo à Patativa de João do Crato – Sexta Feira 20/03

Tributo à Patativa

O que esperar quando, sob as luzes de um palco, o roçado poético de Antônio Gonçalves da Silva traça um paralelo com a performática urbanista de João do Crato? No mínimo uma constatação: a de que a Arte transcende conceitos e comportamentos. Neste tributo ao emblemático poeta que encantou gerações com um linguajar puro, questionador, verdadeiro e universal, mas que para alguns ficou marcada com o ferrete de poesia brejeira, sertaneja, cabocla, João do Crato, desafiador que é e sempre foi, irá provar-nos que regionalismo é um mero ponto de vista, porque a universalidade de uma criação artística da-se pela compreensão dos valores que ela representa ou simboliza em qualquer ponto do globo e que, portanto, não se restringe às origens.João do Crato que é cobra criada nos palcos, cantará as trovas de Patativa sem a necessidade de retratar o estereótipo regionalista antevisto. Será a grande obra do imortal Antônio Gonçalves ao modo João do Crato, numa releitura arrojada. Com vocalizações gorjeadas, o pássaro da cidade qual João do Crato incorpora e trará há público um conjunto de obras compostas pelo próprio homenageado e por compositores que, com tamanha propriedade, absorveram a essência e o legado poético da pessoa simples de Antônio Gonçalves da Silva, o “PATATIVA DO ASSARÉ”.

Ave Show!

Texto de Pachelly Jamacaru
Foto – Dihelson Mendonça

SERVIÇO:Armazém do Som Com João do Crato
Onde? SESC Crato
Quando? Dia 20/03
Que Horas? 20h
ENTRADA FRANCA




