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Escrito por Marcos leonel
Regionais
16 jan 2009, 11:05
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A história sem embustes
Muito mais infecciosa e nociva do que a interpretação bronca da história é o assujeitamento ideológico que se faz dela. O embuste ideológico da formação do estado brasileiro atende a vários interesses escusos, devidamente dissimulados pela santidade e pela pilantragem dos que estão no poder ou daqueles que dele querem se assenhorar. Eis uma questão de durabilidade e conservação. No intuito de separar o dito do não dito, a pústula da posteridade, bem como o prazo do vencimento, nada melhor do que uma leitura apurada do livro “Os donos do poder – Formação do patronato político brasileiro”, de Raymundo Faoro, esse sim, um verdadeiro patrimônio imaterial da cultura brasileira.
Verdadeiramente essa é uma obra plural, com verdadeiros desdobramentos dentro da história, da sociologia, das ciências políticas, da antropologia e da economia. O livro “Os donos do poder” segue uma trajetória típica de uma obra referencial para todos aqueles que pretendem conhecer a fundo a formação do estado brasileiro, sem embustes, diga-se claramente. Raymundo Faoro desenvolveu uma larga pesquisa e tornou pública a sua tese em 1958. A primeira edição desse livro tinha pouco mais de duzentas páginas, sendo que o autor fez algumas revisões e acréscimos ao longo dos anos, sendo que em sua última edição, em 2001, ela atingiu 913 páginas, que tornaram imensas as suas propriedades.
Faoro tem um estilo próprio, com um poder de contextualização peculiar, bem como um poder imagético fora da órbita tecnicista. Como toda obra referencial tem suas próprias referências, foi em Max Weber que Faoro instituiu o seu ponto de partida para sua tese, valendo-se principalmente dos conceitos de “patrimonialismo”, “estamento” e “capitalismo dirigido”, além de outros conceitos, largamente utilizados por Weber em sua monumental obra “Economia e Sociedade”. Assim, a tese defendida por Faoro e acolhida por um número extremamente significativo de estudiosos do mundo inteiro, foge da concepção marxista da formação do estado brasileiro através de uma herança imperial de vassalagem, bem como do dualismo defendido por Celso Furtado e seus simpatizantes.
Em seu caminho paralelo ao cânone e fundamentado em aprofundamentos históricos, além do mapeamento de documentos e a ordenação simplista de fatos, – expedientes típicos dos historiadores escravizados pelo apelo das bijouterias midiáticas e pela miopia de patranhas das pesquisas engendradas em folhetins lidos nas salas de esperas de proctologistas – Faoro faz um abalisado estudo crítico da formação do estado português, desde a sua fundação com a dinastia de Avis, para chegar ao Brasil colônia, Brasil império, com o Brasil república de Getúlio Vargas. Faoro analisa detalhadamente como surgiu e como recrudesceu o patrimonialismo da monarquia portuguesa, em que o estado é patrimônio do rei, absoluto em sua engorda de autoritarismo, ficando abaixo apenas de Deus, em que pese aí o complexo aparelhamento de dominação do coloio igreja e estado.
Depois de estabelecer as raízes e a expansão do patrimonialismo tradicional em Portugal, Faoro chega ao patrimonialismo modernizador da era pombalina na segunda metade do século XVIII, revelando em minucias a máquina opressora do estado portugues através da horda parasitária da aristocracia transformada em uma elite burocrático-técnica a serviço do estado, sendo ela mesma propriedade inconteste do rei, alimentada e dominada pela generosa distribuição de títulos e benefícios imediatos, criando assim uma extensa e podre rede de corrupção despótica, em que o famoso “Livro da Capa Verde” – Regimento Diamantino – é um indelével exemplo da crueldade tirânica que estruturou a ganância e a bandidagem da monarquia portuguesa no Brasil.
Quando Faoro analisa a transição do patrimonialismo modernizador para o patrimonialismo estamental liberalista do Brasil imperial, contextualizando todo o arcabouço de tramóias, canalhices e usurparções geridas pela chegada da família real, pelo repatriamento carcerário do rei, pela regência mórbida e derrocada frente à república, até chegar aos estamentos e cooptações políticas da velha e nova repúblicas, tem-se a nítida revelação de que as fundações de um modelo político com origens feudais, a partir da posse de terras, com seus mecanismos monárquicos de manutenção do poder é apenas um simulacro da realidade do patronato político brasileiro. Percebe-se facilmente, sob a nitidez crítica de Faoro, que a nefasta práxis de apoderação do patrimônio público, através de roubalheiras, acordos e politicagens, por parte dos representantes públicos, é na realidade uma herança portuguesa, com certeza, viabilizada pela perenização dos estamentos oriundos dacriação do estado portugues e da colonização brasileira.
Obviamente a falta de uma estratificação mais detalhada sobre os vários tipos de estamentos, como uma exposição aprofundada da participação da igreja, das armas e do sistema educacional, desde a criação e manipução de um cânone, até os desdobramentos desses tentáculos de manutenção do poder nos ensinos básicos, não mancham absolutamente em nada o mérito indiscutível dessa obra. Vale salientar, também, que o tempo de leitura e o aparato intelectual para a abordagem dessa obra fantástica, vão muito além do necessário para se abordar periódicos canhestros como a veja, cadernos provincianos do Diário do Nordeste e toda uma gama de anedotários do google e cia.
Por: Marcos Leonel
Escrito por Marcos leonel
Outras
6 jan 2009, 13:33
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As Claras – Bá Freire
Música brasileira para brasileiros gringos
por Marcos Leonel
Um disco repleto de brasilidade e muito sentimento musical é o que você encontra em “Às Claras”, terceiro disco de Ba Freyre, esse paraibano de coração caririense e voz internacional. Dono de harmonias sofisticadas e melodias que extrapolam em sensibilidade, Ba reaparece em disco com a maturidade própria de quem está há muito tempo na estrada.
