Li em “Historias que vi, ouvir e contei”, obra literária do Carlos Eduardo Esmeraldo, um relato atribuído ao Neco Pereira. Sustenta o comentário que ao sentir falta de Pretinho, um jumentinho de sua propriedade, Neco Pereira fez promessa com meu padrinho admitindo, em caso de encontrar o animal, vendê-lo, comprar todo o dinheiro de velas e acendê-las de uma só vez no tumulo do santo padre. O jumento apareceu e o Neco, como bom devoto, tratou de cumprir a promessa. Procurou vender em um lote do qual fazia parte um galo.
Elevou o preço do galo e abaixou o preço do jumento e só vendia o lote completo. Finalmente conseguiu fazer a venda. Pagou sua promessa conforme planejado sem comprometer-se com a sua consciência e sem ter prejuízo. Essa historia do Carlos Esmeraldo me fez lembrar Raimundo Rosa, um caboclo de Vargea-Alegre que também fez uma promessa com São Francisco. Alcançando-a, doou em ação de graças, uma novilha ao santo. 15 anos mais tarde já eram 10 reses o rebanho e por falta dagua e pasto decidiu fazer a entrega dos animais. O velho Raimundo procurou o Padre local, contou a historia da sua promessa em detalhes e perguntou se era preciso Ele se deslocar ao Canindé para fazer a entrega. O padre disse que não era necessário viajar. Tanto fazia entregar no Canindé, em Várzea-Alegre ou em qualquer outro lugar, o que valia mesmo era a intenção. Raimundo Rosa deu uma cubada no padre e disse: já que é assim eu vou entregar para um que tenho lá em casa. Nada mais justo né seu vigário.
O padre ficou lambendo os beiços e Raimundo foi correndo comunicar a novidade à mulher Generosa devota ardorosa de São Francisco.
Outro dia, vi num desses programas rurais que passam nas manhãs de domingo nas nossas tevês, uma inacreditável reportagem mostrando um vaqueiro tangendo o gado montando uma moto e vestido com calças gins e camisa polo. Confesso que fiquei com saudades dos tempos em que os nossos vaqueiros não se separavam de seus cavalos e do gibão. Bons tempos aqueles! Ah que falta do João Bentivi, Raimundo Manezim, e Pedro Mandú! Aqueles sim, eram vaqueiros de verdade! Não como esses janotas, que montados em cavalos mangas-largas, derrubam bois maltratados em um campo aberto. Ao lado de uma faixa de corridas, uma turba de idiotas a ovacionar seus tristes feitos. O vaqueiro de verdade enfrentava a caatinga e seus perigos com muita coragem. Ele e o cavalo eram criaturas que somente se separavam para dormir. Parece que nossos autênticos vaqueiros foram sepultados por essa coisa idiota chamada vaquejada, promovida por empresários de barulhentas e intoleráveis bandas de ruídos, que eles pensam ser forró. O verdadeiro vaqueiro jamais era visto andando em carros, motos ou mesmo a pé. Para qualquer lugar que ele fosse era montado em seu cavalo. A propósito de vaqueiros, lembrei-me de uma pequena historinha da tia Esmeraldina, a irmã mais velha da minha mãe. Ela era professora e com quase 80 anos, continuava sendo a única catequista do Sítio São José. Morava com o seu irmão, meu tio Zeco Esmeraldo e sua mulher Hélia Abath. Toda tardinha, um monte de crianças se reunia num calçadão existente na casa do tio Zeco para as aulas de catecismo. Certo dia, entre indagações de “o Pai é Deus?” “Sim o Pai é Deus”, repetiam as crianças. De repente, ouviu-se a voz da tia Esmeraldina, interrompendo seus ensinamentos,e exclamando com muita admiração, apontando para a estrada que passava a cerca de uns cem metros: “Olhem meninos, que coisa interessante, um vaqueiro andando a pé!” As crianças olharam e uma delas mais desinibida ousou discordar: “Dona Esmeraldina, aquilo lá não é vaqueiro coisa nenhuma. É um doido nu.” “Para dentro de casa todo mundo!” Falou minha tia, cortando deste modo a natural curiosidade das crianças.
