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Arquivo da categoria ‘Contos’

Espertezas – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Em três oportunidades, li notícias da nossa imprensa que revelam a esperteza do típico brasileiro que adora aplicar a lei do Gérson, isto é “levar vantagens” em tudo, até nas mínimas coisas.

Na primeira, através de um dos jornais de Fortaleza, eu tomei conhecimento que um funcionário da antiga VARIG, ao receber as bagagens de um vôo cargueiro vindo do Recife, observou que no compartimento de cargas destinado ao transportes de animais havia um cão pastor alemão capa preta, morto. Avisou ao gerente que, imediatamente orientou aos seus subalternos, a retirar o animal transportado para um incinerador. Em seguida, mandou procurar pelos canis de Fortaleza um outro cão bem parecido com o que fora encontrado morto e colocado na jaula própria para transporte, aguardando o destinatário. Quando este, um conhecido professor do curso de veterinária, procurou pela sua encomenda teve uma desagradável surpresa. O animal que esperava era um cão morto para que fizesse alguns estudos sobre a causa da morte daquele animal de raça. A esperteza do gerente da VÁRIG deu errada, com prejuízos exclusivos ao professor de veterinária.

A outra notícia gabava um conhecido industrial cearense. Dizia que nos meados dos anos quarenta ele já era um vitorioso empresário, apesar de ainda jovem. Por causa da guerra, o país atravessava um grande racionamento de combustível. O empresário homenageado pela reportagem quase teve o namoro desfeito por ordens dos pais da moça, porque ia se encontrar com ela a bordo de um velho carro de praça. Uma esperteza do empresário para driblar o rígido racionamento de combustível imposto aos carros particulares. Como os carros de praça tinham direito a uma cota maior de gasolina, o empresário adquirira um desses carros e quase perdia a namorada.

A terceira esperteza foi noticiada pela Revista Veja, numa reportagem em que tecia “loas” ao segundo Presidente da República eleito em 1994, após a redemocratização do país. Entre as características e gostos pessoais do nosso Presidente eleito, estava a de que ele adorava goiabada cascão. Como os netos do nosso futuro Presidente, quando visitavam os avós, comiam toda a goiabada em estoque na geladeira dele, ele resolveu implantar um rígido controle: lambia na frente das crianças todas as barras de seu doce preferido. Fiquei pensando: ‘um sujeito desses é um egoísta, se faz isso com os netos, o que não fará com os assalariados do Brasil?’ Outros tipos de esperteza postos em prática por aquele nosso Presidente atingiu a toda população brasileira. E as conseqüências nós amargamos até hoje, entre tantas, as elevadas tarifas dos serviços públicos privatizados, a desregulamentação da economia e o achatamento salarial posto em prática pelo Presidente lambedor de goiabada.

Gauche na Vida. – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

“Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida” (Carlos Drumond de Andrade)

