Acordava, quando ainda era madrugada.
Literalmente, corria para pegar o trem. Ficava lá na estação, curtindo uma madrugada friorenta, nos panos aflanelados.
Repetíamos muito essa aventura, em quase todos os feriados, quando íamos de trem para Ingazeiras (parada depois de Missão Velha), curtirmos uns dias, na fazenda de meus tios.
Depois, já dentro do trem, o dia começava a amanhecer… O tempo de viagem era lento, e ao mesmo tempo rápido… Não parávamos de cantar, comer, beber, paquerar, imaginar, sonhar…
“Sou feliz… No trem que parte para o interiorFeliz… Porque comigo vai o meu amor
E o trem só chega quando o dia amanhecer… Que noite linda vamos ter…”
Nas paradas intermediárias, ele nos apressava… Eu tinha muito medo de deixar meus pertences , ou não conseguir descer com o resto da família. Era realmente, uma hora de aprendizagem: Salve-se quem puder! Cada um por si, e Deus por todos!
As viagens mais longas eram enjoativas… Comíamos muita porcaria nas paradas, e também no restaurante do trem. Pra transitar entre as classes, o estômago tinha que estar deveras habilitado.
Engraçado é que, viajávamos com uma toalha enrolada no pescoço, uma lata com farofa de frango caipira, umas laranjas, e um saquinho de sequilhos ou um pão-de-ló perfumado de erva doce… Pronto, a festa estava completa!
No mais… Umas saudades chegando, e outras partindo. Alegrias encomendadas… Surpresas e tristezas inusitadas.
Um dia, eu fui embora do Crato… Quando voltei, a Estação de trem estava desativada. Não apitava, nem marcava as horas… Não vendia bilhetes, nem acolhia os trens… Acabara o sonho azul… Transferiram-no para os ônibus noturnos.
Queixam-se, os que abandonaram o trem…
- O trem nunca nos abandonou.. .De tamanha solidão , parou de fazer fumaça , virou sucata , mas nos aperreia de saudades !
Somos locomotivas. Varamos o Planeta com ou sem vagões. Desencarquilhados na vida, adentramos matas virgem, seguros por nossas mãos.
Não escuto as “midis”, cuidadosamente escolhidas. Escuto o trinar dos pássaros, e o farfalhar do vento nas folhas secas. Pequenos insetos, já não me ameaçam… Até emocionam-me !
Na clareira, peço à máquina que emperre. Pulemos!
Aqui imagino desvendar nossos mistérios.
Sem falas… Você de safári, olhar juvenil, percorrendo as minhas alças.
Blusa velhinha adquirida numa remarcação, ano passado. Um tanto tímida, ou absurdamente intimidada, passo as mãos nos cabelos, no rosto, nos seios.
Aspiro e sinto o cheiro dos eucaliptos. Cheiro do ar desinfetado, puro, despoluído. O melhor cheiro do mundo vem mesmo de uma fêmea única: a natureza!
Gravetos… Nem preciso catá-los, nem conta-los… Faz parte do cenário. Tão secos…!
Risco e incendeio. Vejo a peleja do fogo no arder e apagar , intermitente.
Senta, e aperta os meus olhos nos teus… Mãos trocam de liberdade com os olhos. Elas no seu exercício pleno, aquietam e incitam.
Escuto o som das águas próximas. Respiro-as, inalo-as, como um ato de renascimento.
Você encara-me de um jeito bobo… É a pureza de todo espanto, quando mira o novo.
Sem palavras, sem papel, sem telas, e sem pincel.
Foi assim… É assim que nos lembrávamos-nos!
E esse rosto de rapaz afogueado?
E essa cara de menina enclausurada?
Aqui estamos… Enfiam, numa fresta da floresta!
Pingo de lua molha a nossa entrega. Teus braços me cercam. Colo-me à alma que meu corpo espera.
E nesse transe amoroso, sinto a música da tua vida, tocando em mim!
Músicas que compõem um CD são telas prontas de sentimentos, querendo preferências, escolhas, encontros… A galeria que o Pachelly apresenta…É arte, em partes!
Adotei de cara, “Nuvens de Algodão” ( Pachelly e Carlos Nóbrega).