Esta é a pergunta mais difícil que os alunos fazem a todo professor de matemática. E a resposta a ser dada é praticamente impossível. Qualquer professor de matemática, entre os quais eu me incluo, sentirá dificuldades em satisfazer a curiosidade de seus alunos sobre as finalidades da matemática. Uma resposta que não satisfaz é a de que, mais tarde, quando o aluno estiver cursando uma faculdade ou na pós-graduação vai utilizar todo aquele conhecimento obtido, este ou aquele teorema. Muitos alunos poderão argumentar que pretendem estudar medicina, letras ou direito e, que, portanto, não irão precisar aplicar aquele monte de equações e fórmulas que lhes são apresentadas como importantes. Da mesma forma, dizer que a matemática é necessária para realizar as medidas das diversas grandezas existentes à nossa volta, não será a resposta esperada pelo aluno. Nem todos estão preocupados com isso. Afirmar que a matemática desenvolve habilidades de cálculo e ajuda a abrir a mente, torna-se aparentemente irrelevante num mundo em que nossos jovens estão familiarizados com os microcomputadores e outros aparelhos eletrônicos. Conforme nos ensina o Professor Geraldo Ávila, membro da Sociedade Brasileira de Matemática – SBM: “existe consistência na afirmação de que a matemática ajuda a expandir o raciocínio, pois ela muito tem contribuído para o desenvolvimento de outras ciências e o progresso da humanidade.” E ele nos acrescenta ainda: “O pensamento matemático vai muito além do raciocínio lógico. A intuição é a faculdade mental que nos permite obter o conhecimento de maneira direta, sem intervenção do raciocínio.” Todo o conhecimento matemático teve início com o uso da intuição, essa extraordinária capacidade que tem o cérebro humano de desvendar possibilidades e, graças a ela, se chegou às grandes descobertas científicas. A matemática está por trás dos avanços tecnológicos recentemente postos à nossa disposição, tais como a eletricidade, os telefones celulares, calculadoras eletrônicas, microcomputadores, televisão digital e os modernos aparelhos para diagnosticar doenças à disposição da medicina, que têm possibilitado tantas curas e ajudado a prolongar a duração da nossa vida. A matemática está presente em todas as áreas do conhecimento humano: na pintura, na arquitetura, na música, como suporte da Física, Química e Astronomia. Na Administração de Empresas ela ajuda a controlar a gestão de estoque com redução de custos, otimizando receitas e conseqüentemente o lucro. A matemática e principalmente a geometria desenvolve importante papel na expansão do raciocínio lógico, fornecendo-nos deste modo, o desenvolvimento da nossa percepção visual e a possibilidade de melhor entendermos a realidade que nos cerca. Ainda segundo o professor Geraldo Ávila, “a maior dificuldade em se perceber os reais objetivos do ensino da matemática, encontra-se no fato de que qualquer pessoa poderá se tornar um artista, escritor, advogado, ou médico, prescindindo dos conhecimentos matemáticos.” Mas fica claro que nenhum deles poderá ser um profissional completo sem um conhecimento mínimo da matemática, da psicologia, da sociologia, de relações humanas, assim como um bom engenheiro ou matemático não poderá prescindir dos conhecimentos mínimos de história, administração, de psicologia, de sociologia, de relações humanas, de direito, de biologia, e tantos outros. Sempre que me deparo com uma pergunta desse tipo, procuro satisfazer as necessidades dos alunos com os argumentos aqui relacionados. Não sei se com isso tenho atendido às suas expectativas, mas é uma tentativa.
Em seu excelente livro “Historias que vi, ouvi e contei” o escritor cratense Carlos Eduardo Esmeraldo faz uma narrativa de causos da nossa região que nos faz rir do começo ao fim. Recomendo a leitura desta bela obra. Como Ele sabe e conta tudo, deixa-nos sem matéria para escrever. Sem estória pra contar. Estou a lembrar uma conversa na qual fui testemunha e o Carlos Esmeraldo não conhece, ou se conhece não a publicou no seu extraordinário trabalho. Estávamos Eu, o AudizioBrizeno, Chico Soares e o Melito Sampaio no comercio deste ultimo. Neste dia o Chico estava caladão, trombudo, não se sabia bem ao certo o que lhe perturbava, o fato é que não estava normal.