Lampião em Matozinho

Os acontecimentos mais épicos da história de Matozinho dizem respeito à guerra instaurada quando da passagem do Bando de Lampião por ali no início de 1938. Nesta época a Vila ainda era um pequeno arruado em torno do Rio Paranaporã. A História Oficial de Matozinho, narrada de boca em boca, conta da resistência heróica do seu povo contra os cangaceiros do famigerado facínora, no que ficou conhecido como “Fogo do Sabugo”. Reza a história que a cabruera ia em direção à Bahia quando resolveu passar em Matozinho no sentido de conseguir víveres e , também, se reabastecer nos saques para enfrentar os sertões e os macacos. Ao passarem em Bertioga, no entanto, tamanha havia sido a baderna e a carnificina que um dos sobreviventes escapou. Chegando esbaforido e assustado à Matozinho, avisou do perigo iminente. Matozinho, então, se armou e entrincheirou esperando Lampião com unhas e dentes. Quando tiveram a vila cercada pelo bando, três dias depois, estavam preparados e resistiram bravamente por mais de uma semana. No final haviam sido abatidos mais de dez matozenses e Virgulino , botou o rabinho entre as pernas e fez bunda de ema depois de perder dois cangaceiros : “Suvela” e “Currupio”.
Uma comunidade não existe sem sua mitologia. É ela quem dá a cola necessária para manter a união da tribo, para lastrear seu passado. O “Fogo do Sabugo” fazia-se as Termópilas de Matozinho. Lembravam de seus heróis todos os dias: O Coronel Serapião Candeia que comandara a resistência – o Leônidas tupiniquim– e “Zeca do Ané de Couro”, um feitor de sela e arreios que matara “Suvela” e “Currupio”, numa luta corpo a corpo, mas terminara morto por “Corisco”. Estes personagens , ícones de Matozinho, incensavam-se como deuses da braveza do seu povo. Contava-se ainda a versão que , depois daquela derrota frente aos matozenses, Lampião e o Bando saíram de crista baixa e, por isso mesmo, terminaram tendo a lamparina apagada, logo depois, em Angicos. A valentia de Matozinho contribuíra , assim, decisivamente, para o fim do ciclo do cangaço no Nordeste. Pouco importava que a história escrita simplesmente ignorasse aqueles feitos e nem sequer mencionasse os nomes de Suvela e Currupio, os mitos se movem e voam independentemente da nossa vontade, fazem parte de uma outra dimensão da nossa vida , a interface onírica.
Com o passar dos anos, os últimos remanescentes do “Fogo do Sabugo” foram pouco a pouco sendo dizimados por um outro cangaceiro bem mais impiedoso: o Coronel Tempo. À medida que as testemunhas oculares do episódio começaram a ser abatidos sistematicamente, a história , claro, tomou matizes novos e nuances mais heróicas e dramáticas se foram acrescentando. A ficção carece sempre se mostrar mais real que a própria realidade. Dias atrás, chegou a Matozinho a notícia mais palpitante dos últimos meses. Santino Parabelum, o último dos sobreviventes do cerco, iria visitar Matozinho. Desde o acontecido, nos idos de 1938, partira para São Paulo e lá se estabelecera e criara os filhos e netos. O velho provara ser um guerreiro: resistira ao outro cerco terrível , o de São Paulo e estava vivinho da silva e lúcido, trepado no alto dos seus 93 anos. A vila se engalanou para receber seu soldado de Pompéia. Quando a sopa parou na Praça da Matriz, Santino pulou de dentro lépido e esquipando. A Cabaçal de Mestre Ambrósio atacou um velho coco chamado de “embuá”. Mais de três dúzias de fogos riscaram os céus. A festa se estendeu por mais de cinco dias e “Parabelum” agüentou firme este outro cerco, já tantos anos depois.
Passados os dias, Matozinho começou a querer reabastecer seu caldeirão de mitos e procurou Santino , pedindo mais detalhes sobre a época histórica do “Fogo do Sabugo”. O velho pareceu não entender o assunto e pediu que lhe traduzissem melhor. O Prefeito Sindé Bandeira o lembrou : queriam saber mais da guerra de 38, quando Matozinho enfrentou Lampião e seus cabras e os tangeu para Angicos. Parabelum, então, trouxe uma versão bem menos heróica. O Bando nem sequer tinha chegado à vila. O único contato do Capitão e seus comparsas , havia sido com dois habitantes dali e nem um tiro se disparara: Serapião Candeia e Zeca do Ané de Couro. Santino, então, trocou o “Fogo” em miúdos:
O Cel Serapião estava na sua fazenda, no fim do dia, junto com muitos moradores. Já soubera do zum-zum-zum : a possível passagem dos facínoras por ali. Lampião os viu de longe e deixou o bando todo escondido. Veio só, devagarzinho, disfarçado. Quando chegou defronte da casa, como uma pessoa comum, deu com Serapião cagando uma goma danada:
— Se esse Virgulino cair na besteira de vir aqui por Matozinho, minha gente, vou dar tanto sabacu nele, que o homem vai chegar na Bahia sem lamparina, sem pavio e sem querosene.
Neste momento, virou-se e deu com a figura estranha, montada no cavalo e perguntou, com cara feia:
— Quem é o Senhor? Se apresente, cabra, se num quer apanhar.
Nisto viu a tropa de cangaceiros chegar junto do Capitão e ele responder:
— Sou Lampião, cabra. E você quem diabo é ?
Serapião molhou as calças imediatamente e respondeu com voz trêmula e gaguejante:
—- Eu sou… eu sou… o finado Serapião…
Já Zeca do Ané de Couro, continuou Santino, para uma platéia pasma , encontrava-se sentado na frente de sua casa costurando um gibão e nem percebeu a chegada do bando de cangaceiros, com o Capitão à frente. Só asuntou quando sentiu uma dor terrível no pé direito. O cavalão de Virgulino esbarrara à sua frente e pisara justamente em cima do seu pé. Instintivamente, com a dor, Zeca levantou a cabeça e foi soltando o palavrão:
—- Filho da pu…
Só não completou o impropério porque deu com a cara de Lampião que o fitava com aquela cara de quem amola a faca antes da capação. Santino então completou:
—- Filho da pu…: puxa, Capitão, seja bem vindo a Matozinho! Capitãozinho, o senhor podia me fazer um favor? Será que o senhor poderia pedir ao seu cavalinho para tirar o pezinho dele de cima da minha pata ?
Depois do relato de Santino, a vila começou a se penalizar , estranhamente com ele:
— Meu Deus, vejam como é a vida ! Um homem valente daqueles e , de repente, pegou a dizer arizia, ficou gagá, gagá !