Nuvens quentes com sementes…
De pesadas intenções .
Meu sonho acordado…
Tocado por tuas mãos .
Meu amor é de miçanga ,
de fantasia, latão…
Só quer ser na tua vida,
uma nuvem de algodão!
Escolhi “Xotezazeando” ( Pachelly e Edésio Batista) para dançar pelos caminhos, corredores, e salões…
”A Manga” ( Pachelly e Everardo Norões) é a canção do meu gosto. Tem a insulina da vida. Fala nos jardins – pomares, e quase descamba para uma ciranda, na Ilha .
“ Paralelas” – ( Pachelly e Dandinha Vilar )
Amores que não se encontram, nem se perdem. Como uns dos nossos.
Dandinha Vilar sabe mesmo fazer poesia. Sua obra aflora como rosa, como prosa… Ela é cria do Lameiro. Seriguela madura. Poesia na boca da gente…
“A Verdade e a Mentira” (Pachelly e Patativa do Assaré) … Filosofia dualística!
A verdade é frutiqueira, perseguidora, prepotente, e às vezes invisível…
Enquanto tudo fica quente, a verdade fica fria.
“O sermão” (Pachelly e Zé Flávio ) do Vieira.
Milton também o cantaria
Dom Hélder o rezaria
E a gente, depois de ouvi-lo,
Convertido viveria.
Negociar com a morte…
Precisa provar,
que a vida é valiosa!
“Pedras de Rio”… (Pachelly Jamacaru)
Banhar o nu
Deixar o sujo, longe de lá.
Fascinam-me os rios profundos
Mas só encaro rios rasos…
Molho os pés, e salvo a alma!
“Outros Maios” (Pachelly e Abidoral Jamacaru)
Outros… Todos os meses
Outras festas de S.José
Outros Natais
Muitos encontros na Aurora
Se agora não é hora …Amanhã talvez será !
“Sinais Sutis” -(Pachelly Jamacaru)
Melodia deliciosa!
Sinais são alarmes…
Em se tratando de amor,
a gente atravessa no vermelho, e ama no verde!
Pachelly, nesta composição, veste-se de Cupido… Literalmente!
“Sagrado Coração” – (Pachelly Jamacaru)
Cantiga das caatingas.
Mato brejeiro… Seu cheiro é menina!
Lampejos de amor, no terreiro…
“O Diário” – (Pachelly Jamacaru)
“Publique Baby, o diário desse amor…”
O mal amado por si, não tem a compreensão amorosa.
Lutemos por uma guerra justa: O ser feliz com amor!
“Anjo errante” –( Pachelly e João Nicodemos)
Uau!Um Rap, um Blue…
O moderno tirando do passado,
“O índico blue”.
Anjo errante… Protótipo de toda gente.
É o encontrar-se no futuro!
“A Mocidade” – (Pachelly e Abidoral Jamacaru)
Tudo… Pouco tempo tem
O pensar… Muito tempo fica
O amor… Em todo tempo há!
“Limite” – (Pachelly e Luiz carlos Salatiel)
Vestiu roupa nova, e ficou deslumbrante!
O Tempo foi deixando Pachelly mais belo!
Viajei, no piano do Dihelson… Vibrei com os arranjos, e o belíssimo desempenho de todos os músicos : Dihelson , João Neto , Demontier , Saul Brito , Di Freitas , Hugo Linard , Jairo Starkei ,Aminadab … Todos feras !
Vou escutá-lo outras vezes. Vou ouvi-lo sempre:“ Cria Minha ” !
Parabéns, grande Pachelly Jamacaru !
Socorro Moreira
CRATO VISTO POR MAURO MOTA:
Mauro Mota (1911 – 1984), pernambucano, consagrado poeta, cronista, Membro da Academia Pernambucana de Letras, Catedrático da UFPE, Diretor do Diário de Pernambuco, no início da década de 50 acompanhou uma equipe do DFOCS, antecessor do DNOCS, em uma viagem pelo sertão nordestino. Visitou o Crato e registrou suas impressões numa separata da Revista do Arquivo Público de Pernambuco, publicada em 1952. Eis sua visão do Crato: Crato, 4 – O Outro Lado da Paisagem – Partindo de Salgueiro, a camioneta começa a devorar a distância que nos separa de um mundo diferente. A mutação insinua-se à medida que os quilômetros ficam estendidos no caminho, tatuados pelos desenhos dos pneumáticos vertiginosos.