Duas coisas havia que o Melito detestava: a cidade Juazeiro do Norte e Romeiro. Pra ele pouco importava se a pedra da batateira rolasse e levasse tudo água a baixo. Neste dia o desanimo do Chico contrastava com a disposição do Melito, estava impossível. Malinava com todo mundo. Conversa vai, conversa vem, uma senhora, com idade aproximada de 65 anos, indumentária de romeira, entra no estabelemento com uma caixa de sapato apoiada no braço esquerdo coberta com um véu branco. Aproxima-se de Melito, retira o véu, descobre dentro da caixa uma imagem de São Sebastião e pede uma esmola, pelo amor de meu padim! Melito encara a mulher e lhe pergunta: espere, ainda não está aposentado? A mulher confunde a pergunta e lhe responde: não, ainda não consegui. As exigências são muitas. Pedem documentos impossíveis de se conseguir. O Melito já sem controlar uma gargalhada aconselha: porque você não bota Ele na emergência? Emergência era uma frente de serviço criada pelo governo para ampara os necessitados em anos de seca. A mulher saiu virada num teteu a menor praga que jogou foi mandar Melito ir para os quintos dos infernos. Quanto mais desaforo dizia a mulher mais o Melito se derretia em sorrisos. Nessa mesma época, a Delegacia da Fazenda, em Crato, promoveu uma verdadeira caça aos sonegadores de imposto. Não dava moleza, saia um fiscal entrava outro. Melito se valeu do Deputado Ossian e a coisa melhorou por alguns dias. Quando o aperto recomeçou veio em doze dupla. Melito falou novamente com o Dr. Ossian que o aconselhou a se organizar. Então, Melito juntou blocos de notas fiscais, livros de anotações fiscais, toda documentação relacionada a fisco, colocou tudo numa caixa, levou para o sitio a fez uma bela coivara, transformando tudo em cinzas. No outro dia cedinho foi a coletoria com a maior moral do mundo. Chegando lá perguntou para o coletor: como é, vão me deixar trabalhar ou vão continuar nessa piega? Eu quero dar uma solução neste problema! Educadamente o Coletor perguntou: onde está a documentação do Senhor. Melito respondeu entreguei aqui. Entregou a quem? Melito observou o ambiente e AluisioRolim estava concentrado numa maquina de datilografar alheio a tudo. O Melito lascou entreguei aquele lá. O coletor se aproximou do Aluisio e disse: cadê os documentos do Melito que o senhor recebeu? Aluisio respondeu: Vou procurar. Por conta da displicência de Aluisio lhe coube uma suspensão de 30 dias. Quando Ossian encontrou Melito lhe perguntou: como foi? Melito respondeu: fiz o que você mandou, me organizei! E Aluisio? Perguntou Ossian. Suspenso, pra aprender a trabalhar, respondeu Melito as gargalhadas.
Essa vai para o historiador Armando Rafael, meu amigo Carlos Eduardo Esmeraldo, o cantor, compositor e professor Jose Nilton Albuquerque, amantes da historia do Crato e de modo especial para o Dihelson Mendonça que registra em seus arquivos todas essas cruezas de nossa boa gente. Em décadas passadas, a APCDEC, promovia o torneio “intermunicipal”, contenda que premiava as equipes dos municípios interioranos que investiam no esporte da bola. Em 1974, Crato e Várzea-Alegre ficaram na mesma chave. No jogo de ida, o médico e desportista Antonio Valdir de Oliveira solicitou do prefeito de Várzea-Alegre Lourival Frutuoso toda atenção com o escrete cratense. Foi contratado o melhor hotel da cidade para fazer a hospedaria. Quando a delegação chegou Dona Emilia, a hoteleira, se esmerou na atenção e cuidados. Desembarcaram do ônibus de seu Orlando craques famosos como: Dote, Chico Curto, Anduiá, Netinho, Luis e Antonio Pé de Pato, Fruta Pão, Pirol, Cibito, o afamado artilheiro Pangaré e outros sob o comando austero do treinador e meu querido professor de historia Alderico de Paula Damasceno. Dona Emilia com muita lhaneza no trato cumprimentou a todos exigindo o nome de cada um deles. No final das apresentações, Gerçon Moreira que representava a imprensa, digo, a Revista Região do Osvaldo Alves, se apresentou como sendo o “Vigário da Batateira”. Vige Maria, Dona Emilia quase cai pra trás. Era muita honra hospedar um padre. Como ia poder fazer um atendimento diferenciado ao Padre sem que os demais percebessem? Os cuidados com a alimentação deviam ser dobrados visto que as 20 galinhas caipiras apimentadas e um “bacurim” de 20 quilos poderiam não atender e agradar ao paladar de todos, em especial do vigário que tinha maior merecedência. O almoço foi servido numa mesa de pau darco medindo 08 metros de comprimento com um e meio de largura colocada na sala do centro do hotel. Dona Emilia espalhou as panelas pela mesa e numa delas havia um “molho pardo” que era a especialidade da casa. Quando Pangaré colocou o arroz e botou duas colheradas da “especiaria” e começou a misturar, Chico Curto, jogador cheio de nó pelas costas, metido a importante, cheio de nove horas, olhou de soslaio e disse: bicho, deixa de ser burro, “chouriço” agente come é no fim! Pra se ter uma idéia até água Dona Emilia havia mandado buscar em garrafões no Crato para agradar aos atletas. Dona “Anunciada”, chefe de cozinha dizia lá com os seus botões, Deus me livre e guarde, mas uma coisa está me dizendo, aqui no meu ouvido, que esse padre não é padre. Antes do jogo houve um principio de embuança por conta do arbitro. Anildo, o bode, queria porque queria apitar e os cabras de lá sabendo que alem de arbitro ele era vereador não aceitaram diante da possibilidade de uma misturação da arbitragem com campanha política. Depois da intervenção do João Ramos, presidente da APCDEC um arbitro se deslocou do Iguatu para apitar o jogo. O jogo transcorreu normalmente, o placar de dois a zero para o Crato era mais ou menos esperado. Nesse dia o artilheiro Pangaré não marcou. Os gols foram contra de Charuto, zagueiro da Batateira, que havia assinado contrato há bem pouco tempo com Várzea-Alegre. No outro dia, o zum zum zum se ouvia de boca em boca. O juiz roubou, deixou de marcar impedimento, que nada rapaz, você já viu gol contra ter impedimento, outro dizia Charuto se vendeu, ele é de lá, quem pode confiar em gente da Batateira? E dona Emilia bradava: só podiam ganhar até o Padre veio! Finalmente eu só não posso informar uma coisa, quando foi que Dona Emilia recebeu a conta! Venha hoje, venha amanhã, o prefeito viajou, a tesoureira está doente, o talonário de cheque acabou!