Ba tem uma ligação muito forte com o Cariri. Aqui ele fez parte da grande banda “Ases do Ritmo”, com uma formação inesquecível: Cleivan Paiva, Hugo Linard, Demontie de Lamone, Neno Batera, Fanca, Jairo Starkey e Bill Soares, que depois faria parte do “Papa Poluição”, lendária banda de rock-rural. Depois Ba liderou um dos grupos mais promissores da música nordestina daquele período: “Aves de Arribação”, participando com destaque em vários festivais.
O grupo contava então com essa formação: Ba Freyre; Cleivan Paiva; Izanio Santos, que também fez parte do “Ases do Ritmo”,; Demontier de Lamone; e Tapioca (Audizio Gomes), também conhecido como Audizinho, que também fez parte dos Ases do Ritmo e do grupo “Nessa Hora”, que acompanhava Abidoral Jamacaru.Depois de conseguir ganhar prestígio no meio artístico de São Paulo, o grupo acabou se desfazendo e cada um seguiu seu caminho artístico.
Ba lançou seu primeiro disco, “Nação Cariri”, depois de desenvolver uma sólida carreira de shows e parcerias importantes em São Paulo, como Tom Zé e Zeca Bahia. Como todos de sua geração, sofreu na pele a imensa dificuldade para lançar o trabalho em vinil, pois o mercado era extremamente fechado e os custos eram exorbitantes. Mesmo assim lançou esse disco com composições com o seu parceiro maior Rosemberg Cariry.
Depois de muitas andanças Ba viaja para Israel e lá consegue se destacar em diversos festivais de jazz, devido à sua forte formação musical brasileira. Lá ele formou sua banda e fez carreira reconhecida nacionalmente naquele país e lançou seu segundo disco, sendo esse ao vivo. Já com um nome feito e uma reputação de cantor e compositor de latin jazz, Ba Freyre desenvolveu sua carreira pela Europa, participando de vários festivais, chegando a abrir um show de Gal Costa.
“Às Claras” é uma espécie de balanço geral de todas essas experiências. É um disco que tem bossa, samba, xote, bolero, funk e baladas, além da étnica “Bahia Lugar de Amor”, faixa que fecha o disco, apontando para uma mistura de ritmos e culturas. Todas as faixas do disco respiram, inspiram e transpiram a brasilidade musical de Ba Freyre, formado na escola nordestina de Luiz Gonzaga e Hermeto Pascoal, bem como no delírio harmônico da bossa-nova. O disco conta com o apoio dos músicos Ítalo Almeida, teclados e arranjos; Cainã Cavalcante, violões, guitarras, cavaquinhos e violas; e Miguéias de Sousa, baixo.
Os destaques vão para as faixas “Acender”, um sambossa de harmonia elegante e melodia sofisticada; “O canto da volta”, um baião irresistível, cheio de manhas e malandragens de quem conhece esse ritmo com identidade legítima; “Toma lá dá cá”, um sambafunk com groove classudo, cheio de grife brasileira; “Deusa do Oriente”, uma pegada étnica com swuingue policultural, com ecos da África e de Cuba; “Céu da boca”, uma parceria minha e dele, nascida na mansidão do Parque Ibirapuera, de São Paulo, em uma tarde inesquecível: pelas cores, pelos brilhos, pela viagem, e pela amizade selada em grande harmonia.
“Flor da Magia” é uma faixa que merece destaque especial, pela sua harmonia e pela sua melodia, além da interpretação inspirada de Ba Freyre. A letra é de Zeca Bahia, autor de várias músicas inesquecíveis, como “Porto Solidão”. O tratamento acústico dado a essa composição faz dela uma das grandes canções de 2008. Essa é uma grande composição, rara em nosso cenário atual e que confirma o talento nato de compositor desse paraibano de Souza. Além de todo esse talento indiscutível, Ba é um músico extremamente moderno e um cantor de mão-cheia, com uma afinação perfeita e um timbre de voz que recebeu com agrado a generosidade do tempo. É com uma satisfação imensa que eu digo: que bom rever você meu amigo!
Escrito por Marcos leonel
Outras
28 dez 2008, 09:43
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O daguerreótipo
Para Valquíria foi fundado
O imediato monumento movediço
Entre o nascer e o pôr do sol
A narcose da história provisória
Construía e desconstruía em devoção
Laços de lascívias civilizadas
Em uma linha de produção impecável
Com referentes empacotados em pactos
E signos enlatados em latências
Com prazo de validade estável
Ela não quis e preferiu um
Canteiro de obras que imanava
Corredores e intumescia o derredor
E fazia chover gasolina em um pasto deposto
Nas retinas opostas das vacas canonizadas
Vapores moviam motores em
Diacronia e sincronia placentária
Ela contemplava esse novo atavismo
E ofertava os resíduos para sua prole
Em um templo erguido na sala de estar
Ela não quis e preferiu combater
A solidão com a solene transição
Dos metais preciosos para o cartão de crédito
Com a degradação dos degraus a
Linguagem tornou-se autônoma e surgiu
A necessidade de venda para os olhos
Para um sono tranqüilo surgiu antagônica
A necessidade remarcada do escuro
Tudo precisa ficar imóvel entre a
Mobília e a paisagem imobiliária
Poema dedicado a Dihelson Mendonça
Um conhecedor transcendental da
linguagem secreta da música
Escrito por Marcos leonel
Crônicas
22 dez 2008, 19:41
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Crônica da Cidade Imóvel
Agora, com esse nevoeiro próprio do período chuvoso, é possível o viajante vislumbrar, em descendo a Chapada do Araripe, a cidade do Crato flutuando em meio às nuvens, com uma imensa âncora pendendo de uma das suas extremidades. Para o viajante mais atento, é possível perceber, acima daquela cidade que flutua, um reflexo difuso, como em negativo, de outra cidade, como se ali existisse um espelho côncavo permanente. Agora aquele viajante que realmente descer a serra e adentrar no âmago da “Princesa do Cariri”, descobrirá que no solo, prenunciando o obscuro, existe outra cidade do Crato.