Nasci canhoto de pé e mão, como no poema de Carlos Drumond de Andrade. E sempre que encontro um companheiro canhoto como eu, convido-o para juntos formarmos uma associação. Por que não uma Associação dos Canhotos do Brasil? Todas as minorias têm suas organizações para se livrarem dos preconceitos de que são vítimas e serem reconhecidas. Admiro muito os negros porque eles se fortaleceram e, hoje seus direitos estão resguardados até na constituição. E ai daquele que discriminar um negro! Será preso em flagrante e sem fiança. Os homossexuais agrupam-se e fazem marchas que arrastam para as ruas milhões de adeptos e já são aceitos pela sociedade. Mas acho que nós, os canhotos, somos os mais discriminados! Até nos dicionários dizem que o destro é um sujeito dotado de habilidade, ágil e desembaraçado, enquanto nós canhotos somos classificados como desajeitados e desastrados. Pode tamanho preconceito?
Alguém já comprou uma faca afiada para o lado esquerdo? Não, todas elas estão amoladas para quem é direito. E ainda dizem que somos um desastre, pois não sabemos descascar nem uma laranja. Para abrirmos uma simples lata de goiabada devemos usar o abridor de latas ao contrário, ou seja, da frente para trás. Como sofremos para cortar um simples bife de panela! Já não conto as vezes em que passei vergonha, pois a porção de carne que gostaria de cortar, voou sobre a mesa, quando não atingiu algum dos comensais do lado oposto. Já soube de casos em que um canhoto, num restaurante de luxo, tentou partir um frango frito e este se propagou pelos ares, indo se alojar na peruca de uma grã-fina duas mesas à sua frente.
E as fechaduras das portas prontas para serem usadas por quem é destro? Não sei quantas vezes já machuquei minha mão esquerda. Há muitos anos, num vôo de Salvador para o Crato, peguei um jornal para passar o tempo. O meu horóscopo dizia que pessoas do meu signo, naquele dia, estavam sujeitas a desastres aéreos. E eu lá nas alturas, nos bancos de um modesto DC3, tomando conhecimento de tão sinistra previsão. Observem que naquela época a Rede Globo ainda não existia para noticiar, com o prazer que costuma ter, o caos aéreo prestes a ocorrer. A certa altura da viagem, resolvi ir ao banheiro. Ao tentar abrir a porta, meio sem jeito com minha mão esquerda, é claro, o avião sofreu os efeitos de uma pequena turbulência. A porta se abriu bruscamente e minha mão esquerda ficou com suas costas na carne viva. Ainda bem que o acidente previsto por aquele intrigante horóscopo foi de pequena monta.
Nas minhas férias do ano passado, num pequeno acidente, fraturei o mindinho da mão esquerda. Fui obrigado a imobilizar a mão com gesso até as proximidades do cotovelo. Ao voltar às aulas, escrevia com a mão direita com imensa dificuldade. E os alunos diziam que a minha letra estava até melhor. Que críticos! Pior é que os conhecidos ao me verem e não se lembrarem da minha condição de canhoto exclamavam: “ainda bem que foi a mão esquerda!”
Alguém já ouviu falar em normógrafo? Quando nem sonhávamos com a computação gráfica, os letreiros dos projetos de engenharia eram feitos com a utilização desse pequeno aparelho. Pois quase que eu não me formava. A Escola Politécnica da Bahia não tinha normógrafo para quem era esquerdo. Ao tentar colocar as letras nas plantas que desenhava, quando passava para a letra seguinte a mão esquerda borrava o letreiro e espalhava o nanquim sobre o papel botando tudo a perder. Tive de aprender a usar a mão direita. Um suplício!
Carteiras escolares para esquerdos? Conheci uma na universidade. Mas aí já estava acostumado a escrever com a mão em forma de rodilha.
Mas de todas as discriminações, a que mais me revolta é quando escuto alguém definir uma pessoa bem conceituada com esta frase de puro preconceito: “Que sujeito direito!” Como se nós canhotos não prestássemos.
Já me disseram que o canhoto leva grande vantagem no futebol. Balela! Se for ruim de bola, como eu, os momentos de glória duram somente uns dez minutos, tempo suficiente para os do time adversário descobrirem que somos esquerdos e, acabarem rapidamente com o nosso único trunfo. Então, passamos a jogar uma bolinha murcha, que só.
Mas resta ainda uma esperança. Barack Obama, o presidente americano, também é canhoto. Alguém viu como foi bonito ele assinar o termo de posse? Estou pensando seriamente em convidá-lo para presidente de honra da nossa associação. Se ele for mais um político a nos decepcionar, então só me restará um único consolo. É que na minha casa, o mouse do nosso micro está instalado no lado correto; o esquerdo. E assim, sou seguido pelos filhos e pela minha mulher. Se por acaso algum visitante, ainda não habilitado ao uso da mão esquerda, tentar usar nosso computador, vai sentir na pele, o quanto nós canhotos sofremos com a ditadura dos destros.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