Numa noite úmida de fevereiro, sentindo-me inadaptado à cidade grande e seus inúmeros rostos estranhos, vi-me, como que de repente, envolvido por uma onda acolhedora que me lançou no meio de um mar de águas mornas, claras e aconchegantes. Meu corpo flutuava livremente, sem necessidade de me esforçar para me manter na superfície daquela água deliciosa. Ao meu lado, uma multidão de rostos desconhecidos também flutuava. O sentimento de cada um daqueles banhistas parecia fundir-se ao meu, num processo de unificação sobrenatural. Inexplicável descrever com precisão a emoção que sentíamos. Um bem estar invadia nossas almas e, aquele prazer inesquecível, que toda criança experimenta num banho de piscina, era comum a todos os companheiros daquele inacreditável passeio aquático. Um velhinho simpático se aproximou de mim sorrindo. Então comentei com ele: – Que banho maravilhoso! Sinto-me outro homem. – Ele então me perguntou: – Você não sabe onde está? – Não. – Respondi. E enquanto a brisa nos transportava suavemente para a praia, ele me disse: – Você morreu. Estamos na vida eterna. – Que bom! – Exclamei com alegria. – Agora vou rever meu pai e minha mãe que estão aqui. – Ao que fui imediatamente contrariado pelo bom velhinho: – Já faz mais de dez mil anos que estou aqui e ainda não encontrei nenhum conhecido. – Também pudera. Há dez mil anos, a população do mundo não era nem duzentos mil habitantes. Agora não, eu conheci muito mais gente que já morreu que o senhor. – Disse-lhe eu todo convencido, enquanto sem que nos déssemos conta, estávamos na praia. Era uma estreita faixa de terra espremida entre aquele lago mágico e um alto que nos lembrava o morro do nosso Seminário. Na encosta dessa pequena elevação uma multidão incalculável se espremia olhado para o topo da montanha. De repente vi duas mocinhas conhecidas lá do Crato, que estudavam em João Pessoa e haviam morrido num desabamento da casa em que moravam, numa noite de grande chuva. E disse pro meu amigo: – Está vendo? Já encontrei duas conhecidas. Aquelas duas moças são lá do Crato. – disse-lhe em tom de vitória. Ele retrucou imediatamente: – Aquelas duas moças têm dois mil anos que morreram. Elas viveram na época de Cristo. Não podem ser do Crato, porque essa cidade ainda não existia. – Completou o amigo. E acrescentou: – É hora de Jesus chegar. Aquele velhinho transpirava bondade por todos os poros e me transmitia uma segurança e bem estar nunca d’antes experimentado. Ajeitei-me nas pontas dos pés para poder melhor visualizar o Mestre, ansiosamente esperado. O meu bom companheiro explicava que todos os dias, àquela mesma hora, o Senhor vinha nos visitar. De repente um forte clarão surgiu por trás de uma nuvem e a multidão toda se agitava. Jesus estava chegando! À medida que Jesus se aproximava do morro, um vento forte balançava nossos cabelos e refrescava o forte calor daquela noite. O clarão aumentava de intensidade fechando nossos olhos automaticamente. Fiz um esforço enorme para abrir meus olhos. Precisava ver Jesus. Naquele exato momento, a luz fluorescente do banheiro fora acesa e o tiquetaque do despertador me lembrava um novo dia de muito trabalho.