O Crato é uma cidade prima-irmã da cidade de Laudômia, trazida a lume pela mente brilhante de Ítalo Calvino, no livro “As Cidades Invisíveis”. Assim como o Crato, Laudômia são três cidades em uma, uma dos não-nascidos, uma dos mortos e outra dos vivos. Assim como em Laudômia, no Crato, as três cidades são interligadas, elas interagem de forma que existe uma permanente ilusão de que não existe em hipótese nenhuma a possibilidade desse intercâmbio existencial. Essa ilusão é tão poderosa que cria a estranha sensação de uma cidade única, poderosa, gloriosa, onipresente, completamente alheia à intensa convivência com a cidade dos mortos e a cidade dos não-nascidos. Convivência essa que se dá simultaneamente.
A cidade dos vivos, no Crato, se desprendeu da sua essência transbordada de primazia, no solo, e agora flutua bela e transcendental, por sobre uma arquitetura cinza, inebriada pelo marrom paralisante do conforme e da linhagem. O Crato essencial é uma cidade deveras ocupada, que trabalha incessantemente na manutenção e expansão do material ferroso que dá peso e significância à imensa âncora atrelada a uma das extremidades do Crato, a cidade dos vivos, que flutua, pairando indelével sempre na estranha possibilidade do seria.
A usinagem dessa âncora é feita ostensiva e orgulhosamente. Na cidade dos mortos, a essência da tradição, da família e da propriedade tem a seu dispor residências, repartições públicas, entidades privadas, fundações sócio-culturais, confrarias inusitadas e uma série de outras segregações mantenedoras da ordem, que fornecem material necessário para a usinagem desse inconsciente coletivo, logo transformado em material de largo poder de imobilização, devido ao seu peso irrefutável.
Nessa cidade mórbida existe uma eterna veneração pelo passado, existe uma entronização do tradicionalismo de forma que todo o formol produzido no mundo parece sair dessa cidade. As moedas de troca na convivência social do Crato essencial é a linhagem genética, são os títulos de propriedade e de formatura, bem como as senhas distribuídas na partilha do poder, em que só a alguns é dado a abrangência de compra da mercadoria mais barata que existe nessa cidade, o voto. Essa cidade tem a redoma opaca da religiosidade, legitimada pela presença suprema do bispado, para encobrir os escândalos políticos, econômicos, históricos, privados, públicos e notórios dos seus orgulhosos habitantes, nobres faladores da vida alheia.
A cultura dessa necrópole está fincada nos rincões do Parnasianismo, onde reinam solenes Olavo Bilac e Rui Barbosa, com suas formas fixas patéticas e suas retóricas de bodega nobre. Sua concepção de cultura ativa é a concepção arcaica e achatada dos museus-velórios. Seus atos heróicos foram embalsamados no sorumbático período imperial. Suas referências de dinamismo estão enquadradas em pergaminhos cartográficos, da época do descobrimento. Seus livros são empoeirados e suas músicas foram preservadas em pianolas francesas, com todo o respeito à Inglaterra, para que não se crie aqui um pastelão melodramático, com a corte portuguesa como anfitriã bufona. Mas todos são de boas famílias, com tradição e credo confirmados.
Subindo pela âncora imensa em sua capacidade de estagnação, não como ratos excluídos desse esquematismo, fadado às bordas, mas sim como um rebelde em progressão invasora, o viajante se depara com o Crato que flutua, vivo, mas dormente em sua dolência induzida. Aqui a cultura é plural, embora imberbe, pois existe uma força provinda da manutenção, que impede vôos mais altos, apenas flutuações. Aqui a economia é furtiva, aos poucos a manutenção está perdendo as forças e está sendo implodida, mas o comércio, em alguns pontos, ainda fecha para o almoço e o que vem de fora tem mais valor, pois é assim desde o princípio, a cidade mórbida nunca produziu nada, uma vez que a renda é pública e o vilipêndio é um ato de esperteza. O Crato que flutua é universitário, mas não é pesquisador e nem cientista, é professor, que é chamado de tio, mesmo sendo doutor. É advogado, que é chamado de doutor, mesmo sem encontrar respaldo legal para isso. É médico, que é chamado de doutor, mesmo sem ter nem mestrado.
O Crato que flutua vive no cartão de crédito e no cheque especial, mesmo sendo tido como abastado. Mas é nessa cidade que existem aqueles sem tradição, sem propriedade e sem família, mas que vivem honestamente, que trabalham, que estudam, que pensam em mudar o futuro, que quer em deixar as suas marcas, mesmo sendo confundidos com ladrões, com descuidistas, com estelionatários. São grandes homens e grandes mulheres apequenadas pelo peso aniquilador da tradição, que não reconhece seus filhos bastardos. O Crato que flutua tem grandes escritores que não são lidos, tem grandes compositores que não vendem discos, tem grandes atores e diretores que não são assistidos, tem grandes artistas que não são reconhecidos. É esse Crato que é famoso no mundo inteiro pela sua cultura popular e pela riqueza natural de suas encostas.