J. Flávio Vieira

A Sã Vocação de Abidoral – Por: Flávio paiva

Flávio Paiva

Diário do Nordeste – 05/03/09
Passei em frente ao prédio em que eu morava e deu vontade de perguntar na portaria se havia alguma correspondência. Pois não é que estava lá um pequeno envelope com um CD do Abidoral Jamacaru, com carimbo dos correios datado de novembro do ano passado ! Agradável surpresa. Ao chegar em casa, armei a rede e fui escutar as novas desse compositor caririense e universal como gosto de escutar música, deitado, em silêncio.O que há de maravilhoso em Abidoral é que ele é um artista único, com narrativa sem palavras inúteis, sem silêncio que não seja para dizer que podemos pensar alto. Escuto o seu trabalho sem procurar dissecar gêneros musicais nem reduzi-lo a análises das fichas técnicas do seu canto, apenas aceitando que ele não tem pressa alguma até mesmo em suas urgências.É que Abidoral não é apenas um cantautor. Ele sempre me pareceu uma espécie de pássaro com asas de energia solar, com um quê de réptil alado, que saiu do mar que há milhões de anos banhava o vale do Cariri para sobrevoar a Chapada do Araripe em busca de horizontes perdidos para além da pós-modernidade.A música, a poética e a força artística que expressa em sua obra também não parece recomendar separação de tempo e espaço em sua vida. Ele é. Simplesmente é. O que é. Inteiro em seu vigor e fragilidade e pleno em seu poder de ser sensível. Apenas ser torna o artista mais intenso do que qualquer representação que assume o papel do real.Em qual história Abidoral estaria? Ele tem os elementos de muitos lugares, de muitas gentes, de muitas lendas. O que ele conta, o que canta, revela percursos duradouros de uma cultura que vara os anos por trilhas invisíveis, que acontecem sendo ou não vistas, sendo ou não reconhecidas.Abidoral canta como se estivesse sozinho, mas sabendo que na mata tem outros pássaros. A sensação que dá ao escutar o seu disco é que ele está no alto da árvore mais alta da Chapada, com os olhos fixos nas nuvens, ajudando a tecer as manhãs de sonoridades silvestres. Acontecendo, porque acontecer é mais importante do que ser classificado.Como dá contentamento ouvir um artista verdadeiro, um artista da natureza e não apenas da cultura. Sua composição faz parte mesmo é da paisagem e não somente dos palcos e dos estúdios. Relaciona-se com o mundo pela organicidade dos seus elementos constitutivos. Faz isso onde estiver, pois existe dentro e à parte da realidade percebida.Música por música, vou escutando o novo trabalho, intitulado Bárbara, um aceno afetivo do autor a Bárbara de Alencar (1765 – 1832), heroína da Confederação do Equador, movimento nordestino antimonarquista do século XIX. Dona Bárbara tem a força dramática da Senhora Carrar, personagem brechtiniana da Guerra Civil Espanhola, que pega nos fuzis por amor aos filhos.Em ´Discurso´, velha composição que um dia Abidoral me pediu para mostrar à Cássia Eller (1962 – 2001) e ela quase gravou, ele arrepia diante da prepotência e escarra na retórica dos que pensam que os outros não pensam: ´Você me acua e eu lhe mostro os dentes´. Eu tinha uma esperança de ver essa música gravada porque ela é muito forte e muito bonita. Ei-la, finalmente, diante dos meus ouvidos, com direção musical do lendário guitarrista Lifanco.Cheio de metáforas, por ser também uma delas, Abidoral diz que descobriu que uma vida tem mistério nas histórias que ouviu da cor de uma romã. Ele gosta das cores e gosta de acordar sereno porque, diz isso em uma velha composição, que ´a cor mais bonita é bem cedo´. Com figura extraordinária ele se descreve no poemário do cotidiano sob o céu que ´é redoma da terra´ e se faz tão regional quanto o fabulista Esopo (620 – 560 aC).Fico sempre muito contente quando tenho a oportunidade de apreciar obras que não fazem esforços para expressar que são frutos da habilidade, do talento e da emoção honesta de que as produz. Abidoral Jamacaru gorjeia e esse gorjear define a sua personalidade artística. A literalidade integral com que chega à percepção de quem está aberto a percebê-lo é testemunha de que ele não é apenas um músico.Os sons que saem do disco de Abidoral anunciam um achado, um enxuí com mel de uma florada rara de arte pura. Escutá-los é experienciar uma rica interpretação da simplicidade de viver desaguando na biologia sonora pouco observada pelos olhos áridos de uma sociedade que vem perdendo a tolerância para manifestações férteis de originalidade. A fragilidade da volúpia consumista não permite que se escute além da música, que se escute a força vital que a faz existir.A gente enxerga a natureza no canto de Abidoral porque ele tem os atributos cristalinos das águas de nascente. Se jogado nas poças toldadas da competição fonográfica, entra em desaparição. E na água turva não dá para a gente se vê. Não se trata, portanto, de um canto forçado à conformidade da razão, mas à liberdade da paixão. É um canto poético, daqueles que não aceitam mudar o que são apenas para satisfazer os ditames da ordem do mundo, que não deixam de ser, por pressão de sua época.Conheço o Abidoral há muitos anos. Desde que passei a morar em Fortaleza. E lá se vão mais de três décadas. Temos duas parcerias, uma, ´Estrelas Riscantes´, gravada por ele no disco ´O Peixe´ (1998), e outra, ´E se a gente for para o recreio com uma bola bem colorida?´, interpretada pelo Marcelo Pretto no CD que acompanha o meu livro ´A Festa do Saci´. Nesse tempo todo aprendi a admirá-lo por sua vinculação intrínseca com a natureza.Os altos e baixos da rotina nunca afetaram a sua conformidade com o mundo natural. Abidoral está permanentemente com ar de quem está ciente de que ninguém nem nada pode lhe tirar a vontade de cantar, seus movimentos, suas inclinações. Flui no tempo como um pássaro que cruza o céu à nossa frente e depois não mais o vemos. Mas ele segue voando e é bonito vê-lo reaparecer.Vai e volta, tem simpatia universal, mas ama o seu lugar, os jardins que cuidou, as flores, as amizades. Essa condição não lhe deixa espantado com nada. Abidoral é o típico cidadão livre, aquele que vive sob a orientação da liberdade de viver, desligado do apego ao desnecessário, ao que não encanta. Movimenta-se em um campo aberto de saber, de sentimento criativo, no qual a solidão vira música, a alegria vira música, a indignação vira música.Desde o elepê ´Avallon´ (1986), quando a cena da música plural brasileira conheceu ´Flor do Mamulengo´ (Luis Fidelis), que Abidoral Jamacaru mostrou que mesmo fixando sua obra em fonogramas, manteria soltas as amarras da rotina pelas flores-de-seda da imaginação. E continua com esse espírito de pluma em ´Bárbara´ (2008), levando sementes aos campos da mente, como diz a canção ´Bandoleiro´, de Luli e Lucina.Quem canta dá um sinal. A vida social da natureza é uma rede de sinais emitidos para dizerem coisas, para encantar, para assustar, para avisar que vale a pena viver. Dos sinais luminosos dos vagalumes aos jatos de tinta dos polvos, tudo comunica a vida. E o que diz o canto de Abidoral? Identificação? Fuga? Ataque? Alerta? Jogo? Como ave, como animal, como humano, ele fala em suas mensagens que canta porque existe.Na música ´Vida´, ele sintetiza bem o que estou querendo dizer: ´Coabitamos o mundo / Eu a pantera e a corsa / Tu o tatu e o guará / Ele e a acácia de cacho / Nós e o perfume da flor / Vós suspirando com vida / Eles girando na terra´. Abidoral, repito, é um ser da natureza e não somente da cultura. Como os pássaros ora canta longo e elaborado e ora faz chamados breves e simples. É corrupião e rolinha, mas é também bem-ti-vi cantando em pleno vôo.