Recordo-me com prazer da época em que trabalhei na Administração Regional da Coelce, em Juazeiro do Norte. Para mim, foram tempos inesquecíveis. Ambiente alegre e harmonioso, trabalhadores responsáveis e dedicados, todos eles ciosos dos seus deveres. Qualquer processo operacional a ser implantado pela Coelce tinha no Cariri uma resposta imediata. Não dá mesmo para esquecer os êxitos obtidos pelos eletricistas e técnicos da nossa região. No Departamento Regional da Coelce no Cariri, havia uma tradição de trabalho, fruto não somente do nosso pioneirismo na distribuição da energia elétrica no Estado do Ceará, mas também do vigor laboral do trabalhador caririense. Entretanto, eu não posso esquecer jamais, alguns tipos exóticos que havia na Coelce do Juazeiro. Entre esses, posso destacar o Vicente Torquato. Homem de pequena estatura, muito reservado, barba rala e sempre por fazer, cabelos castanhos claros e vestimentas diferentes das pessoas comuns, o Torquato era um alcoólatra incorrigível. Algumas opiniões médicas asseguram que o alcoolismo é uma doença. E doença de cura muito difícil, acrescento eu. Geralmente pessoas acometidas desse mal, quando libertadas da bebida, apresentam-se como cidadãos responsáveis e produtivos. Eu tinha a mania de tentar recuperar esses tipos difíceis. No caso do Torquato, as técnicas aplicadas aos outros excêntricos não funcionaram, foram apenas tentativas em vão. Em outros casos, até tivemos alguns êxitos. Mas com relação ao nosso amigo Torquato, confesso que eu e a Assistente Social da Coelce fomos humilhantemente derrotados. Certo dia, em pleno horário de expediente, eu fui convidado para ver a mesa de trabalho do Torquato. Ela estava transformada num pequeno altar: velas acesas, queima de incensos, santos por todos os cantos e ele sentado, vestido num manto franciscano, com um cordão daqueles usados pelos frades, a cingir sua cintura. Parecia estar presidindo um culto sagrado a alguma divindade imaginária. Segundo informações por mim obtidas, ele havia sido anos antes um funcionário muito produtivo. Era mais um entre tantos, que se tornara assim meio esquisito e alcoólatra depois de um casamento mal sucedido. Numa tarde de sábado, próximo à nossa mudança para Fortaleza, Magali, um tanto quanto assustada, veio me avisar que havia um homem muito estranho à porta de nossa casa. Com certa curiosidade, fui até o portão para ver esse tipo aterrorizador. Era o Vicente Torquato e me preparei para ouvir uma longa cantilena. Ele já estava aposentado e foi à nossa casa com uma Bíblia dessas bem grandes na mão. Disse-me que estava colhendo assinaturas na sua Bíblia das pessoas importantes do Crato, começando pela ordem daqueles que ele considerava mais importante. Ao abrir a Bíblia, havia apenas a assinatura de Dom Vicente Matos. Assinei embaixo, ele agradeceu e logo saiu, dizendo que iria procurar o prefeito. Depois disso, soube que ele estava morando num pequeno quarto, nas proximidades do Gesso, recebendo os cuidados de uma senhora caridosa que ali residia. Passados mais dois ou três anos, soube do seu falecimento. Entre as muitas histórias que me contaram sobre o Torquato, merece destaque a cobrança das contas de energia que, certa vez ele foi fazer na cidade de Várzea Alegre, terra do nosso amigo Antônio Morais. Nos últimos anos da década de 1960, não havia bancos e nem escritório da ex-Celca nas outras cidades da região. Mensalmente, funcionários do Juazeiro se deslocavam num velho jipe, trafegando em poeirentas e perigosas estradas carroçáveis para execução do trabalho de distribuição e arrecadação das contas de energia. Entretanto, naquela época, começaram a ocorrer sucessivos assaltos ao “carro pagador” da Celca. Então decidiram que a pessoa que fosse fazer tal serviço deveria ir de ônibus, sem fardamento, como se fosse um passageiro comum. Operação essa não menos arriscada, na minha modesta opinião. Para Várzea Alegre convocaram o nosso amigo Torquato, cobrindo-o de recomendações mil para o cuidado com os ladrões. Chegando a Várzea Alegre, antes de começar o trabalho, o Torquato foi à feira da cidade e comprou um pote de barro de tamanho médio, desses que comporta uns dez litros de água mais ou menos. Em seguida, comprou um saco de amendoim em casca e foi trabalhar. Em primeiro lugar ele distribuiu as contas de energia, e em seguida passou a fazer a arrecadação. Concluído o serviço, em vez de voltar para o Juazeiro de ônibus, conforme lhe fora recomendado, preferiu viajar na parte de trás da carroceria de um velho Misto, bonezinho na cabeça, comendo amendoim do potinho que comprara na feira, parecia um mendigo sem nenhuma preocupação com dinheiro e ladrões. Ao chegar a Juazeiro foi fazer a prestação de contas, acompanhado do seu inseparável pote cheio de amendoim. Os diretores da Celca ficaram assustados quando ele começou a retirar amendoim do pote e colocá-lo no chão. Quando todo o amendoim foi retirado, é que apareceu no fundo do pote todo o produto da arrecadação que o Torquato fora fazer. Eis aí a criatividade do nosso sertanejo encontrando uma bela maneira de despistar ladrões e transportar valores com segurança. Não sei se essa técnica ainda funciona. Os ladrões de hoje em dia, além de muito mais requintados, andam fortemente armados e não têm o menor respeito pela vida dos outros.