Ou seja, o Crato que se vê, com uma grande âncora pendurada no pescoço, vive de aparências, pois o Crato essencial suga todas as forças, para poder manter viva a tradição. Já o Crato dos não-nascidos, aquela que vive de reflexos, é uma grande piada. Ela é a projeção das frustrações incontidas do Crato essencial, que imagina ser uma cidade poderosa, incólume, impávida, heróica, vitoriosa, nobre e diletante. É a utopia filosófica do que é sem jamais ter sido. É um grande jardim em que os pavões jogam xadrez e as ninfas bufam essências delicadas. O viajante que desce a serra e vislumbra a cidade que flutua, jamais reconhece de imediato os seus desdobramentos. Só se beber da sua água misteriosa.
Escrito por Marcos leonel
Outras
2 nov 2008, 18:35
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A cidade travestida
Katiúscia Priscila, Andressa Kelly, Tabata Regina, Amapola Toda Boa, Berta Lorena, Aline Grandona, Vera Virada, Veruska Bom Bom, são todos nomes de guerra, que trafegam em batalhas noturnas, nas transversais da cidade mais religiosa do Cariri. Em suas rondas noturnas, os travestis conseguiram dar a Juazeiro do Norte um toque de complexidade na maquiagem dessa cidade cheia de complexos.
Quando você se depara com aqueles pequenos grupos de homens transmutados, vestidos com a sensualidade do caricato, expostos à venda – ou troca -, estrategicamente espalhados em lotes demarcados nas esquinas do centro da cidade, você pode ver tudo, menos pouca vergonha, pois esse é um fenômeno que trata da menor escolha. Ali é a própria cidade em toda sua grande extensão. Ali é o processo dialético da cidade em sua urbanidade, em que ela exclui a sua cria bastarda, para depois incluí-la como expurgo em sua lista de traumas indesejados.
Não adianta soltar os cachorros. Não adianta organizar os exércitos da salvação em cruzadas histéricas da moral e cívica, em nome da honra do bem comum. Muito menos é pertinente apontar o dedo para a crucificação de um culpado, para execração pública através do maniqueísmo venal da provinciana mídia caririense. Pois entre um chupão de língua de um travesti e seu cliente desconfiado e a venda de uma falsa garrafa de água mineral benta em tempos de romaria, não existe distância nenhuma. Ambos são comércios. Ambos são frutos da permissividade, a mesma permissividade velada que existe no axioma maior dessa cidade: “aqui se ganha a vida”.
Os travestis existem em todas as grandes metrópoles. Até parece que eles fazem parte do processo de verticalização da cidade, como símbolos fálicos ao avesso, exibindo em sua desafiadora complexidade o desvio mutante da negação da masculinidade e alegoria infértil da afirmação feminina. Os apartamentos, os bares, a rispidez do asfalto, a astúcia do comércio, a tensão do tráfego e o dinheiro no bolso a qualquer preço, são coisas de macho.
Veruska Bom Bom, oferecendo seus silicones sem nenhum pudor, na esquina da rua São Pedro com a rua Do Seminário, é coisa de macho.
Essa cidade, como quase todas, é fatalmente feita para machos, machos dominantes. Da mesma forma assim são os bordéis com suas clientelas embriagadas; a música tosca e degradante que toca nos paredões de sons de 25 mil reais; a cachaça servida com buchada; o ramo da pirataria; a indústria da agiotagem; o futebol na tela clandestina; o amor bandido; o prazer proibido; a pistolagem; o superfaturamento; a sonegação de impostos; a cegueira da justiça; a soberba e a prepotência. São todas coisas de macho e são todas originadas na permissividade. São fatos e fatores dos mecanismos das relações sociais. São pedaços de sucatas que fazem parte do quebra-cabeça dos escombros da humanidade.
Não adianta prender Katiúscia Priscila e ter que soltar Berta Lorena. Não adianta atropelar Tabata Regina com um Honda Civic e ter que amparar pelo Sistema Único de Saúde a invalidez de Amapola Toda Boa. E nem de forma nenhuma amaldiçoar o travesti da esquina mais próxima tendo em casa filhas pródigas, parideiras, prestes a constituírem famílias ante um futuro sempre ameaçador. É preciso conviver sem permissividade. É preciso assistir, não como platéia de uma peça trágica, mas com um olhar de intervenção social.
É necessário que a sociedade, em parceria com os poderes públicos e as instituições não governamentais, atuem na transformação da cidade, antes que ela se torne definitivamente em um monstrengo urbano, sem saídas plausíveis para suas anomalias. O que está em jogo aqui não é a opção sexual em si, mas a prostituição em alto grau de agressividade, seja ela de qual opção sexual for. Para uma abordagem sensata do fenômeno, através do sistema de parcerias são necessários projetos sociais legítimos, que possam retirar essa venalidade sexual das ruas.
No entanto, o que se evidencia aqui são projetos sociais de fato e de direito, elaborados sob o signo da idoneidade e não determinadas parcerias entre organizações não governamentais e o poder público, em que o mesmo caráter de prostituição dos travestis impera. Esses tipos sociológicos são vistos largamente, rondando as instituições públicas com suas maquiagens pesadas, seus trejeitos exagerados, suas agendas lotadas de contatos descolados, e suas bolsas rodadas, prontas para repartirem as comissões.
De fato, a cidade em sua totalidade, não se traveste. Ela é autêntica em sua pluraridade. As suas transversais são próprias. Os olhares que recaem sobre ela é que são viciados em modelos prontos e bem embalados, vendidos sob a ética do comércio de quinquilharias dos seus pequenos e grandes mercados. A recusa não é própria da cidade. Isso é coisa de macho, que exorcisa o pecado segurando o saco, para que a inteligência não vaze e forme uma poça de lama, transformada em balneário pelos seus piolhos.