Mutações na atmosfera, nos tipos de habitação, mutação cromática, particularmente. Vamos saindo do cinzento seco para o esverdeado úmido de seiva. Saltando os últimos tabuleiros, parece-nos que as lavadeiras estenderam largas toalhas de verde limpo nas pedras baixas onde o sol da tarde se derrama como carícia, jamais como um flagelo. Altera-se substancialmente a paisagem botânica. A vegetação liberta-se da inferioridade em que, há poucas horas, a encontramos. Deixa de viver de rastros, retoma a compostura vegetal. Ergue-se do chão e da caatinga. É árvore sem receio de intempérie, é fruto, é flor e oscilantes penachos, vestindo de folhas vivas as colinas. A Chapada do Araripe deixa em Pernambuco a desolação da terra. Somente do outro lado, começa de fato a fértil zona do Cariri, onde entramos pelo Crato. Acha-se todo o município dividido em pequenas propriedades agrícolas e de criação. A cidade tem o ar de metrópole confinada com as ruas limpas, as praças cheias de palmeiras e flores, gente pelos bancos até quase meia-noite.
A população escolar alcança 5 mil, distribuída pelo velho Seminário São José. Pelo Ginásio do Crato, pelo Colégio Santa Teresa de Jesus, para moças. Meninos e meninas do interior de quatro Estados do Nordeste vêm aqui fazer sua formação humanística e são depois exportadas em boa forma para as faculdades. O estudo é levado a sério. Talvez exista ainda receio da lei provincial de 1836, no tempo do governo José Martiniano de Alencar. A lei estabelecia: “Os alunos podem ser castigados com palmatoadas, contanto que estas não passem de quatro diariamente”. Os mestres achavam um jeito de ultrapassar a limitação. Quando o discípulo praticava uma falta mais grave, levava oito ou doze bolos, sob a alegação de que estava pagando supostas contas atrasadas. Esses rigores na formação das novas gerações devem ser responsáveis pelo movimento intelectual do presente. Só o número de jornais e revistas que já existiram aqui, da 2ª metade do século XIX para cá – cento e vinte – reflete a vitalidade do espírito local. É verdade que esses órgãos na sua maioria eram políticos e viviam em lutas constantes e às vezes ásperas. Luta contra o governo, luta contra o predomino dos coronéis, luta contra o feudalismo. Tiveram de qualquer modo uma atuação proveitosa e juntaram-se com as suas campanhas à melhor história regional. O seminário sobrevivente, dirigido por José de Figueiredo, autor de um livro de memórias, “Meu mundo é uma farmácia”, mantém-se fiel às diretrizes dos antecedentes. Fiscaliza os partidos, fiscaliza o prefeito, fiscaliza os preços de tudo, no comércio de lojas e armazéns e no da feira-livre. Esta é imensa. Domina a frente de numerosos quarteirões. Cereais em abundância, inclusive arroz da melhor qualidade, cultivado nos brejos circundantes. Coisas regionais: gibão e chapéu-de-couro de vaqueiros, arreios de cavalo, alpercatas, rapaduras, dezenas de artefatos de palha de carnaúba. Surpreendeu-nos o preço baixo de uma peça de corda: 50 centavos. Superprodução ou tentativa de oferecer soluções extremas aos desesperados da vida?
Por: Joaquim Pinheiro Bezerra de Menezes
Do livro de Mauro Mota sobre a visita ao Crato: O mundo de Epifânio *
Crato 2 –
É noite e estamos no bar “Glória”, situado na praça Siqueira Campos. José Kleber Macedo, que é um cicerone amável e arguto, apresenta-nos a uma das figuras mais curiosas do Crato e de todo o Cariri. Setenta e tantos anos rígidos e ensaboados, de quem andou pelas clínicas noturnas do Professor Voronoff. Compõe-lhe o aspecto de lorde em vilegiatura o vestuário de endomingado vitalício, a austera roupa de casemira azul-marinho, colete atravessado pelo correntão de ouro maciço, tão longo e grosso, que, em vez de um relógio, deve prender algum filhote de fera oculta nos bolsos de Epifânio Pinheiro Bezerra.