Jogador de futebol mascarado era um termo usado há mais de 50 anos, quando se desejava classificar um atleta que jogava exclusivamente por dinheiro, não por amor à camisa, como se dizia então. Além do salário recebido, tal jogador exigia um pagamento extra para entrar em campo, principalmente em jogos decisivos. Hoje esse termo está em desuso. Talvez porque num futebol em que milhões de dólares são reles quinquilharias, não ser mascarado, tornou-se uma grande exceção. Até início dos anos setenta, os clubes de futebol rejeitavam jogadores com essa fama. E não se ouvia falar que qualquer grande clube brasileiro tivesse um jogador mascarado. Quantos craques deixaram de vestir a camisa da seleção brasileira, aspiração máxima de qualquer jogador, por causa da maldita fama de mascarado! Naquela época, os jogadores eram retratos das organizações cujas cores defendiam com muito amor, suor e sangue. Passavam mais de vinte anos numa mesma equipe. Não havia este troca-troca de camisas que se vê atualmente. Quando se falava em Ademir da Guia, lembrávamos logo do Palmeiras; Pelé era a encarnação do Santos, assim como Dida e Zico, Ademir Menezes e Roberto Dinamite foram sinônimos de Flamengo e Vasco. O futebol do Crato de ontem também teve seus casos de jogadores mascarados. No meado dos anos sessenta, quando Anduiá ainda reinava absoluto no velho campo do Sport, surgiu um menino franzino, baixinho, de futebol muito vistoso. Imediatamente recebeu o batismo de Quinco Curto. Do campo do Sport para a quadra bi-centenário foi uma ascensão rápida. Era um craque nas duas modalidades do futebol: salão e campo. Daí para nossa seleção que iria disputar o Campeonato Intermunicipal foi um piscar de olhos. Sem ele no time, as vitórias se tornariam muito mais difíceis. De repente, a fama do nosso craque ganhou as manchetes dos jornais de Fortaleza. Era a revelação do Intermunicipal. A nossa seleção estava classificada para semifinal contra a seleção de Maranguape. O jogo era no Estádio Presidente Vargas. Conforme me contou o médico Valdir Oliveira, que presidia a delegação cratense de futebol que fora a Fortaleza, Quinco Curto foi para ele motivo de grandes aborrecimentos. Por questões de custos, ele hospedou nossos atletas no Hotel Passeio, localizado à Rua Dr. João Moreira, bem defronte ao Passeio Público, conhecido ponto de encontro de prostitutas. A área, portanto, não era muito adequada para concentração de jogadores de futebol e, por isso, a vigilância deveria ser redobrada. No sábado, véspera do jogo, dirigentes do Ceará e do Fortaleza acorreram ao Hotel Passeio na busca de contratarem Quinco Curto, a nossa revelação. O nosso Quinco se encheu de “pose” por saber que estava tão valorizado. No domingo pela manhã, o café dos atletas estava servido. Mesa farta, como nunca acontecera antes naquele hotel: mamão, melancia, laranja, cuscuz, tapioca, carne assada, leite, coalhada, bolos, sucos diversos e café. Verdadeiro banquete! Serviço cinco estrelas, longe dos padrões habituais do Hotel Passeio. Ao sentar-se à mesa, o nosso craque Quinco pediu maçã. O proprietário do hotel lhe informou que infelizmente não tinha maçã. Naquela época, até em Fortaleza era difícil encontrar maçã. Fruta que ainda não era cultivada no Brasil, vinha da Argentina, e devido às muitas restrições impostas aos produtos importados, poucas lojas de Fortaleza dispunham de maçãs à venda. Então o Quinco Curto se dirigiu ao Dr. Valdir e falou decidido: “Só jogo hoje se tiver maçã!” Foi um Deus nos acuda! Correria por todos os mercados de Fortaleza e nada de se encontrar uma maçã sequer. Já próximo do meio-dia, o doutor Valdir lembrou-se de que na Cooperativa dos Bancários do Crato tinha maçã, então, pensou ele, na de Fortaleza deveria ter também. Procurou um amigo bancário e junto com este foram atrás do gerente da Cooperativa para conseguir as maçãs exigidas pelo craque Quinco Curto. Desejo atendido, às quatro horas da tarde em ponto, a nossa esperança entrava em campo. Tamanho sacrifício, entretanto, foi inútil. Nossa seleção foi humilhantemente eliminada. E o craque Quinco Curto arrastava-se em campo, provavelmente acometido de insidiosa indigestão, pois comeu maçãs até se fartar. Quanto ao meu saudoso amigo Valdir Oliveira, acredito que depois dessa experiência, não mais passou por perto de um campo de futebol.