O Cobrador – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Esta é mais uma das muitas histórias que me foi contada pelo meu amigo Leofredo Pereira, um famoso contador de “causos” juazeirense e que foi meu colega de Coelce. Segundo Leofredo, aí pelos anos de 1940 até 1960, existia em Juazeiro um advogado muito solicitado. Tratava-se do Dr. Erílio Luz, um perito na arte de fazer cobranças para as empresas do comércio da cidade. Competente no seu ofício, o Dr. Erílio tinha consciência da fama de bom cobrador que desfrutava na região. Por isso não cultivava a virtude da modéstia. Certa vez alguém quis saber se ele havia estudado no Seminário do Crato. “Estudei seis anos lá, mais seis em Fortaleza. Desisti na hora de ser ordenado. Se tivesse continuado, hoje eu seria cardeal, na boquinha para ser papa.” Respondia o imodesto causídico.
Havia em Juazeiro um comerciante que se especializou em revender caminhões. Vendeu um deles a um cliente do Iguatu com pagamento em duas parcelas. Uma entrada de cinqüenta por cento e o restante para ser pago seis meses depois. Decorridos mais de um ano, sem conseguir receber o dinheiro, o comerciante procurou o Dr. Erílio. Fechado o contrato, marcaram viagem para o Iguatu. “Considere-se com dinheiro no bolso.” Disse o gabola advogado de cobranças.
Advogado e cliente saíram do Juazeiro às três horas da tarde, na velha “Maria Fumaça” da RVC e lá pelas oito horas da noite já estavam confortavelmente hospedados no Hotel Ferroviário do Iguatu, bem defronta da estação. Após o jantar, cadeiras na calçada, os dois aguardavam a suave e refrescante brisa do “Aracati”. Quando de repente, ouviu-se um tiroteio sem fim e aproximação de um estranho rapaz, nu sobre um cavalo, com duas mulheres também nuas na sua companhia. E haja tiros para o alto e correrias das pessoas para todos os lados. Os dois juazeirenses assistiram atônitos aquela bizarra brincadeira. Tão logo o jovem e esbelto cavaleiro passou por eles, o Dr. Erílio exclamou para o seu cliente: “Que rapazinho insolente!” A esta exclamação, o vendedor de caminhões completou: “Este é o valentão com quem o senhor irá acertar as contas amanhã de manhã.” Imediatamente o Dr. Erílio encerrou a conversa e o contrato. “Considere a causa perdida. Nós vamos mesmo é voltar para o Juazeiro no trem da madrugada.”

Por: Carlos Eduardo Esmeraldo

A Avenida dos Meus Sonhos – por Carlos Eduardo Esmeraldo

O talentoso escritor cratense e meu amigo Roberto Jamacaru escreveu excelente artigo, aqui no Blog do Crato, sobre a Avenida Padre Cicero. Ele está longe de imaginar como suas palavras caíram tão profundamente no meu íntimo e resgataram lembranças adormecidas há mais de meio século. Em primeiro lugar, porque devemos ter orgulho de ser conterrâneo do Padre Cícero. Ele é o filho mais ilustre do Crato, reconhecido internacionalmente. Infelizmente muitos cratenses não nutrem esse sentimento. Mas agora, graças ao nome desse taumaturgo, as duas cidades estão urbanisticamente se unindo num grande e futuro centro de desenvolvimento das regiões que margeiam os dois lados do Araripe.

Essa avenida teve uma importância fundamental na minha vida. É a avenida dos meus sonhos. Explico: fui criado no Sítio São Jose, em terras que pertenciam à nossa família e se estendiam desde o rio Grangeiro, que por lá tinha outra denominação e iam até a divisa do Crato/Juazeiro com o município de Barbalha. A estrada da qual Roberto se refere e que o Padre Cicero deve ter percorrido em abril de 1872, não foi exatamente esta extraordinária avenida que conhecemos hoje. Ela tinha outro percurso e, em alguns pontos ficava distante até um quilômetro da atual avenida. A partir do viaduto do Rio do Saco, em demanda do Juazeiro, a estrada derivava à esquerda, serpenteando a via férrea. Passava pelo São José, onde ficavam as casas do meu pai, de muitos tios, primos e tantos amigos, até o antigo matadouro do Juazeiro. Havia ônibus na porta de casa, aliás, as “Sopas do Anselmo”, aproveitadas da carroceria de velhos caminhões, daí o nome. Anos depois, vi e andei em Salvador em lotações dos anos de 1960, que lembravam as nossas “sopas”.

Por volta de 1952, creio, iniciou-se a construção da nova estrada. Acho que eu deveria ter uns seis anos de idade e, um dia fui ver a obra da Estrada Nova, como a chamávamos, com o meu inseparável amigo Vicente. Menino extraordinário, Vicente tinha um olho cego, mas pouco me incomodava com isto. Ele era neto de uma senhora que trabalhava na nossa casa, alguns anos mais velho do que eu. Sei bem da confiança que minha mãe depositava nele. Ela estava certíssima. Nunca ouvi dele uma anedota de mau gosto ou qualquer palavrão. Era um alegre contador de histórias, declamava e às vezes até cantava versos de cordel que costumava ouvir dos emboladores nas feiras do Crato e Juazeiro. Há anos que não o vejo, mas sei que ainda reside no São José e é um dos homens de bem que existe no Crato.