Escrito por Marcos leonel
Outras
19 out 2008, 13:07
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Juazeiro é uma cidade muito engraçada, cheia de piadas. Muitos não entendem seu senso de humor trágico. Definitivamente a culpa não é dela. Ela até que se esforça para ser entendida através de manifestações óbvias. Mas, se ninguém ri de suas anedotas, ela ri da gente, com sua gargalhada sonora e sua boca socialmente banguela. A favela que cresce nos arredores da Matriz de Nossa Senhora das Dores é uma de suas piadas sujas.
Quando uma quenga de pouco mais de vinte anos, usando mini-saia apertada, quebrando o buxo na canela, exibe a sua tabela de preços através do vermelho néon do seu baton da avon, encostada numa estaca que segura o barraco, ouvindo Aviões do Forró num micro-som fanhoso, a cidade também exibe ali suas malícias e seus malefícios, frutos das oportunidades que ela oferta e dos oportunistas que a infestam.
São as duas faces de uma mesma moeda. Dinheiro esse que corre léguas tiranas dentro e fora dos muros da cidade, às vezes demagogicamente ostentado, às vezes sorrateiramente cultivado. Assim cresce a Juazeiro do Norte dos contrastes. Sendo que vez por outra o passado e o presente se encontram nas esquinas, nos porões e nas salas mais requintadas. E é aí que se percebe facilmente o cinismo patético dessa cidade. Padre Cícero veio para acabar com a promiscuidade do entreposto Tabuleiro Grande. O tempo passou, Juazeiro do Norte saiu do Tabuleiro, mas o Tabuleiro não saiu do Juazeiro do Norte.
Se nesse mesmo espaço geográfico, de um lado existe o mais simbólico templo de devoção e fé dos romeiros, em que entre uma oração e outra, esmolas generosas são ofertadas em forma do dízimo voluntário, do outro lado existe o templo da promiscuidade, erguido com o poder dos interesses escusos, com pregos, papelão, restos de madeira, palhas, flandres e descasos e descasos, em que entre uma cachaça e outra, esmolas generosas são ofertadas em forma de arame farpado para curral. É nesse espaço geográfico em que a multidão, em tempos de romaria, se divide e se multiplica.
De acordo com o filósofo alemão Walter Benjamim, “na multidão o que está abaixo do homem entra em relação com o que impera acima dele e é essa promiscuidade que engloba todas as outras”. Isso é a pura verdade. Vale ressaltar, que a multidão, em sua comédia humana, enquanto massa, se apresenta invisível socialmente, em torno da coisa comum que aquele aglomerado expressa, estão ocultos os interesses privados, quase impossíveis de serem detectados de imediato. No entanto, sob um olhar mais atento, os mecanismos dessa risada irônica da cidade, que ridiculariza qualquer convívio entre o sagrado e o profano, vêm à tona.
É difícil de se acreditar em falta de visão política, que não vislumbra uma cidade turística, além de romeira. Também é difícil de acreditar na máxima de que não se pode solucionar o problema da noite para o dia, uma vez que todos os outros santuários de grande fluxo turístico conseguiram, sendo Aparecida o maior exemplo disso. Entender a tolerância para a continuidade dessa favela como uma manobra do espírito humanitário, em que todos têm o direito de sobreviver de alguma forma, é tão infantil quanto acreditar na fada dos dentes. É claro que a cidade ri de toda essa inocência, através dos trejeitos dos seus travestis, com seus sexos e jóias falsas.
É bem mais fácil de acreditar em um jogo de interesses menores, do que na “imposição de uma mazela social sem fim, culpa da desigualdade”. A permissividade da prostituição, da falta de fiscalização sanitária e da ocupação indevida do espaço, tem uma causa óbvia, e que foge das limitações da administração pública. Esse curral não é só mantido pela troca de favores e pela compra de votos. Existe aí uma troca de interesses públicos e privados, que a cidade esconde debaixo do braço, para alguns, para outros, debaixo do sovaco. Tudo, na realidade, é uma questão de postura, conta piada quem pode e ri quem deve.
Por: Marcos Leonel
Escrito por Marcos leonel
Outras
7 out 2008, 14:20
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O embargo das barricadas
Fui demitido sumariamente! Sem justa causa! A esperança me deu um pé na bunda sem pagar nenhum direito trabalhista e sem vestígios legais do seguro desemprego. Agora tenho uma família preste a ser esfarrapada. Estou demitido, mas sou trabalhador. A conspiração me espera. Ela é a última que morre. ”Busco agora um trabalho não assalariado, mas apaixonado”. Procuro pelas barricadas que urgem serem erguidas repentinamente com os paralelepípedos da restauração e à luz da igualdade.
Sou adepto da revolução. Aquela que atira, queima e bane. Aquela que troca o perdão pelo extermínio no paredão de fuzilamento. Sem crises espirituais, sem pirataria existencial ou culpas humanistas, venero uma horda selvagem armada até os dentes pelo bem comum e que espuma pelo canto da boca o refazer. A minha herança está selada pelo carimbo da rejeição, está protocolada nos arquivos das margens desse esgoto poderoso que corre a céu aberto, cheio de solenidades, em nome da microfísica do poder. Mas eu luto.
Vasculho as ruas e esquinas. Quero encontrar os levantes dos deserdados. A ira irrevogável dos terceirizados é o meu objetivo. É disso que eu preciso. Empregar a minha força de trabalho – o único bem que eu tenho – na utopia de desintegrar o poder dos dominantes, o tapete e trucidar a sujeira debaixo dele, digo exterminar. As trincheiras devem ser habitadas pelos retalhados, pelas vítimas de tortura da miséria e por todos mitigados pelo poder. Vejo que as moscas e as larvas solidificam a fedentina do poder. Vejo que o poder é um arremedo de próteses. Mas não vejo as barricadas que procuro e nem aqueles vomitados pela abastança.