OBSSERVAÇÕES: 1. Essa história é verídica, mas Quinco Curto é um nome fictício. 2. Minhas homenagens ao amigo e médico Valdir Oliveira.
No Crato dos anos cinqüenta einício dos anos sessenta, existia um sistema telefônico muito primitivo, como os antigos PBX, manual, da empresa STIL – Serviço Telefônico Interior Ltda. Os aparelhos telefônicos pretos eram acionados por uma manivela que dava o sinal a uma telefonista que atendia na central. Esta funcionava numa salinha apertada na esquina da praça Juarez Távora com Senador Pompeu. Lembro-me de que eu passava horas olhando, da janela dessa precária central, a telefonista a trabalhar. Não me cansava de admirar uma espécie de tampinha desgrudar de um painel vertical, existente sobre uma mesa, defronte da qual estava a telefonista, permanentemente com o fone nos dois ouvidos. Alguém, após ficar com o braço dolorido de tanto rodar a manivela do aparelho de sua casa, fazia deslocar, por impulsos eletromagnéticos, essa dita tampinha e dizia à telefonista do centro, com quem desejava falar e, então, esta completava a ligação. O sistema telefônico tinha ultrapassado a sua vida útil e estava a ponto de se exaurir.
A coisa estava tão insuportável que o popular Ramiro, lá do Alto do Seminário, ao atender a uma ligação da madre superiora do convento das freiras para o reitor, monsenhor Pedro Rocha, assim satirizava:
– Alô, é do Seminário. Quem fala é Ramiro.
– Ramiro, é a madre Tereza. Por favor, fale mais alto!
Ramiro subiu numa cadeira e respondeu:
– Pode falar irmã, já estou um pouco mais alto.
– Ramiro, fale mais alto, por favor! – gritava a superiora.
Ramiro viu como única opção, subir em uma mesa. E, então, disse:
– Pode falar, irmã! Já estou mais alto ainda.
– Ramiro, mais alto. Não estou ouvindo nada.
Ramiro, então, tomou a cadeira e colocou-a sobre a mesa. Depois de subir nela, voltou a insistir:
– Pronto, irmã. Pode falar agora.
– Ramiro, vê se você consegue falar mais alto. Desse jeito não tem quem ouça.
– Irmã, não posso falar mais alto do que isto. Já estou no Alto do Seminário, em cima de uma cadeira, que está em cima de uma mesa. Mais alto ainda só se eu for pro céu!
Finalmente, o velho Sistema Telefônico da STIL emudeceu de vez, deixando a cidade do Crato sem esse moderno meio de comunicação.
Cansados de esperar pelo poder público, um grupo de empresários cratenses se reuniu e criou uma empresa telefônica, a Sertesa – Serviços Telefônicos do Crato S.A. Constituída a empresa, logo trataram de adquirir uma pequena central automática com mil unidades de telefones.
Foi uma festa a inauguração do novo telefone, em 1965. As pessoas ligavam de uma para a outra, sem a menor necessidade, somente para testar a novidade. Todos estavam admirados com a maravilha da tecnologia. Minha sobrinha Rosineide, na época uma adolescente, ao sair à calçada de sua casa e avistar sua vizinha e amiga Ana Maria, que morava na casa defronte, assim dizia:
– Mulher, vai pra tua casa, que eu vou te telefonar. Tenho uma novidade para te contar.
Daí para os trotes, foi uma questão de tempo. E a molecagem do Crato se esmerou na arte de passar trotes.
– Alô. Boa-tarde. Aqui é da Sertesa, estamos testando o telefone – dizia a voz misteriosa, que se fazia passar por funcionário da Sertesa.