Na estrada em construção, eu e Vicente ficamos algumas horas sentados na ribanceira de um corte, para mim altíssimo, observando lá de cima todo o movimento das máquinas operando. De repente, uma camionete novíssima e muito bonita parou na nossa frente. Vi descer um homem de óculos escuro, roupa bonita, botas longas e um comprido rolo de papel nas mãos. Foi arrodeado de trabalhadores e dava ordens a todos. O Vicente me disse: “Aquele ali é o doutor engenheiro.” E de repente eu lhe confidenciei com muita convicção uma idéia que nasceu naquele momento: “Quando crescer, eu quero ser engenheiro.” Hoje quando passo no local, onde fica o antigo Parque Grill, procuro aquele corte com a barreira que não é tão profunda como me parecia, por aquele menino que um dia sonhou alto e agradeço a Deus pelo sonho realizado. Obrigado, Senhor! Aquela criança sonhadora ainda continua vivendo dentro de mim.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

As pescarias do De Ferro – Por A. Morais

Ontem o Carlos Eduardo Esmeraldo trouxe a memorável estória de esperteza do De Bronze, um condensado do que encontramos em seu belo livro Historias que vi, ouvi e contei. Estou me recuperando das risadas. Alem de ri a estória me fez lembrar o De Ferro, um conterrâneo dos bons, da Rajalegre. Quando jovem gostava de jogar uma bolinha. Um dia deu um trancão, ocorrência conhecida quando há encontro dos pés adversários, quando a bola fica presa entre os dois. Ele estava descalço e não sofreu nada, porem, arrancou 12 biscoitos da chuteira do adversário. Por essa razão o nome De Ferro. Depois dos 40 anos trocou o esporte da bola, e passou a fazer as suas pescarias.
Muito calmo paciente não se aborrecia com nada. Chegava no açude colocava a isca no anzol, atirava nagua, amarrava o nylon na perna e tirava uma soneca em sua preguiçosa, companheira inseparável. Nessa época “Dengue” era conhecida por murrinha e não fazia medo a ninguém. Portanto ninguém se aperreava em ficar brincando de matar mosquito a paulada. Um belo dia passava pelo local João Calango e Pedro Cafinfin, dois caçadores, e, vendo o De. Ferro no terceiro sono, tiraram o anzol fora dagua, engataram um tatu que traziam no bisaco e soltaram no açude. O bicho meteu dos pés, e o De Ferro acordou atordoado, mas tratou de trazer a pesca para fora dagua. Quando estorvou o anzol, levantou a altura dos olhos, um tatu de três kilos e disse para os amigos: ainda bem que vocês estão aqui. Não vou ficar por mentiroso. Ontem mesmo eu pesquei três desses.
Postado por A. Morais