Quando pronuncio esse nome assim por extenso, recebo logo a advertência:
— Corte o Epifânio. Pinheiro Bezerra somente é mais eufônica e mais político. Senador Pinheiro Bezerra.
— Senador?
— Perfeitamente. (Exibe o cartão com o endereço do Monroe – Antigo prédio do Senado no RJ). Tive 17 trilhões de votos, sem falar no meu voto individual. Há um decreto do governo, considerando-o equivalente a dois mil sufrágios.
Afirmada a megalomania logo nesse princípio de conversa, o jeito é puxar pelo fantástico membro da Câmara-Alta, em exílio voluntário no sul do Ceará.
— Desenvolve alguma atividade extra-partidária, “senador”?
Decerto. Possuo 12 aviões, 27 navios e 72 grandes fazendas espalhadas pelo Brasil inteiro, somando todas 30 milhões de cabeças do melhor gado. Só em Minas, tenho 23 propriedades. Juscelino Kubitschek, o atual governador, foi meu vaqueiro durante muito tempo. Fiz dele gente. Tirei-o do nada e do chapéu-de-couro para instalá-lo no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte.
Em estábulo reservado, mantenho aqui uma vaca fenomenal. Produz 126 litros diariamente, sendo 30 de excelente café, saboroso e quente.
O senador Pinheiro Bezerra abarrota suas burras domésticas com 16 trilhões de cruzeiros e 15 mil quilos de ouro em barra. É dono de toda a serra do Araripe e ultimamente fechou um negócio em boas condições: comprou a cachoeira de Paulo Afonso com a exclusividade de exploração da força até o ano de 4.820. Nunca deu a um afilhado, no dia do batizado, presente inferior a um cheque de 1 milhão e 500 mil cruzeiros. Mas, quando o nosso companheiro, o motorista Júlio, aparentemente seduzido por essa riqueza fabulosa, pede por empréstimo 5 mil contos, o “senador” exalta-se e sai-se com esta:
— Aprenda a conhecer os homens! Não faço transações com ninharias.
O Aga Khan caboclo, cheiroso e de flor no peito, é também um Dom Juan conservado em formol.Depois da viuvez, não chega para quem quer. Só no Crato, querem casar com ele 24 belas senhoritas, sendo 8 ainda alunas do colégio das freiras.
A garçonete traz nova rodada de cerveja, e penso no mundo que Epifânio criou para ser feliz. Fora da idéia fixa de grandeza, é uma criatura normal, afirmam os seus íntimos. Só o leva ao delírio a paixão pelo poder e pelos bens materiais.
Penso em outros mundos, criados à imagem e à semelhança do mundo de Epifânio e em outros delírios, variando apenas na espécie das coisas ambicionadas, jamais nas suas dimensões. Volto o pensamento para o Recife, para certos representantes da cultura do Recife. Aí não temos apenas um senador. Temos todo um parlamento em sessão permanente.
* Epifânio Pinheiro Bezerra de Menezes (1874-1957), era tio avô meu e de Zé do Vale Pinheiro e Tio bisavô de Zé Flávio Vieira.
Por: Joaquim Pinheiro Bezerra de Menezes

(Foto de Pachelly Jamacaru)
O filme “Amores Clandestinos” fez sucesso , nos anos 60. Vinha bem a calhar, dentro do contexto da época. Depois de comprar o ingresso, passar pelo porteiro, delegado de menor, entrava na penumbra da sala, e esperávamos o apagado de todas as luzes. O único que conhecia todos os segredos ocultos era o Lanterninha. Focava cadeiras vazias, e focava por “descuido” aquelas ocupadas pelos casais, justo, os que fugiam da luz… Dos olhos da família, do preconceito social, e da própria timidez. Tinham naturezas diversas, posto o dito: amores impossíveis, amores nascentes e crescentes…Amores dos amasses ( puro cheiro, puro sarro)…Amores tímidos, ingênuos e trêmulos ; amores despudorados, explícitos na “safadeza” do poder hormonal…Todos eram instigados , pela cumplicidade de um escuro técnico . Muitas “pernas gordinhas”, (como a canção do Tiago Araripe), molhadas, sedosas, balançavam pés nervosos. Beijos de língua, de pescoço, de outras partes, outros pedaços do corpo… Como mãos, e bochecha do rosto! Enlevada no enredo do filme, desligava-me da terra. , mas perdia meu olhar, muitas vezes, na doce tensão da espera. Um dia, ele chegou, e sentou-se numa fila adiante de mim. Encostou sua cabeça numa peruca canecalon, loura com a da Marilyn… Meus olhos desviados da tela ficaram lá, pregados e chorosos, naquele bandô total, que recebia afagos, e abraços.