– Pois não. A ligação está boa – respondia a vítima.
– A senhora, por favor, estique bem o fio do seu aparelho. – insistia o moleque.
– Pois não. – falava novamente a vítima.
– Está bem esticado?
– Está, sim.
– Pois, então, enfie no… – completava o despudorado.
Seu Chiquinho, o dono da fábrica de gelo, também foi vítima dos trotes:
– Alô, é da fábrica de gelo?
– É, sim, senhor.
– Quem está falando?
– É o Chiquinho.
– Seu Chiquinho, aí tem gelo?
– Tem sim – respondia o comerciante.
– Tem uma barra bem grande?
– Sim, temos barra de gelo de um metro.
– Pois seu Chiquinho, sente em cima dela, que daqui a pouco eu passo aí pra conhecer um velho fresco.
O nível dos trotes ia andando por aí, e a situação piorava cada vez mais. A ousadia de quem se prestava a essa vil brincadeira não conhecia limites. Tiveram até a petulância de ligar para o convento das freiras:
– Alô, de onde fala?
– Do Convento das Filhas de Santa Tereza de Jesus.
– Desejo falar com a irmã Virgem – dizia a voz misteriosa.
– Aqui não há nenhuma irmã Virgem – respondia a santa e ingênua irmãzinha.
– Eu bem que desconfiava. Era isso mesmo que queria saber…
Transcrito do livro: “Histórias Que Vi, Ouvi e Contei (do mesmo autor)
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TV CHAPADA DO ARARIPE
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O Chapada do Araripe presta homenagens a um dos maiores mestres da cultura popular que faleceu em Crato recentemente, Francisco Correia de Lima, o Correinha, artista de várias linguagens atuante no município do Crato. Mestre Correinha nasceu no município de farias Brito no dia 14 de fevereiro de 1940, mas era um amante inveterado do Crato, município ao qual costumava fazer referências em suas canções. Talvez por não ter tido seu nome incluído nas listas anuais de mestres reconhecidos pelo Governo do Estado desde 2004, mestre Correinha tenha sido sepultado em meio a homenagens comoventes de moradores do município, mas, como ressaltaram amigos e familiares, sem o devido destaque por parte do Poder Público. Situação destacada durante a sua missa de corpo presente, enriquecida pelo acordeon de Hugo Linard, com quem Correinha gravou recentemente, 15 canções que agora constituem o último registro de sua obra. Segundo o próprio Hugo Linard, as canções registradas nesse último trabalho de Correinha em estúdio são, na maioria, inéditas. ´Ele gravou também ´Belezas do Crato´, mas as outras não tinham registro´, diz, citando canções como ´Coisas do meu sertão´, ´Exaltação a Barbalha´, ´Crato de Açúcar´ e ´Meu Cariri´ e ´Balanceio´. ´Fazia tempo que a gente tava cutucando ele, dizendo que ele tinha que gravar de novo. Ele fez dois compactos e outros discos, no tempo do vinil, além de vários cordéis´. Hugo Linard chama atenção para aspectos peculiares da trajetória de Correinha. ´Ele mantinha um bar aqui no Crato e ainda trabalhava como agente carcerário. Era tão querido que os presos pediram à família por ocasião do seu velório, para deixar um pouco o corpo dele lá na cadeia, para eles o homenagearem´.
Dalwton Moura
Previsão do Tempo
Garota Blog do Crato
O Concurso Garota Blog do Crato foi prorrogado até Agosto de 2009. O Concurso visa promover e divulgar a beleza da mulher cratense a nível nacional. A participação é gratúita e serão distribuídos no mínimo, R$ 1.000,00 entre as 3 finalistas. O Blog do Crato apresentará um ensaio com a garota da semana. Serão escolhidas 24 garotas do Blog. Ao final, será feita enquete de rua, e enquete do Blog, e serão escolhidas primeiro, segundo e terceiro lugares, que serão premiadas com troféus e dinheiro. A premiação deverá ser realizada em grande estilo, num clube da cidade, com todas as 24 garotas escolhidas pela votação. Para participar, entre em contato através do e-mail blogdocrato@hotmail.com ou Tel: 088-3523-2272. Visite o site da garota Blog do Crato, para maiores detalhes, clique aqui.
Dicas de Filmes
O Perfume
Sinopse: Jean-Baptiste Grenouille é um francês que nasceu sem cheiro próprio, mas com o olfato apuradíssimo. Tendo aprendido a manipular perfumes quando jovem, ele passa a capturar vários odores, em busca do que ele venha a considerar o perfeito. Até que ele fica obcecado com um: o perfume de uma bela e jovem virgem.