Distrações: Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Distrações? Quem não as tem? Quem, como eu, não guardou a chave do carro naquele bolsinho da frente da calça e antes de sair à rua, procurou desesperadamente pela chave em todos os cantos possíveis da casa, revirando tudo que antes estava em perfeita ordem? Quem não estacionou o carro e deixou a chave na ignição, trancando por fora todas as portas? Confesso que isso aconteceu comigo e o que é ainda pior, com o carro funcionando. Alguém já telefonou para falar com o chefe e disse que gostaria de falar com um sujeito que tinha o seu próprio nome? Pois eu liguei para o meu chefe em Fortaleza, superintendente da Coelce, e disse que gostaria de falar com o Carlos Eduardo Esmeraldo. A secretária que não reconheceu minha voz disse: “O Carlos Eduardo Esmeraldo trabalha no Juazeiro.” “Ah, é? Pois eu sou o Carlos Eduardo Esmeraldo.” Distraído, pretendia dizer de imediato que era eu quem estava falando e as preocupações do dia-a-dia me traíram. Pior ainda foi quando cheguei a minha casa e não vendo o carro na garagem, perguntei: “O Carlos saiu?” E alguém já indagou à secretária qual o telefone de sua própria casa? Pois eu já fiz tudo isso! Velhice? Vá lá que seja, mas quando essas coisas me aconteceram, eu tinha menos de 45 anos. Mas os jovens também têm suas distrações. Um dos meus filhos procurava desesperadamente pela sua toalha de banho que deixara no varal, quando sua mãe observou que ele estava enrolado na própria toalha, como se ela fosse um saiote. Outro dia, um rapazinho meu parente viajava de carro, quando um dos pneus furou. Ao trocar o pneu que estava todo rasgado, distraído, jogou fora a carcaça do pneu substituído com o aro da roda e tudo. Uma distração que lhe custou no mínimo uns cento e cinqüenta reais. Certa vez, sai ao centro da cidade para visitar as livrarias. Ao retornar, cumprimentei Magali que preparava o almoço e disse a ela que já estava em casa e podia servir o almoço. Enquanto aguardava, deitei-me numa rede para ler um dos livros que havia trazido. Meu filho mais novo chegou do colégio, foi até o quarto, tendo perguntado o que eu estava lendo. Depois voltou à cozinha e sua mãe lhe disse. “Seu pai ainda não chegou para que eu bote o almoço na mesa”. “E quem é aquele homem que está lendo lá no quarto?” Perguntou o meu filho.
Gente importante também tem suas distrações. Lembro-me que nos anos oitenta, o jantar do Rotary Clube do Crato era servido pelas senhoras dos rotarianos. Uma delas, que carregava uma pesada travessa de arroz, sentiu que de repente a travessa perdera o peso, como por encanto. Depois de servir a certo senhor de idade, foi que ela notou que havia descansado a bandeja sobre a cabeça dele.
Mas distraído mesmo é um dentista que conheci em Belém. Certa vez ele convidou um amigo para jantar em sua casa. Assim que o amigo chegou, desejando-lhe comunicar que o jantar estava servido, disse para o visitante: “Abra a boca.” Era assim que ele passava o dia falando aos seus clientes. Hoje, aposentado, este dentista mora aqui em Fortaleza. Logo que surgiram os primeiros telefones celulares, daqueles bichos gigantes da Motorola que eram guardados num suporte preso ao cinto das calças, ele foi um dos primeiros a aderir à novidade. Sua filha lhe telefonou e depois de alguns minutos de conversa, a mão desse amigo tocou no suporte do celular e ao senti-lo vazio, disse para a filha: “Minha filha, vou desligar. Aconteceu um problema muito sério, roubaram meu celular!” “Calma papai, o senhor está telefonando de onde?” Perguntou-lhe a filha. “É do celular!” Constatou assim a distração. Esse amigo dentista tem um filho que casou com uma portuguesa e foi morar em Lisboa. Ele resolveu visitá-lo e comprou passagem num vôo da TAP que saia de Fortaleza. Ao receber a passagem, foi informado que iria num novo Boeing da empresa, adquirido no Canadá e que faria o primeiro vôo. O meu amigo preparou-se com muito esmero para essa viagem. Comprou um terno no Domênico e embarcou todo arrumado. Em dado momento do vôo, sentiu vontade de ir ao banheiro. Ao abrir a porta, viu que havia dentro do toalete um distinto senhor. Pediu-lhe desculpas, logo fechando a porta e aguardando que o ocupante do banheiro saísse. Esperou cerca de uns quinze minutos e foi reclamar à comissária: “Moça, não tem outro banheiro? O sujeito que está ai, faz mais de meia hora e não sai.” A comissária abriu a porta do banheiro e disse: “Não há ninguém aqui!” Foi então que meu amigo notou sua elegante imagem refletida no espelho.
Mas distraída mesmo era uma tia afim, já falecida, viúva de um irmão do meu pai. Certo dia, ela estava na porta da sua casa, quando passaram duas mulheres com fama de sapatão. Toinha, uma pessoa que fazia seus serviços domésticos lhe confidenciou: “Madrinha, o povo diz que aquelas duas ali fazem sabão.” “Ò Toinha, pergunta por quanto elas fazem a barra?”
É isso aí! Ninguém está livre de distrações. Aquele que não foi ainda vítima de uma, que atire a primeira pedra. A nós distraídos, só nos resta cantar em forma de oração o refrão de uma música muito bonita: “O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído. O acaso vai me proteger, enquanto eu andar…”