flaviopaiva@fortalnet.com.br

www.flaviopaiva.com.br
Postagem: Dr. José Flávio Vieira

Libertas Quae Sera Tamen

12/03/2009 – 20h38

CNBB afirma que arcebispo de Olinda não excomungou envolvidos no aborto de criança em PE


Da Agência Brasil

Em Brasília

O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Dimas Lara Barbosa, afirmou hoje (13) que o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, não excomungou nenhum dos envolvidos no aborto da menina de 9 anos violentada em Alagoinha (PE). Segundo Barbosa, o arcebispo apenas lembrou uma norma existente no direito canônico. Segundo o secretário, o estupro não é punido com excomunhão porque não está previsto nas leis da igreja.
Dom Dimas Lara Barbosa lembrou que a prática do aborto ocasiona excomunhão instantânea. “Em alguns casos especiais, se prevê esse tipo de pena, em que a pessoa pelo simples fato de cometê-lo, se coloca fora da comunhão”, disse, após o encerramento da reunião do Conselho Permanente da entidade.”As pessoas que trabalham contra o nascituro, conscientemente, se colocam fora da comunhão da igreja, porque elas já não comungam com o pensamento cristão, que é em defesa da vida”, afirmou Barbosa.Barbosa preferiu não opinar sobre a excomunhão das pessoas envolvidas no aborto. “Não sabemos quem tinha consciência ou não do ato”, disse. Entretanto, para ele, a pessoa menos responsável é a mãe da menina, pois ela agiu sob pressão ao autorizar o aborto.O presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha, afirmou que a excomunhão não tem relação com condenação eterna. “Excomunhão não é sinônimo de condenação ao inferno. Digo isso por causa do imaginário popular, quando alguém é excomungado parece que foi condenado ao inferno.” Ele explicou que o ato de excomungar alguém é a punição de um delito e pode ser reconsiderado pela igreja se a pessoa não infligir novamente o código canônico.Segundo ele, a repercussão da excomunhão dos médicos envolvidos mudou o foco da situação e esvaziou o debate da sociedade. “Esse aspecto tão repugnante do que foi o crime praticado, se diluiu diante da história da excomunhão”, disse.

Do Site UOL

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