As guerrilhas travadas pelos votos estão decompostas, fatoradas ao mínimo denominador comum. Já disse Walter Benjamim e agora vejo que tomam posições atrás dos sacos de areia e dos escombros, “os pobres que usam luvas, aqueles que farão fortunas”, ao pedirem esmolas ao poder, tal qual o doutrinador Blanqui, com suas luvas pretas. O choro pelos cadáveres agora é de lágrimas inférteis. O eleito e o não eleito são os mesmos. É quando reina a tréplica da réplica. As armas estão municiadas com balas de festim. O silêncio armou o seu concreto, fez uma blindagem para proteger a ditadura das malfeitorias, enquanto o povo ajeita a maquiagem diante do espelho, é hora de brilhar. O cinismo satânico é um belo adereço de carnaval.
Satã está sendo satirizado. Diante da institucionalização da roubalheira política, satã perdeu os dentes e a maestria da vileza. Sua capa vermelha está sendo replicada, virou arte de consumo. O seu sorriso devastador ilustra calendários de borracharias suburbanas. Seu vozeirão radioativo pode ser escutado em discos piratas de bandas impostoras de metal evangélico de pouco mais de dois reais. O poder pode ser derrubado, mas vai se recompor em seus fragmentos, como vilões alienígenas de filmes classe b. É quando o mesmo muda para ser ele mesmo, sem economia de fragmentos ou descontinuidades.
Das barricadas surge então a maior e mais poderosa prostituta do universo: a corrupção. Marx escreveu em “O Dezoito Brumário”: “Quando os puritanos protestaram contra a vida depravada dos papas…, o cardeal Pierre d’Aill trovejou contra eles: – Só o diabo em pessoa ainda pode salvar a Igreja católica, e vós exigis anjos!…” Só o roubo à propriedade, o perjúrio à religião, a bastardia à família, a desordem à ordem, podem salvar a sociedade – escrevia o pensador àquela época. Assim também é com a sociedade brasileira nessas eleições municipais. O satã pós-moderno demitiu a esperança, que chorosa molha a calcinha de tanto soluçar.
Agora, diante de papéis amassados, de bocas de urnas canastronas, de fiscalizações de compadres, conchaves de última hora e euforias dissimuladas pela vitória da honra, da família e do patrimônio público, andamos os três, com a desolação depressiva de uma demissão implacável: eu, a esperança e a revolução. Enquanto isso, Marx toma um cafezinho ali, recolhido ao passado.
Escrito por Marcos leonel
Crônicas
24 ago 2008, 11:02
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As visões de Veja
A revista Veja publicou recentemente uma extensa matéria sobre o ensino brasileiro, fundamentada em uma pesquisa que ela encomendou ao CNT/Sensus. Nessa matéria de capa a revista endemoniza o sistema educacional brasileiro e aponta o fracasso do ensino a partir de uma colocação dos nossos melhores alunos em um “ranking” mundial de 57 países, com um posto abaixo da qüinquagésima posição. Como sempre, em todas as matérias espetaculosas da revista, existem mais conotações do que denotações.
A revista Veja tem se notabilizado pela linha editorial investigativa, o tanto quanto pela sua irresponsabilidade em apontar o seu dedo sujo para alvos diversos. Por diversas vezes a sua falácia já foi comprovada. Em muitas matérias que visam o estardalhaço, o discurso de veja não passa de uma flatulência sorrateira de uma quiromante absorta em embaralhar suas cartas. Realmente os sistemas educacionais brasileiro e mundial tendem ao fracasso, mas não pelas razões apontadas pejorativamente pela revista, que se auto-intitula como a pitonisa educacional, baseada em estatísticas bastardas e ilhadas constatações de campo.
A conotação da matéria é que o fato de 90% de professores se acharem preparados para darem aula e 89% de pais com filhos em escolas particulares se darem por satisfeitos com o serviço prestado, constitui uma cegueira nacional, uma histeria abobalhada de despreparados, tanto professores como pais. Mas de parvo mesmo o que existe em demasia é a argumentação da revista, que atribui a culpa do fracasso dos alunos brasileiros em “competições” internacionais à doutrinação de esquerda a que eles estão submetidos feita por um batalhão de professores admiradores de Karl Marx. Mais hilariante do que isso é a própria “vidente profissional” achar que essa matéria irá suscitar uma lúcida e ampla discussão sobre o assunto.
O discurso mascarado da Veja, antes de tudo é mambembe, sem embasamento científico nenhum, muito menos coerente com o verdadeiro cerne da questão. Munidos de dados e jogadas ao acaso, os paladinos jornalistas autores da matéria, desfilam um batalhão de bizarrices fantasiosas, muito mais para o baile do vermelho e preto do Flamengo, com seus travestis tresloucados, do que para uma tentativa de texto jornalístico real. Verdadeiros disparates porcos foram jogados às pérolas.
A revista reivindica o tempo e a urgência da tecnologia globalizada como fatores preponderantes para um ajuste radical no compêndio pedagógico brasileiro, e no entanto não toca no assunto da grade curricular; no modelo arcaico de universidade; na metodologia de ensino, que beira o Iluminismo; e nem na dicotomia secular entre profissionalização e formação acadêmica de pesquisa, duas vertentes paralelas do conhecimento no processo de formação do aluno. Em detrimento a tudo isso e mais uma outra gama de implicações associadas, a revista preferiu dar ênfase a um fenômeno transversal, que nem desvenda e nem cega o caminho da aprendizagem: “o perigo da doutrinação de esquerda dentro das salas de aula brasileiras”.