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Cotovia, o louco – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Ouvi esta história há muitos anos, não me lembro contada por quem, acho que quando ainda eu era criança. Provavelmente ela é uma das muitas lendas que se criou em torno do nome do extraordinário rábula cearense Quintino Cunha. Por volta da década de 1930, havia em Belém do Pará um louco conhecido por toda população pela alcunha de Cotovia. A meninada logo descobriu que ele não gostava do apelido e de manhã até a noite gritava pelo nome Cotovia por onde quer que esse louco passasse. E ele reagia atirando o que encontrasse pelas ruas: paus, pedras, restos de materiais de construções e até as mangas caídas dos mangueirais que arborizam as ruas da cidade. A insistência da meninada em gritar pelo apelido Cotovia era proporcional à reação do louco. E havia uma correspondência entre a intensidade dos gritos das crianças com mais pedradas e outros objetos atirados contra a turba de crianças e adolescentes. Até que num triste dia, uma banda de tijolo atingiu em cheio a cabeça de um menino na Praça da República. A criança teve morte instantânea e a policia prendeu o pobre Cotovia em flagrante. Naquela época, louco que cometesse um crime era julgado, condenado e preso junto com outros sentenciados, sem essa história de ir para manicômio. E o crime de Cotovia revoltou a cidade, pois a criança por ele assassinada era filha de um influente figurão. Tão logo terminado o processo, foi marcado o dia do julgamento de Cotovia. Nenhum advogado quis assumir a defesa do pobre louco. Quintino Cunha, que se encontrava em Belém a passeio, soube da notícia pelos jornais e foi se oferecer na véspera do julgamento para a defesa do louco Cotovia. Na hora em que foi pronunciar a defesa, Quintino Cunha limitou-se a saudar o juiz: “Excelentíssimo, digníssimo, honradíssimo e meritíssimo juiz de direito dessa comarca; senhores jurados.” E repetiu com muita insistência essa saudação: “Excelentíssimo, digníssimo, honradíssimo e meritíssimo juiz de direito dessa comarca; senhores jurados.” Quando já declinava a terceira ou quarta repetição da saudação, o juiz perdeu a paciência e bateu violentamente a campainha, dando murros na sua mesa e gritando para o representante da defesa: “Chega, deixe dessa brincadeira estúpida!” A essa reação do juiz, Quintino Cunha virou-se para os jurados e disse: “Senhores jurados, observem que um juiz, homem digno e culto, cujo alto equilíbrio emocional não é posto em dúvida por nenhum dos que aqui se encontram, teve essa reação descontrolada ao ser elogiado com insistência. E notem que foram somente elogios! Agora imaginem os senhores, esse pobre homem, louco, sem família, sem ter sequer um lugar onde recostar a cabeça, sem ninguém ao seu lado, ser perseguido de manhã à noite por um grupo de moleques, que parecem seres sem pai e mãe, a gritar nos seus ouvidos o horrível apelido de Cotovia, todos os santos dias, durante anos a fio? Pensem nisso, senhores jurados”. Conta-se que ao final daquele julgamento, o Cotovia foi absolvido por sete votos a zero.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

O futebol do prefeito – Por: Carlos Eduardo Esmeraldo

A nossa velha e sempre querida Praça da Sé de tantas reformas, foi até a realização do centenário da cidade do Crato um belo e improvisado campo de futebol, com gramados e traves. Não havia meio-fios, canteiros, fontes luminosas, arcos, nem flores e estátuas. Somente a imensidão do terreno recoberto por uma manta disforme de capim de burro e frondosos oitizeiros, onde vacas e cavalos pastavam pela manhã. Mas nada disso era empecilho para que meninos e rapazes daquela época realizassem disputadíssimas partidas de futebol nas horas de folga. Lembro-me vagamente que nas minhas poucas vindas do São José ao Crato, no início da década de 1950, todo final das tardes, logo após as aulas do Grupo Teodorico Teles, que funcionava precariamente instalado num velho casarão da Praça da Sé, os alunos se reuniam para disputadíssimas partidas de futebol. Meu sonho era poder jogar também, mas como eu era muito pequeno, nem assistir me era permitido. Meus irmãos maiores, participantes daquele futebol, tinham medo que eu recebesse uma bolada e gritavam para que eu fosse para casa. Depois, veio o centenário do Crato, a praça foi cercada por um tablado de madeira para que nela fosse instalada uma exposição agro-industrial.