Quando a fita anunciou o “THE END”, sorrateiramente mudei de lugar, e aproximei-me mais um pouquinho, pra descobrir na saída, se era azul, os olhos daquela diva.. O moço correu apressado, antes do acender das luzes. Enfim tudo claro! Eram dois olhos morenos. Olhos conhecidos, subservientes, corajosos e apaixonados….
Covarde, o meu gato!
Estava lá, a musa de tantos brotos!
Era assim, o cotidiano do maior entretenimento da City…. Divertia, aproximava, e escondia. Transportava os nossos sonhos para o glamour hollydiano. Se não existisse a censura do Bispo, colada no mural do Café Crato, acho que não teria perdido nenhum drama escandaloso, que o cinema ensinava. Mas eu estava lá… Em todos de Marisol. Joselito, Shirley Temple, Walt Disney… Nunca, em “Amores Clandestinos” – (clássico com Sandra Dee e Troy Donahue – trilha sonora – Theme From A Summer Place… Linda!!!). Namorei sem pegar na mão… Só no roçar dos braços. Mas não nego a presença do tesão, nas orelhas afogueadas. Namorei com cochichos no pé do ouvido. Com mordidas no pescoço, e balas pepper, zorro, ou anis. Namorei com os meus ídolos… Puros, românticos, sofredores, heróicos, belos, e gentis.
No Cinema não faltava:
Assovios
Suspiros
Gemidos
Choros… Alguns até convulsivos. (Chorei assim, no filme Irmão Sol e Irmã Lua, e até na Paixão de Cristo).
A vida se harmonizava na sala de projeção. Tempos sem analistas, psiquiatras… Tempos de sessão de risos com Jerry Levis, Cantinflas, o Gordo e O Magro, e Zé Trindade. O Cassino de hoje é um campo de energia obscura. Ficou apenas o escurinho do cinema, na beleza deteriorada. Perdemos a cortina grená. O lanterna iluminando a paixão dos casais… Foram-se o misturado dos perfumes, o mascarem dos chicletes Adams, o estouro das bolas do ping pong, na falta do beijo amado. Era bom, até cochilar de viver, naquele ninho! Nada mais excitante, aventureiro e libidinoso, do que um encontro clandestino, na sessão das 4, no Cine Cassino. O Lanterninha que ressuscite essa “Cratíadas”, como já fez Zé do Vale, noutro contexto.
Por: Socorro Moreira
P.S
Esse texto é também dedicado ao meu amigo Luiz Carlos Salatiel , grande intérprete da música “Cine Cassino” do Tiago Araripe.
“Na minha cidade tem poetas, poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas, trombetas, trombetas
E sempre aparecem quando menos aguardados, guardados, guardados,
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados.
Saem de recônditos lugares no ares, nos ares,
Onde vivem com seus pares, seus pares, seus pares,
E convivem com fantasmas multicores, de cores, de cores,
Que te pintam as olheiras e te pedem que não chores
Suas ilusões são repartidas partidas, partidas,
Entre mortos e feridas, feridas, feridas,
Mas resistem com palavras, confundidas, fundidas, fundidas,
Ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas.
Não desejam glórias nem medalhas, medalhas, medalhas,
Se contentam com migalhas, migalhas
Migalhas de canções e brincadeiras com seus versos dispersos, dispersos,
Obcecados pela busca de tesouros submersos.
Fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos,
Que jamais são alcançados cansados, cansados,
Nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem, escrevem,
O que sabem que não sabem e o que dizem que não devem.
Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas,
Como se fossem cometas, cometas, cometas,
Num estranho céu de estrelas idiotas e outras, e outras,
Cujo brilho sem barulho veste suas caldas tortas.
Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas,
Esvaindo-se em milhares, milhares,
Milhares de palavras retorcidas e confusas, confusas, confusas,
Em delgados guardanapos, feito moscas inconclusas.
Andam pelas ruas escrevendo e vendo, e vendo,
Que eles vêm nos vão dizendo, dizendo,
E sendo eles poetas de verdade enquanto espião e piram, e piram,
Não se cansam de falar do que eles juram que não viram.
Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas,
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas,
Lançadas ao espaço e o mundo inteiro, inteiro, inteiro,
Fossem vendo pra depois voltar pro Rio de Janeiro.”
(Leo Nasliah)

Os dias da Infância são corridos, e as noites custam um sono profundo. Os tempos nos transformam numa incandescente festa… De repente, nascem seios, nascem pelos, e já ficamos a contar estrelas… A vê-las, significativamente.
Depois é a lua, onde nos miramos… É no sol que nos achamos… Achamos cor, energia, e até o amor. Fogo solar… Queima, mas não esconde o poder da musa… Queima, queixa, e deixa. Acho que o tempo inesquecível tem que ser dito… Sim!
Semana passada estive no Recife. Pensei chegar, e ficar… Foi mais curto do que desejei… Mas valeu!
Deixei um pedaço de mim naquele lugar. Nunca voltei pra buscar… Era um pedaço bonito… E o Recife bem que o merecia; era um pedaço tristonho… Entreguei-o às águas dos rios… Transmutaram-se… Ficou um sonho… Um tempo que nem chega a ser passado… Ficou um conto!Nem de fadas, nem de Esopo, nem de Machado, nem de Clarice… Ficou um conto Mariana… Que fala de amigos!
Recife (PE), 1975.
Rodoviária, no Bairro S.José.
Salta uma mulher de uns 23 anos. De malas e cuias, e 3 filhos nas mãos. Perece mais, cena de novela mexicana. Vontade de viver, e um emprego debaixo do braço… Será fácil?
“Viver não é fácil não… Pergunte ao meu coração…”
Encontrou conhecidos, e por tabela, outros conhecidos achou… Combinou um encontro… Naquela tarde, e naquela noite… Ainda!
Driver do Derby… (Um brinde ao momento: gim-tônica, calandre, alerte limão, halls, “Only Yesterday” -The Carpenters … Sons, cheiros… Tudo mágico… Refrescante e encantante… Noite com olhares, sorrisos reticentes, beijos… Quase soltos ,quase loucos, quase dados de mãos beijadas. Era um início… E um fim) !
Vida de turista… Uma semana, uns meses, uns anos… E depois de todos os anos, lembranças doces, amenas.
Talude, Beer House, sorvete no Free Sabor ou Z’ecas , Casa D’Itália, Suape, Maria Farinha, Zoológico, Agulha frita no Samburá de Olinda… Comida Chinesa em B. Viagem… Água de coco, na Piedade.
Vejo o Paço da Alfândega, a Rua da Aurora, onde existia o Buraco de Otília… Vejo a Real da Torre, onde dormi maquiada , de salto alto ,meias de seda, esperando a buzina de um carro…
Sexta era dia de matar a saudade; sábado , programa gustativo…domingo era dia de mar…E mar era o seu olhar.Mar caribenho … Azul-piscina!Barba perfumada, e inconfundivelmente, bem tratada. Tinha charme, dizia as coisas no tom mais baixo, e sensual… Momentos de contenção do desejo; momentos de explosão do encanto… Momentos de pura e clara amizade… Momentos de desencontros, e desvios do interesse.
Com aquela criatura aprendi novas perguntas, e novas respostas… Aprendi a passar tempo, nas minhas Recreativas. Éramos amigos!
Passaram-se 30 anos.
Você é a minha saudade feliz!
Recife…
Acho o amor em cada rio.
Acho o rio, em seu mar …
Acho o Fantástico , que me doía…
Acho a toca, onde a gente se encontra…
Uma toca oca…
Bombeada por um sentimento único…
Que o tempo respeita…
Não gasta, nem subtrai…
É sempre novo!
Por : Socorro Moreira