“Muitos professores e seus compêndios enxergam o mundo de hoje como ele era no tempo dos tílburis. Com a justificativa de ‘incentivar a cidadania’ incutem ideologias anacrônicase preconceitos esquerdistas nos alunos”, afirmam os autores da matéria, em tom panfletário, muito mais protéticos do que patéticos, conotando como solução para as cáries do ensino brasileiro, uma dentadura postiça produzida em série, esculpida com a velocidade da luz pelo mais científico de todos os lasers do american way of life.
É claro que existe um anacronismo gritante na postura de esquerda de muitos educadores, que se valem de axiomas marxistas ultrapassados. No entanto, mais do que anacrônica é a postura macarthista utilizada pelos autores da matéria para deslegitimar uma doutrina e legitimar uma outra, embutida na ideologia capitalista de readaptação constante do indivíduo ao meio para não se tornar fraco, sem competitividade, que é a teoria da evolução das espécies, de Darwin. Vale salientar aqui que a campanha histérica empreendida pelo bufão senador Joseph MacCarthy, contra o pensamento de esquerda nos Estados Unidos, deu-se na década de 50, do século XX.
De lá para cá os Estados Unidos, educadamente munidos de alta tecnologia e armas, com seus alunos altamente preparados para o ingresso na economia de mercado, de monstruosa competitividade, construíram uma história alarmante de extermínio da natureza e de crimes hediondos em larga escala contra sociedades do mundo todo, em sua ensandecida cruzada política de “preservação” dos “princípios democráticos”. Nesse sentido a colocação de dados na matéria sobre citações de personalidades socialistas nas salas de aula, tais como “o guerrilheiro argentino Che Guevara, aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo”, é digna de um araponga da Agência Brasileira de Inteligência, infiltrado atrás das linhas “inimigas”, mas atrapalhado em seus conceitos na sua tentativa rabelaisiana de derrubar o “contra-sistema”.
Praticamente todas as universidades européias estão impregnadas com o pensamento marxista, bem como uma parcela significativa de doutores e docentes livres que ministram aulas nas universidades americanas. Da mesma forma essas mesmas universidades estão impregnadas com o cartesianismo reducionista e todas as velharias teóricas ultrapassadas do conhecimento ocidental, que tanto têm servido à concepção desenvolvimentista do capitalismo. Não existe nada de novo no ensino mundial que seja capaz de projetar o aluno para um futuro promissor no convívio social. O modelo continua o mesmo, com o agravante da transformação das escolas em empresas, e por contigüidade, a adoção da produção em série.
Há muito que não se educa. Isso vem desde o modelo enciclopedista de Diderot e D’alambert e o cientificismo positivista, em que a independência crítica foi substituída pelo chamado “pensamento lógico”, reivindicado pela pastelança da matéria. Esse modelo adestra, desenvolve habilidades emparedadas pelo cânone acadêmico. Quanto mais o aluno avança nos estudos, mais ele se torna especialista em diluir o pensamento alheio em suas menores partes. Enquanto isso ele perde a visão do conhecimento como um todo, sem nem chegar a um senso crítico. O que nada mais é do que a reificação do individualismo e a legitimação da competitividade. Essa é a exigência da cultura de massas, de quem esses jornalistas são filhotes, devidamente raciados por alguma pós-graduação. A cultura de massas não acolhe divisores, mas sim reprodutores.
Portanto, a dadivosa indignação dos autores da matéria sobre o ensino brasileiro é um embuste, não passa de uma cena de histerismo escatológico de uma prostituta traída por seu cafetão com uma prostituta bem mais velha. Os próprios jornalistas servem como exemplos do fracasso escolar e completa falta de perspectivas de solução. A Veja continua com seu encantamento de espia, mas só para broncos.
Escrito por Marcos leonel
Outras
15 ago 2008, 17:35
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Os Cabinha
Uma banda inteira
Qualquer tese de mestrado ou qualquer digressão doutorável se perde diante da grandeza cultural que é essa pequena banda de lata formada por meninos da Fundação Casa Grande, organização não governamental de gestão cultural de Nova Olinda. Os Cabinha é irreverência pura. É o princípio desorganizador da compartimentação cultural. É a sopa dividida ao meio pela mosca matuta, conduzindo o povo criativo em um êxodo de fuga da seca musical que se abate por essas plagas seminais.
Rodrigo Alves, Renê Nascimento, José Wilson, Arthur Diniz e Iêdo Lopes têm entre 9 e 11 anos e 330 mil anos à frente de muita porcaria circundante, oficializada pelo cânone das emissoras-pinico caririenses. Eles não tocam nenhum instrumento de verdade, são todos instrumentos de lata e papelão. Eles não têm afetação nenhuma de grandes estrelas, mas tornaram-se a grande
sensação musical do momento, apresentando o delicioso show “Música in banda de lata”, título tão criativo quanto o repertório de músicas próprias, apresentado em 45 minutos de pura diversão.
Essa meninada esperta dá suporte tecnológico para todas as etapas de suas produções musicais. Eles construíram seus próprios instrumentos, gravaram suas próprias músicas, pilotaram todos os equipamentos digitais e fizeram, eles mesmos, a mixagem do primeiro cd da banda. O show deles é mais do que mimésis. Eles podem fingir que estão tocando, mas nenhum público que os assista pode fingir que isso é cultura. Esse é o purgante que a arte contabilizada precisa para pensar melhor.
Eles foram mais longe ainda não só em palcos distantes, se apresentando em várias capitais e gravando com gente importante, como o novo cd que marca a volta do Aquarela Carioca, mas também na maneira de veicularem a sua arte. É possível baixar músicas deles no overmundo, no trama e no myspace. Além disso o cd da banda será vendido, com tecnologia SMD, a R$ 5 reais em máquinas da ONG Eletrocooperativa, instaladas em pontos estratégicos do país, dentro do projeto “Música livre e comércio justo”.