Acredito que a partir de 1955, a Praça da Sé começou a ganhar a configuração que hoje tem com canteiros, passarelas, jardins gramados, flores, arcos, monumentos, lagos de jacarés por trás dos arcos, fonte luminosa e outros pequenos detalhes. A partir daí o futebol foi definitivamente banido da praça. Terá sido? Vejamos.

Quando estávamos na terceira série do antigo curso ginasial, um dos nossos professores adoeceu, sem que houvesse substituto. Então, nas aulas vagas, monsenhor Montenegro entrava na sala de aula para conversar conosco, um papo que não nos interessava muito, pois nosso desejo era sair e brincar na rua. Sendo eu sabedor do grande amor que aquele saudoso sacerdote devotava ao colégio que tão bem dirigia, a ponto de orgulhosamente dizer “o meu colégio”, disse-lhe certa vez: “Monsenhor, o seu colégio está pior do que o Colégio Santa Tereza?” E ele perguntou com espanto: “Por que, Zezinho?” Respondi-lhe atrevidamente: “Lá as freiras não deixam as internas saírem à rua nas aulas vagas e, aqui também”. Pronto. O efeito esperado por essa declaração foi imediato e, toda vez que havia uma aula vaga, éramos liberados e, lá íamos nós para a Praça da Sé. O meu primo José Esmeraldo Gonçalves morava naquela praça e depressa trouxe uma bola de futebol. Improvisávamos dois times e entravamos em campo: um canteiro gramado e bem cuidado, defronte à prefeitura. Esta funcionava nos altos do velho prédio que hoje abriga os museus do Crato. O jardineiro da praça reclamava, sem que sua reclamação surtisse qualquer efeito. E em toda aula vaga, lá estávamos nós no gostoso campinho de futebol. Certo dia, um Rivelinosinho aloprado deu um chutão torto, tendo a bola voado em direção ao portão da prefeitura. Um senhor careca agarrou a bola e depressa subiu as escadas da prefeitura. O jardineiro disse: “Era o prefeito! Eu não avisei a vocês que ele não queria esse jogo aqui?” Ficamos como crianças que lhes roubam um pirulito. Então alguém disse: “Vamos todos subir e pedir a bola.” Fomos e entramos no gabinete do prefeito, sem ao menos pedir licença. Uma invasão. Eu falei: “Seu Zé Horácio, o senhor poderia devolver nossa bola? Já vamos para casa e não jogaremos mais na praça.” Ele respondeu: “O que? O filho do meu vice-prefeito estava jogando na praça? Mas que coisa! E de quem é a bola?” “De Zé de seu Unias.” Respondemos em coro. E ao avistar o primo José Esmeraldo e os irmãos Alberto e Hermano Siebra, exclamou: “Ah! O filho de Unias, o presidente da Câmara Municipal era o dono da bola? E os dois filhos do meu outro vereador José Valdevino também estavam no jogo? Pois eu não vou devolver a bola, não. Ficarei com ela para convidar meus amigos para um futebolzinho mais tarde.” No final daquele mesmo dia, o prefeito foi visto andando pela Praça da Sé com uma bola debaixo do braço. Chegando à casa de Unias Gonçalves e sorrindo exclamou: “Unias, vim lhe convidar para nós dois irmos bater uma bolinha ali na praça.”

Por: Carlos Eduardo Esmeraldo

O SÓSIA – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Certo dia, um cidadão que eu não conhecia, me perguntou a que horas eu retornaria a Sobral. Respondi-lhe que não era de Sobral e então ele insistiu: “Vai me dizer que eu não conheço o doutor Eduardo?” Depois de lhe informar que eu era do Crato, ele se desculpou: “Mas será que haverá alguém que diga que você não é o doutor Eduardo?” Fiquei pensando, quem seria esse tal doutor Eduardo de Sobral, que além de possuir um dos meus nomes, tinha comigo tamanha semelhança física? Teria ele algum inimigo covarde, desses que são capazes de contratar um pistoleiro para exterminar o desafeto? Antes eu nunca havia sido confundido com outra pessoa. Achava que o Criador não faria a tolice de colocar no mundo, ao mesmo tempo, duas caras tão iguais e desprovidas de beleza física, como a minha. Graças a Deus não fui ainda procurado por nenhum pistoleiro, como ocorreu com Chicão, o filho de um comerciante do Crato. Numa manhã de domingo, Chicão entrou apressado na agência da Viação Pernambucana. Ele estava atrasado para sua viagem à cidade de Petrolina, onde iria vistoriar uma loja que o seu pai mantinha naquela cidade pernambucana. Ao pedir uma passagem, um sujeito desses tão asquerosos, que causa arrepio na gente, com amplo bigode, longas costeletas e chapéu quebrado de lado, à moda dos cowboys americanos, postou-se de pé ao seu lado e pediu a poltrona vizinha. Chicão sentiu um friozinho esquisito a lhe percorrer o corpo inteiro. Provavelmente repugnava aquele estranho vizinho de poltrona. Talvez fosse apenas um mau pressentimento, pensou. No decorrer da viagem, os companheiros de assento não trocaram uma só palavra, até que o ônibus fez uma parada no Posto do Exu. Ali, o motorista do ônibus disse para os passageiros a tradicional mentirinha que todos os motoristas de ônibus costumam dizer: “Pessoal, vamos parar uns vinte minutinhos aqui para o café.” Chicão olhou o companheiro carrancudo, reuniu toda a coragem de que era possuidor e o enfrentou: “Amigo, vamos descer e tomar uma cervejinha. É melhor do que ficar aqui sem fazer nada.” O sujeito esquisito aceitou o convite e desceu juntamente com Chicão. Sentaram-se numa mesinha do canto da sala do bar e pediram uma cerveja, depois outra, sempre num silêncio mortal, sem trocarem uma única palavra. Lá pela terceira cerveja o sujeito esquisito rompeu o silêncio entre os dois e arriscou uma pergunta: “De onde você é e o que faz?” Chicão disse que era do Crato, estudava no Recife e estava de férias. Viajava à Petrolina para verificar como andavam os negócios do pai. Então o sujeito asqueroso retirou do bolso uma foto e mostrou ao seu companheiro de bebida. Ao verificar a foto, Chicão tremeu. Parecia estar vendo uma de suas fotos recente, que não se lembrava de onde a havia tirado. Então o sujeitão esquisito lhe disse: “Essa cervejinha lhe salvou a vida! Fui contratado para mandar esse cara de Caruaru para os quintos dos infernos. Recebi informações que ele iria a Petrolina nesse ônibus e confundi você com ele. Agora vou voltar e ficar esperando outro ônibus.”
Diante deste exemplo, em que além da sorte, uma cervejinha gelada salvou a vida do amigo Chicão, só me resta enviar um recadinho ao meu sósia de Sobral. Pelo amor de Deus, doutor Eduardo, não conquiste inimigos, pois eu não sei convidar desconhecidos para partilhar comigo uma cervejinha. E quem sabe se terei a mesma a sorte do amigo Chicão?

Carlos Eduardo Esmeraldo
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as "estórias" de Monsenhor Murilo…

Renato Casimiro, ex-professor da UFC, Doutor em Química, escritor, historiador, ensaísta e um dos bons intelectuais de Juazeiro do Norte, vem escrevendo, semanalmente, no blog http://www.juaonline.info/, “estórias” protagnizadas pelo saudoso Monsenhor Francisco Murilo Corrêa de Sá Barreto.

A última produzida foi a abaixo:

ESTÓRIAS DO MURILO (LXXII)…
Esta foi contada por Carlos Eduardo Esmeraldo, ex-engenheiro da Coelce: No dia 22.06.1988 o Vasco da Gama, o time do coração de Pe. Murilo, sagrou-se campeão carioca, vencendo o Flamengo. O personagem folclórico neste campeonato foi o lateral-direito do Vasco, Cocada. Durante a final do campeonato, onde o empate dava o título ao time de São Januário, Cocada entrou em campo aos 42 minutos do segundo tempo, quando estava 0×0.
No minuto seguinte marcou o gol do título e, ao comemorá-lo, tirou a camisa, sendo expulso logo depois. No dia seguinte, aconteceu a Páscoa dos funcionários da Coelce, em Juazeiro do Norte, pelo celebrante Padre Murilo. Depois da tradicional benção final, ou seja, após o “ide em paz e o Senhor vos acompanhe” ele tascou essa: “Agora vocês vão para casa, comam uma cocadinha e bebam água.”

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