Isso é definitivamente mandar as lombrigas setoriais que invadem as instituições culturais pra casa do cassete. Isso é cultura viva, desempalhada, desprotocolada, desarquivada, desproporcionada, desempossada, destituída da imortalidade infértil dos vampiros culturais. Os hematomas criados nas partes periféricas e íntimas e escusas do corpo cultural caririense podem ser curados pelo despudoramento de ser autêntico desses garotos.
O ludismo de todo esse processo de assimilação cultural desses cabinha é vermelho, da cor do sangue da educação via cultura. Esse é o encantamento tão decantado pelo filósofo alemão Walter Benjamim, provando que não é preciso ser desprovido de intelectualidade para ser artista popular. Essa é a verdadeira reificação de que artista da terra é minhoca. Para os broncos restam os enlatados, os frios e os congelados, dispostos organizadamente em presépios, sem blasfêmias, dentro da data prevista de consumo pelo fabricante, em desfile solene na esteira fria dos caixas de supermercados.
Os Cabinha é riso puro, desdentado ou com dentes entramelados. Mas é boca aberta, com fome de saber. Não existe visão mais libertária do que ver a baba escorrendo dos lados dessa bocarra cultural. Serve para mim, serve para você e para aquele outro ali, com firma reconhecida e cadastro desempedido, serve para todos nós sabermos que arte não é questão de posse, é questão de vontade.
Os Cabinha on line: www.myspace.com/oscabinha – www.tramavirtual.com
Escrito por Marcos leonel
Outras
11 ago 2008, 11:15
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A recente edição em dvd do primeiro longa-metragem de David Lynch, “Eraserhead” é muito mais que oportuna, enquanto peça fundamental para o entendimento daquilo que parece incompreensível a uma primeira leitura: o universo bizarro de David Lynch, em película e fora dela.
Esse filme tem várias vertentes fundantes. Cheio de traços pessoais, um período cheio de turbulências, um mestre em sua luta contra as teses canônicas, e uma busca por uma estética imantada, que só precisava de práxis, servem para dar ao espectador, elementos que ele possa reconstruir aquilo que o autor tenta desconstruir ao longo de sua carreira cinematográfica.
Essa edição trás um David Lynch consagrado, revelando e velando facetas em um significativo comentário-depoimento sobre o seu primeiro longa, alocado como extra. Tão importante, para os
alucinados por ele, quanto o próprio filme. Essa é uma outra peça de arte. Duas em uma embalagem só. Nesse depoimento o autor não faz referência nenhuma à sua experiência particular de ter sido pai precocemente, e que o filho nascera com deformação nos pés. O casal de “Eraserhead” também tem um filho inesperado, um ser mutante. Mas aí são outros quinhentos.
É gratificante ver o tratamento dado pelo autor a esse anexo. Quando David Lynch encerra o depoimento afirmando que nenhum crítico ou qualquer outra pessoa do seu conhecimento fez uma interpretação do filme parecida com o que ele acha, sem revelar o que acha sobre o próprio filme, ali nós temos a reificação do universo cinematográfico desse mestre da escatologia humana. Nada se resolve, apenas o espanto.
David Lynch trabalha com o estranhamento, técnica de composição textual que ele transporta semioticamente para as montagens dos seus enredos. Em seu livro “Olhos de Madeira”, mais precisamente no artigo “Estranhamento, pré-história de um procedimento literário”, o filósofo italiano Carlo Ginzburg, entre outras teses sobre esse recurso, cita o escritor russo Chklovski, que justifica a quebra da linearidade discursiva como uma forma de se aprofundar na realidade, devido ao peso dos hábitos inconscientes, que automatizam tudo, o que é real e o que é irreal.
É isso que David Lynch faz. Quebra o discurso através do estranhamento, das alegorias, da descontinuidade, da fragmentação e da circularidade, para que o espectador seja jogado em uma urgência de compreensão. Assim ele vai desfilando os seus ícones e símbolos de uma decadência contemporânea, dentro e fora do ser, sem respeitar necessariamente as concepções de possível e impossível.
“Eraserhead” é a história fragmentada de Henry, que tem a notícia de que é pai precocemente e que seu filho é um mutante. Logo Henry é rejeitado pela própria namorada e passa a conviver
brevemente com os seus infortúnios, dividindo o seu apertado apartamento com alucinações, entidades espirituais e um cotidiano povoado de máquinas e objetos, completamente despovoado de humanismo.
Pode-se afirmar que “Eraserhead”, a partir do título, é a saga do não ser. O cenário é árido, industrial, com traços de urbanidade e uma vaga noção de família, que não consegue coagular o seu intenso desequilíbrio mental, espiritual e existencial. A cena do jantar em que Henry visita a família da namorada é uma verdadeira peça suprema da escatologia humana, da loucura, da ignorância espiritual e da fragmentação da realidade.
David Lynch é um fabricante de universos particulares. Às vezes claustrofóbico, às vezes em pleno devaneio libertino. Mas sobretudo, David Lynch é o poeta da alma humana, em toda a sua pungência de abismos. Todos os elementos metafísicos e metalingüísticos de David Lynch estão lá, em “Eraserhead”: os espelhos; a vacuidade; as entidades espirituais; o palco; a prostituição existencial; a busca pelo amor; o desperdício da vontade; a trilha sonora concreta e experimental; o devaneio; o pesadelo; a solidão humana e a condição inconteste do indivíduo não ter controle algum sobre a existência.
Assista e tenha um excelente espanto.
Marcos Leonel